terça-feira, 7 de maio de 2013

O Rei Sapo



Antigamente, no tempo de Dom João Charuto, vivia um rei cujas filhas eram todas belas. A mais nova era tão bonita que até o sol, que já vira tanta coisa, ficava maravilhado quando seu rosto brilhava.

Havia uma floresta densa, escura, perto do castelo do rei, e nela, debaixo de uma velha tília, tinha uma fonte. Quando fazia muito calor, a filha do rei ia para a mata e se sentava à beira da fonte fresca. Para não se entediar, levava sua bola de ouro, para jogá-la no ar e pegá-la. Era sua brincadeira favorita.

Um dia, quando a princesa estendeu as mãos para apanhar a bola de ouro, ela escapou, caiu no chão e rolou direto para a água. A princesa seguiu a bola com os olhos, mas ela desapareceu naquela fonte tão funda que nem se conseguia ver o fundo. Os olhos da princesa ficaram marejados de lágrimas, e ela se pôs a chorar cada vez mais alto, incapaz de se conter.

Uma voz interrompeu seu choro e gritou:
“O que aconteceu, princesa? Até as pedras chorariam, se pudessem ouvi-la.

Virando-se para descobrir de onde vinha a voz, ela viu um sapo que pusera sua feia cabeçorra fora d’água.

“Oh, é você, seu velho chapinhador.” Cumprimentou ela. “Estou chorando porque minha bola de ouro caiu na fonte.”

“Fique sossegada e pare de chorar.” Disse o sapo. “Acho que posso ajudá-la, mas o que vai me dar se eu apanhar seu brinquedinho?”

“Tudo que quiser, querido sapo.” Ela respondeu. “Meus vestidos, minhas pérolas e minhas jóias, até a coroa de ouro que estou usando.”

O sapo respondeu: “Não quero seus vestidos, suas pérolas e jóias ou sua coroa de ouro. Mas se prometer gostar de mim e deixar que eu seja seu companheiro e brinque com você, que fique do seu lado na mesa e coma do seu pratinho de ouro, beba do seu copinho e durma na sua caminha, se me prometer tudo isto, mergulharei na fonte e trarei de volta sua bola de ouro.”

“Ah, sim!” Disse ela. “Darei tudo o que quiser desde que traga aquela bola de volta para mim.”

Enquanto isso, porém, não parava de pensar:
“Que disparates esse sapo estúpido está dizendo! Lá está ele na água, coaxando sem parar com todos os outros sapos. Como poderia alguém querê-lo como companheiro?”

Uma vez que a princesa lhe deu sua palavra, o sapo enfiou a cabeça na água e afundou na fonte. Passado algum tempo, apareceu de volta chapinhando com a bola na boca e atirou-a no capim.

Quando a princesa viu o lindo brinquedo na sua frente, ficou radiante. Pegou-o e saiu correndo com ele.

“Espere por mim!” Gritou o sapo. “Leve-me com você. Não consigo correr assim.”

Coaxou o mais alto que pôde, mas não adiantou nada. Sem lhe dar a menor atenção, a princesa correu para casa o mais rápido que suas pernas permitiam, e bem depressa se esqueceu do pobre sapo, que teve de voltar rastejando para a fonte.

No dia seguinte, a princesa sentou-se para jantar com o rei e alguns cortesãos. Estava entretida, comendo em seu pratinho de ouro, quando ouviu alguma coisa se arrastando pela escada de mármore acima.

"Ploc, plac, ploc, plac."
Ao chegar no alto da escada, a coisa bateu à porta e chamou:
“Princesa, princesa caçula, deixe-me entrar!”

A princesa correu até a porta para ver quem estava ali. Ao abrir, viu o sapo bem na sua frente. Apavorada, bateu a porta com toda força e voltou à mesa. O rei, percebendo que o coração dela batia forte, disse: “Do que está com medo, minha filha? Será que está aí na porta alguma espécie de gigante que veio pegá-la?”

“Oh, não!” Ela respondeu. “Não era um gigante, mas era um sapo repelente.”

“O que quer um sapo contigo?”

“Oh, querido pai, ontem quando eu estava brincando junto à fonte minha bolinha de ouro caiu na água. Chorei tanto que o sapo foi buscá-la para mim. E, como ele insistiu, prometi que poderia se tornar meu companheiro. Nunca pensei que ele seria capaz de sair da água. Agora está aí fora e quer entrar para ficar comigo.”

Naquele instante ouviu-se uma segunda batida na porta, e uma voz gritou:
“Princesa, princesinha! Deixe-me entrar. Acaso esqueceu o que lá, junto à fonte fria, chegou a jurar? Princesa, princesinha! Deixe-me entrar.”

O rei declarou:
“Se fez uma promessa, então tem de cumpri-la. Vá e deixe-o entrar.”

A princesa foi abrir a porta. O sapo pulou para dentro da sala e seguiu-a até que ela chegou à sua cadeira.

Então ele exclamou:
"Erga-me e ponha-me do seu lado.”

A princesa hesitou, mas o rei ordenou que obedecesse.

Uma vez sobre a cadeira, o sapo quis ficar sobre a mesa, e uma vez que estava lá, disse:
“Empurre seu pratinho de ouro para mais perto de mim para podermos comer juntos.”

A princesa fez o que ele mandou, mas era óbvio que não estava feliz com aquilo.

O sapo tinha adorado a refeição, mas ela engasgou a quase cada garfada.

Finalmente o sapo disse:
“Já comi bastante e estou cansado. Leve-me para o seu quarto e dobre a colcha de seda em sua caminha.”

A princesa começou a chorar, com medo do sapo viscoso. Não ousava tocá-lo, e agora ele ia dormir em sua cama bonita e limpa.

O rei se zangou e disse:
“Não deveria desdenhar alguém que a ajudou quando estava em dificuldade.”

A princesa apanhou o sapo com dois dedos, carregou-o até seu quarto e o pôs num canto. Quando ia se deitar, ele veio se arrastando e disse: “Estou cansado e quero dormir, tanto quanto você. Erga-me e ponha-me na sua cama, senão vou contar para o seu pai.”

Exasperada com aquilo, a princesa pegou o sapo e o atirou com toda força contra a parede. “Descanse agora, sapo asqueroso!”

Quando o sapo caiu no chão, não era mais um sapo, mas um príncipe com olhos bonitos e brilhantes. Contou-lhe que uma bruxa malvada lançara um feitiço sobre ele e que somente uma princesa poderia libertá-lo.

Por ordem do pai da princesa, tornou-se o querido companheiro e marido dela.

Planejaram partir no dia seguinte para o reino dele. Os dois adormeceram e, de manhã, depois que o sol os despertou, chegou uma carruagem. Era puxada por oito cavalos brancos com arreios dourados e penachos de avestruz brancos nas cabeças. Atrás da carruagem vinha o Fiel Henrique, o servo do jovem rei.

O Fiel Henrique ficara tão entristecido com a transformação de seu senhor em sapo que lhe tinham posto três arcos em volta de seu peito para impedir que seu coração arrebentasse de tanta dor e sofrimento.

Agora a carruagem chegara para levar o jovem rei de volta ao seu reino. E o Fiel Henrique ergueu os dois, ajudando-os a entrar na carruagem, e tomou seu lugar na traseira. Estava eufórico com a quebra do feitiço.

Depois de percorrerem uma boa distância, o príncipe ouviu um estalo atrás de si, como se alguma coisa se tivesse quebrado. Virou-se para trás e exclamou:
“Henrique, a carruagem está desabando!”

“Não, meu senhor, não é a carruagem. É um arco aqui em meu peito arrebentando, tamanho foi o meu sofrimento quando na fonte vi o senhor a chapinhar. Tão belo príncipe como um sapo a coaxar!”

Duas outras vezes o príncipe ouviu o estalo, e achou que a carruagem estava se desmanchando. Mas era só o barulho dos arcos em volta do peito do Fiel Henrique rompendo-se de tanta felicidade, porque seu senhor fora libertado.
 Irmãos Grimm

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