Ana Miranda - Atriz, poetisa e romancista brasileira




"As rédeas da liberdade
Antes que passe a tarde
Antes que cesse o vento
A vida nunca é tarde
A vida nunca é solteira
A vida é uma brincadeira
Que se brinca sem brincar
Debaixo da laranjeira
Atrás do fogão a lenha
O muro de uma açucena
A queda da buganvília
A florzinha do jasmim
A vida nunca é pequena
Pequeno é o seu altar"



"E quando ali retornarmos
Verás que nunca nos fomos
Pois o lugar onde estamos
O lugar onde estaremos
É sempre o lugar que somos."




"Mundo mundo vasto mundo
Sem rumo determinado
Campos campos campos tantos
Num recanto tão perdido
Que se pode reencontrar
Bel-fazer e bel-amar
Um cárcere ou qualquer outro
A esquecer e desdenhar
Por um gole de aguardente
Por dois goles de cachaça
O matuto do Caraça
Notanto o sol a deitar
Sem pensar no que passou
A querer desconfiar
Abelha-de-poucas-flores
À sombra da gameleira
A meiguice do ficar."


"Eu vi num sonho, menino
Que a minha geografia
Arrumou a minha alma
Num palmo de areia branca
Com ondas duras de pedra
Num vasto mar esmeralda
E vislumbrou meu destino
Menina despedaçada
Despedaçada que seja
Num doce despedaçar
Na languidez feminina
Na insensatez de uma ameixa
O poço da timidez
Oferecendo seu verso
Rabiscado no caderno
Sua doce pequenez
Sua pele de azulejo
A sua alma tão erma
O seu cabelo tão noite
Sua boca de cereja
Pois se eu era pequenina
Pequena sou outra vez
Suaves gotas de orvalho
Numa flor, valha-me Deus
Menina tão aplicada
Te esperando numa esquina
Que não sei se vais cruzar
Se não cruzares agora
Valha-me Nossa Senhora
Vou eu me despedaçar."


"A vida seria sem graça
Se tudo permanecesse
Se o tempo não percorresse
O caminho de uma esfera
Se o dia não fosse em frente
Na baça metamorfose
De uma última quimera."

"Passa a lenta madrugada
Passa a palavra ardida
Que fere a funda ferida
Aberta antes de mim

Vai-se a mágoa, o sentimento
Nas águas do lago as furnas
A festa da luz divina
A ordem determinada
A chuva da Santa Graça
Nas colinas do receio
Momento de comunhão
Quando os anjos se desvelam
Amplos campos de café
Descalvado de algodão
Infinito canavial
A chuva que vem molhar
Cavalos sem suas selas
Telhados sem seus beirais

E Jesus desce na cruz
Para nos salvar

Nos braços de sua mãe
Nos braços do Cristo morto
A procissão vai passar"
 
"Passa o boi, passa a boiada
Passa a lua e a madrugada
Passa a vida relembrada
Só não passa o meu amor

Não passa o meu sentimento
De que não tenho momento
De que não tenho aonde ir
De que não sei de onde vim
De que tenho uma pergunta
Mais fria que o ar da noite
Mais densa do que a neblina
Maior que a serra daqui"
 
"Na igreja e na cozinha
Na panela a fumegar
Mexendo em tachos de cobre
Os doces de uma rainha
Morando em minha cintura
Nossa Senhora de Fátima
Nossa senhora da lágrima
Nossa senhora da cura
Nossa senhora do mel
Nossa senhora da pátina
Nossa senhora do esmero
Nossa senhora cristal
Minha senhora, socorro
Quase morro."
"A caligrafia das rugas
A caligrafia das mãos
Segredos compartilhados
Segredos velhos da lida
Segredos de uma família
Segredos do apostolado."

"Viste a menina pálida
Que ao baile não foi bailar?
Chorou toda a madrugada
Desmaiada no espaldar
Sapatinho de veludo
Mamãe me mandou ficar
Veio o moço capa e espada
Veio o ímpeto do dia
O travesseiro de pena
E toda a melancolia
Da janela sempre aberta
Passando a vida acolá

'O amor já é de si
Um grande arrependimento.'

Debruçada no convento
Só não passa pensamento
Devaneio enfim não passa
E a chama que sempre arde
Ela reza e quer amar
Mas o amor não permite
Porque vive no limite
Abnegado tormento
O lamento não aceita
Não suporta a gelidez

De um vento sublunar
Receita de pão-de-ló
Forno de rosca caseira
Menina despedaçada
Bordando pano de prato
O pé fora do sapato
O tapete a desfiar

O tapete dos meus sonhos
Teus pés a cariciar."

"Meu bisavô foi tropeiro
O meu pai foi andarilho
E eu pito o meu tabaco
Deitado na palha do milho
O meu amor foi primeiro
Teu amor ficou comigo

Diziam os velhos antigos
Amor sempre vai ficar
Amor que fica primeiro
Amor picando o meu peito
Amor verdadeiro amor
Amor beijando meus lábios
Um amor no cativeiro
E hoje diz o meu filho
No momento derradeiro
Indo da montanha às abas
No meio de bois e cabras
O amor sempre foi demente
O crente do amor é tolo
Não se elogia um burro
Antes de um atoleiro
Amor nunca foi cigarro
Que se queima num braseiro
E aquelas cinzas que passam
São cinzas eternamente

Já dizia o meu avô
E minha avó repetia
Amor que fica sozinho
É amor que parte primeiro

O meu bisavô tropeiro
Viajava o dia inteiro
Pelo caminho da pedra
Pois na pedra tudo fica
E passa o passo a seguir."


"Eu vim de lá das colinas
Eu sempre vivi por lá
Lá nada passa, e se inclina
Na encosta da montanha
Tudo o que vem de cima
Tudo o que vem do alto
No mistério do cobalto
Negro ouro reservado
A madre a oferecer
Meu reino por um cavalo
Meu reino por um santuário
Meu reino por uma flor

O reino das altas terras
O reino da solitude
Reino das águas claras
Caindo pelo grotão
Reino de gotas douradas
Reino em lírico verdor
As aves que aqui gorjeiam
Cantam o teu sofrimento
Mas aqui, embora doa
O povo tem mais amor."

Atriz, poetisa e romancista brasileira, Ana Maria Nóbrega Miranda nasceu em Fortaleza, 1951, deixando sua terra natal com 5 anos de idade, só retornando 50 anos depois. Viveu no Rio de Janeiro, Brasília, Estados Unidos, França, lugares em que realizou um extenso trabalho literário.


Livros publicados
  • Anjos e Demônios, poesia, José Olympio Editora/INL, Rio de Janeiro, 1978;
  • Celebrações do Outro, poesia, Editora Antares, Rio de Janeiro, 1983;
  • Boca do Inferno, romance, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 1989;
  • O Retrato do Rei, romance, Companhia das Letras, São Paulo, 1991;
  • Sem Pecado, romance, Companhia das Letras, São Paulo, 1993;
  • A Última Quimera, romance, Companhia das Letras, SP, 1995;
  • Clarice, novela, Companhia das Letras, São Paulo, 1996;
  • Desmundo, romance, Companhia das Letras, SP, 1996;
  • Amrik, romance, Companhia das Letras, SP, 1997;
  • Que seja em segredo, antologia poética, Editora Dantes, Rio, 1998;
  • Noturnos, contos, Companhia das Letras, São Paulo, 1999;
  • Caderno de sonhos, diário, Editora Dantes, Rio, 2000;
  • Dias & Dias, romance, Companhia das Letras, SP, 2002;
  • Deus-dará, crônicas, Editora Casa Amarela, São Paulo, 2003;
  • Prece a uma aldeia perdida, poesia, Editora Record, São Paulo, 2004;
  • Flor do cerrado: Brasília, infanto-juvenil, Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2004;
  • Lig e o gato de rabo complicado, infantil, Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2005;
  • Mig, o descobridor, infantil, Editora Record, Rio de Janeiro, 2006;
  • Tomie, cerejeiras na noite, infanto-juvenil, Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2006;
  • Lig e a casa que ri, infantil, Companhia das Letras, 2009;
  • Yuxin, alma, romance, Companhia das Letras, São Paulo, 2009;
  • Carta do tesouro, infantil e adulto, Armazém da Cultura, Fortaleza, 2010;
  • Mig, o sentimental, infantil, Editora Record, Rio, 2010;
Trabalhos como atriz
  • A Rainha do Rádio (1979)
  • O Princípio do Prazer (1979)
  • Crônica de um Industrial (1978)
  • Na Ponta da Faca (1977)
  • Padre Cícero (1976)
  • A Lenda de Ubirajara (1975)
  • Ovelha Negra, Uma Despedida de Solteiro (1974)
  • O Capote (1973) (TV)
  • A Faca e o Rio (1972). Maria
  • Amor, Carnaval e Sonhos (1972)
  • Mãos Vazias (1971)
Prêmios 

  •          Prêmio Jabuti - revelação do ano (1990) com Boca do Inferno
  •         Prêmio Jabuti - Romance (2003) com Dias & Dias
  •         Academia Brasileira de Letras (2003) com Dias & Dias

Seu livro Boca do Inferno foi traduzido para vários idiomas, tendo sido incluído no Cânon dos Cem Maiores Romances em Língua Portuguesa no Século XX, preparada por diversos críticos e professores brasileiros e portugueses, publicada no jornal O Globo (Caderno Prosa & Verso, 5/set/1998). O mesmo livro mereceu verbete na Enciclopédia Britânica, anuário 1990; e na enciclopédia alemã de literatura, Kindlers Literaturlexicon.



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