O Dragão Azul e o Dragão Amarelo




“Os Dragões talvez sejam uma das primeiras manifestações culturais, ou mito, criados pela humanidade. Acredita-se que possam ter surgido da observação pelos povos antigos de fósseis de dinossauros e outras grandes criaturas, como baleias, crocodilos ou rinocerontes.

Aparecem nas tradições mitológicas de quase todos os povos do mundo. São representados como animais de grandes dimensões, normalmente de aspecto reptiliano (semelhantes a imensos lagartos ou serpentes), muitas vezes com asas, plumas, poderes mágicos ou hálito de fogo.  Eles são os governantes dos rios, da chuva, lagos e mares. Voam nos céus e percorrem as entranhas da Terra e dos Oceanos. Assumem, em cada cultura, uma função e uma simbologia diferentes, podendo ser fontes sobrenaturais de sabedoria e força, ou simplesmente feras destruidoras.

Na China, a presença de dragões na cultura é anterior mesmo à linguagem escrita e persiste até os dias de hoje, quando o dragão é considerado um símbolo nacional chinês. Na cultura chinesa antiga, os dragões possuíam um importante papel na previsão climática, pois eram considerados como os responsáveis pelas chuvas. Assim, era comum associar os dragões com a água e com a fertilidade nos campos, criando uma imagem bastante positiva para eles, mesmo que ainda fossem capazes de causar muita destruição quando enfurecidos, criando grandes tempestades. O dragão é considerado uma criatura mítica e divina relacionada à fertilidade, abundância, prosperidade e boa fortuna. Templos e pagodes são construídos em honra aos Dragões e para eles são queimados incensos e dirigidas orações.

No Japão, os dragões desempenham papel divino semelhante.

Na Europa, são temidos por raptar donzelas, destruir cidades e acumular montanhas de ouro.

Nas Antigas Culturas do México e da América do Sul, renovam o mundo após cada ciclo de destruição.

No Oriente Médio, eram vistos geralmente como encarnações do mal, que atemorizava os homens, roubava seu gado e destruía florestas.

Na Mitologia Grega, também é comum ver os dragões como adversários mitológicos de grandes heróis, como Hércules ou Perseu.

Durante a Idade Média as histórias sobre batalhas contra dragões eram numerosas. A existência dessas criaturas era tida como inquestionável, e seu aspecto e hábitos eram descritos em detalhes nos bestiários da Igreja Católica.

Nos Tempos Atuais, os dragões se tornaram um símbolo atrativo para a juventude. São criaturas poderosas que dão a idéia de força e controle, ao mesmo tempo em que a capacidade de voar remete à idéia de liberdade.”


 















O Dragão Azul e o Dragão Amarelo

No país do sol nascente, pelo vigésimo aniversário da sua coroação, o imperador resolveu decorar a sala do trono do palácio com o mais belo biombo que alguma vez alguém jamais vira.

Convocou o pintor mais famoso do império, que vivia numa gruta longe da cidade.
O artista dirigiu-se imediatamente a corte para atender ao pedido do imperador.
No biombo da sala do trono deveriam ser pintadas a imagem de dois dragões, um azul e outro amarelo, para simbolizar o poder do Império e a paz, característica de seu tempo de reinado.

O pintor respeitosamente respondeu que pintaria dois dragões, mas com uma condição: para o biombo ser tão belo como era vontade do imperador, precisava de um tecido de seda preta, mas a seda teria de ser mais fina do que todas as sedas já tecidas.
— Vou me retirar para a minha gruta até que a seda seja tecida; assim terei tempo de me preparar para fazer a mais bela pintura dos dragões.
Em seguida, regressou à sua gruta, começando logo a trabalhar.

O imperador ordenou que começassem imediatamente a fabricar a mais fina das sedas.
Mas seu feitio foi muito mais difícil do que o imperador poderia imaginar.

Primeiro, foi preciso escolher meticulosamente os bichos-da-seda, porque os que até então tinham sido criados não podiam secretar uma seda assim tão fina como a que o pintor havia pedido.
Os bichos-da-seda, tão cuidadosamente escolhidos, exigiam uma alimentação muito delicada e especial. As folhas da amoreira com que eram alimentados deviam ser selecionadas com o máximo cuidado.
Apesar de todos os cuidados, apenas alguns dos casulos sobreviveram.

Muito tempo se passou até conseguir um número suficiente de casulos para obter a quantidade de seda necessária para o biombo do imperador.
Mas então, surgiu uma nova dificuldade: a seda era tão fina, que muito poucos tecelões se mostravam capazes de tecê-la. Foi preciso convocar aos melhores artesãos do império.

Depois de superar todas as dificuldades, a seda destinada ao biombo havia sido tecida. Nunca ninguém havia visto seda tão fina. Por ordem do imperador, foi pregada numa moldura de marfim.

Concluído o trabalho, o imperador enviou um mensageiro para avisar o pintor de que a seda estava tecida e que ele deveria pintar os dragões sem demora.
O pintor pediu ao mensageiro que dissesse ao imperador que esperasse um pouco mais, pois ainda não tinha acabado de preparar o seu trabalho.
O imperador, que já tinha esperado muito tempo até ser tecida a seda, não escondeu a sua decepção, mas acabou por compreender que o pintor queria preparar uma obra-prima, e esperou. Contudo, sempre que passava diante do biombo, perdia a paciência.

Num belo dia, não agüentando mais, enviou um mensageiro para lembrar ao pintor a sua promessa. Em resposta, solicitou um novo prazo ao imperador. Precisava continuar com os seus ensaios. Ainda não seria capaz de pintar dragões dignos do mais belo biombo já visto.

O imperador, apesar da impaciência, não teve outro recurso, senão esperar. Mas o tempo ia passando e o pintor não dava sinais de vida. E, sempre que o imperador passava diante do biombo inacabado, sentia crescer a sua irritação.

Um dia, no limite da paciência, o imperador, ordenou que trouxessem o pintor à corte, de qualquer jeito. Se não fosse por bem, que o trouxessem por mal.
O pintor aceitou finalmente acompanhar o mensageiro.

Quando chegou diante do imperador, disse-lhe que já se sentia capaz de pintar os dragões. O imperador suspirou aliviado, e manifestou então a sua alegria.

O artista mandou que lhe trouxessem tinta amarela, tinta azul e dois grandes pincéis, e aproximou-se do biombo.
De uma pincelada, fez um traço amarelo; depois, outra pincelada, e fez um traço azul.
Em seguida, largou os pincéis e declarou o trabalho como concluído.

Feliz por pensar que o mais belo biombo alguma vez visto iria finalmente ornamentar a sala do trono, o imperador correu para admirar a obra de tão ilustre pintor.
Quando chegou em frente ao biombo, não acreditava no que seus olhos viam: apenas dois traços grossos, um azul e outro amarelo.

Convencido de que o pintor estava debochando de sua pessoa, ficou furioso. Com toda a calma e ar muito sério, o pintor disse que aqueles dois traços eram fruto de longos estudos de anos e anos.
Fez uma reverência, e quis retirar-se. Mas o imperador, descontrolado e convicto de que o pintor teria feito uma brincadeira de mau gosto, e estragado irremediavelmente a maravilhosa seda feita com tanto custo e com tanto cuidado, mandou prendê-lo.

O imperador estava de tal modo irritado, que não conseguiu pregar os olhos naquela noite. Na escuridão, os dois traços, o azul e o amarelo, iam e vinham diante dos seus olhos. Quando fechou as pálpebras, notou que os traços pareciam ganhar dimensão, e mover-se.

Para seu grande espanto, aqueles dois traços transformavam-se em uma luta entre dragões. E os dragões eram rápidos e poderosos. O que mais o surpreendeu, é que pareciam ter vida e mover-se, eram, ao mesmo tempo, leves e fortes. E aquela força, aquele poder e aquela grandeza e leveza estavam resumidas nos dois traços que o pintor havia traçado na maravilhosa seda.

Ao amanhecer, o imperador decidiu ir descobrir o segredo do artista que tinha conseguido tal obra-prima. Mandou selar o cavalo e, acompanhado pela sua guarda de honra, partiu em direção a gruta onde o pintor havia trabalhado por anos, antes de pintar os dois dragões no biombo.

O caminho não foi fácil. Tempestades, neve, vento e nevoeiro. Mesmo assim, o imperador não desistiu. Ao fim de vários dias e noites de viagem, chegaram à gruta do pintor. Acenderam as tochas.
Ao entrar, o imperador viu dois dragões pintados nas paredes: um era azul e o outro amarelo.
Estavam desenhados com a maior exatidão, podia se distinguir cada escama, cada dente, e as narinas lançavam fogo. Cada pormenor era azul e amarelo.
Abaixo da pintura, uma data: a do dia em que o imperador havia encomendado a pintura do mais belo biombo jamais visto.

Ao lado da primeira pintura, uma outra, a de dois dragões, um azul e outro amarelo. Ao lado da segunda pintura, uma terceira, depois uma quarta, uma quinta, uma sexta…
Todas as paredes da gruta estavam cobertas de pinturas que representavam dois dragões, um azul, outro amarelo. Todas as imagens estavam datadas, ano após ano.

Sob a luz das tochas, o imperador não conseguia despregar os olhos do trabalho árduo do pintor. As imagens sucediam-se às imagens, os esboços, aos esboços.

Mês após mês, o pintor ia simplificando a pintura dos dois dragões, um azul e outro amarelo. Depois de uma longa seqüência de dragões, finalmente, os dois traços nas paredes da gruta, um azul, outro amarelo, que se encontravam pintados no biombo.

Naquelas duas últimas imagens, estava resumida toda a potência dos inúmeros dragões que o pintor havia desenhado durante muitos e muitos anos nas paredes da gruta.

O imperador reconheceu os dois dragões do biombo e viu que as duas últimas imagens não podiam de modo algum, se comparar às que as precediam.
Ao olhar para as pinturas, o imperador começou por ficar admirado, depois foi ficando cada vez mais alegre, até sentir, no final, um imenso júbilo.

Depois de ter observado por uma última vez os dois traços azul e amarelo, deu ordem imediata de selar os cavalos, pois queria regressar à capital. Tinha pressa de mandar libertar o pintor, a fim de lhe agradecer e honrar, porque ele o tinha permitido compreender o poder e o significado dos dois traços, um azul, e outro amarelo, que simbolizavam os dois dragões.

O pintor foi libertado.
E o imperador mandou colocar o biombo dos dois dragões na sala do trono.

 
Ré e Philippe Soupault
Dragon bleu — Dragon jaune
Paris, Père Castor Flamarion, 1995
Tradução e adaptação – Cris Corradi 



Moral da História

A beleza ideal está na simplicidade,
é o último degrau da sabedoria,
e só se consegue através de muito trabalho. 


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