O Lobo e O Cordeiro



“A razão do mais forte é a que vence no final.
Nem sempre o Bem derrota o Mal.”

Um cordeiro a sede matava nas águas limpas de um regato. Eis que se avista um lobo que por lá passava em forçado jejum, aventureiro inato, e lhe diz irritado:

- Que ousadia a tua, de turvar, em pleno dia, a água que bebo! Hei de castigar-te!

- Majestade, permita-me um aparte - diz o cordeiro. - Vede que estou matando a sede água a jusante, bem uns vinte passos adiante de onde vos encontrais. Assim, por conseguinte, para mim seria impossível cometer tão grosseiro acinte.

- Mas turvas, e ainda mais horrível foi que falaste mal de mim no ano passado.

- Mas como poderia - pergunta assustado o cordeiro -, se eu não era nascido?

- Ah, não? Então deve ter sido teu irmão.

- Peço-vos perdão mais uma vez, mas deve ser engano, pois eu não tenho mano.

- Então, algum parente: teus tios, teus pais. Cordeiros, cães, pastores, vós não me poupais; por isso, hei de vingar-me - e o leva até o recesso da mata, onde o esquarteja e come sem processo. 
 (La Fontaine. Fábulas, 1992)




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