O Patinho Feio

Sthephanny Lorraynie, garota simples, nasceu no morro.

Sua mãe, Maria das Dores havia sido deixada pelo companheiro no início da gravidez. Trabalhava de sol a sol na casa das ‘madame’ como faxineira para poder criar sua filha. No dia do nascimento de Sthephanny Lorraynie, havia trabalhado o dia todo, ao chegar no morro, iniciou as dores do parto. Sem ninguém para ajudá-la, pariu sua filha como índia. Nem tesoura para cortar o cordão umbilical tinha, amarrou-o com o cadarço do sapato e cortou o cordão com a faca da cozinha. Ao ver pela primeira vez o rostinho da filha, jurou que tudo faria para que ela não tivesse o mesmo destino, uma vida de trabalho, sofrimento e desilusões.

Sthephanny Lorraynie teve a melhor educação que sua mãe foi capaz de lhe proporcionar.

Sempre discriminada na escola por ser filha de mãe solteira, ser muito magra, considerada feia por todos, um vara pau, ganhou o apelido de cabo de vassoura. Cresceu ao som do funk e do pagode. Seu ídolo, Alexandre Pires do ‘Só Pra Contrariar’

Já adolescente, concorreu para a eleição da ‘Garota da Laje’, ficou em 16º lugar.

Conseguiu um emprego após terminar o colegial como atendente de Telemarketing, nessa época já lavava roupa para fora para ajudar nas despesas da casa. Mas isso não era o suficiente.

Um belo dia, uma colega do Telemarketing disse-lhe que haveria um concurso para dançarina em um programa de televisão.

Passou-lhe na cabeça mil coisas, como a sua vida poderia mudar com um salário melhor. Mas o medo estava ali presente. Não havia nem ganhado o concurso para Garota da Laje, como ganharia a única vaga para dançarina? Ela, que acreditava desde a infância ser tão feia, ser inferior as outras garotas do morro. E a vencedora do concurso Garota da Laje estaria ali disputando a mesma vaga. Mas foi incentivada por sua amiga do Telemarketing. O que teria a perder em concorrer a vaga? O máximo que poderia acontecer seria ela continuar em sua vida medíocre e cansativa.
Enfrentou seus medos e fez sua inscrição.

No dia do concurso, sua amiga a ajudou a se arrumar. Seu coração não cabia no peito. Era um sonho. Se conseguisse passar, tudo poderia ser diferente, mudar para melhor. Sua mãe, Maria das Dores, tão dedicada, talvez pudesse trabalhar menos. Agora, com 18 anos, suas pernas já não eram tão finas, sua cintura fina e barriga bem definida de tanto lavar roupas para ajudar a sua mãe, deixaram seu corpo espetacular. Seus seios firmes, naturais, sem silicone pareciam apontar para frente. Comprou um kit de tratamento capilar para pagar de 6 vezes. Fez uma chapinha. Nem parecia a mesma. Uma morena de olhos verdes, com cabelos hidratados e alisados, corpo fenomenal. Maravilhosa. A roupa era a mesma para todas as concorrentes e fornecida pela emissora de TV.

Subiu no salto, e deu tudo de si. Dançou um funk como se estivesse desfilando nas nuvens, tamanha leveza de passos e sincronia de movimentos.

Não deu outra. Foi a primeira colocada. Sua dança foi tão maravilhosa, tão fascinante, que chamou a atenção de todos. Foi aplaudida de pé.

Sua vida mudou.
Em pouco tempo se transformou na dançarina principal. Pode largar o emprego de Telemarketing, as roupas sujas, e se dedicar a dança em período integral.

Sua mãe já podia descansar nos finais de semana, e orgulhosa, ver todos os Domingos a filha na TV.

Sthephanny Lorraynie estava feliz, como nunca poderia imaginar. Chegou a dar graças a Deus por não ter ganhado o concurso Garota da Laje. Se isto tivesse acontecido, talvez ela não estaria ali, magnífica, idolatrada e invejada por várias garotas que gostariam de estar em seu lugar.

Quando pensou que sua vida já estava perfeita, e que mais nada lhe faltava, deparou-se com um cantor famoso, solteiro, que enquanto cantava, não conseguia tirar os olhos dela. Foi amor a primeira vista. Não deu outra.

Apaixonados, casaram-se. Maria das Dores foi convidada a viver com o casal em um apartamento de cobertura em Ipanema, com todas as mordomias. Agora ela era a madame.

Ao retornar ao morro, Sthephanny Lorraynie olhou tudo em volta e pensou. Tantas humilhações sofri neste lugar, quantas dores infringidas a minha mãe, discriminada, humilhada, por ter sido abandonada pelo companheiro, sem um ombro amigo...

Vivemos modestamente, mas também honestamente.
A vida vale a pena.
 Cristina Corradi



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...