Pedaço de Estrela



 “A professora pediu que cada aluno definisse Minas Gerais em poucas palavras.

— É o mais belo Estado do Brasil — disse Ronaldo.

— É a terra em que nasci — falou Cibele.

— Minas — opinou Maria Augusta — é a terra de Tiradentes e dos profetas do Aleijadinho.

Ao chegar a minha vez, fui lacônico:

— Minas é um pedaço de estrela.

— Um pedaço de estrela?! — surpreendeu-se dona Derci.

— Sim, um pedaço de estrela — repeti o que ouvira de um vizinho muito sabido, o físico Francisco de Assis Magalhães Gomes, conhecido no bairro como Chico Bomba Atômica.

A professora olhou-me desconfiada:

— Você poderia explicar melhor?

Eu não podia explicar. Nem melhor nem pior. Era o que ouvira do seu Bomba, numa daquelas noites em que um bando de crianças se amontoava na varanda da casa dele, e ele, muito solícito, bonachão, dava-nos lições de intimidade da natureza, deixando-a nua aos nossos olhos. Despia-a com palavras sábias e precisas, embora a minha cabeça não alcançasse quase nada do que dizia. Quedava-me, entretanto, maravilhado. E era isso o que importava.

Saí da aula arrastando o peso do meu fracasso. Tinha a minha definição de Minas na conta de um grande sucesso, mormente pela originalidade. Bem fez o poeta, pensei, em declamar que 'minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá'. Ao que Ronaldo acrescentava: 'As aves que lá gorjeiam não têm competência...' Podiam não ter, mas o lirismo do verso encantava a alma das professoras e das meninas da classe.

Bati na casa do seu Bomba no domingo pela manhã. Atendeu-me apijamado e mandou que entrasse.

— Professor, vim aqui para o senhor fazer o favor de me explicar uma coisa que ouvi de sua boca: por que Minas é um pedaço de estrela?

Ele sorriu. Debruçou-se em sua cadeira de balanço num movimento brusco em minha direção, o que me fez afundar no sofá. E iniciou uma explicação que me soou tão esotérica quanto o latim do padre Paulo.

— Desculpe, seu Bomba, mas não estou entendendo nada — admiti. — O senhor poderia escrever isso para eu ler lá na escola?

Ele assentiu e pediu que eu retornasse no fim da tarde.

Levei para o grupo escolar o que ele datilografara. De pé, à frente da classe, entre derrapões e sobressaltos, li o texto que recebera:

O fulgor das estrelas, que observamos no céu noturno, resulta do amor que une os corações dos átomos de hidrogênio e hélio. Essa paixão entre os dois átomos libera tanta energia que faz as estrelas brilharem. Logo, surgem filhos da família nuclear: os átomos de carbono, oxigênio, néon, sódio, magnésio, silício, níquel, cobalto e ferro. E muitos outros.

Quando uma estrela fica velha, ela engorda tanto que, a um momento, explode, espalhando seus cacos em forma de bolhas. Essas bolhas misturam-se com nuvens que existem entre as estrelas e congelam-se. O Sol e seus planetas são cacos de uma velha estrela gorda que explodiu. A nossa Terra não passa de um minúsculo caquinho resfriado daquela velha estrela gorda. E todo o ferro encontrado aqui em Minas é resto de antigos sóis, ou se quisermos, de velhas estrelas gordas.

Por isso, meu caro, você tem razão: com tanto ferro em seu solo, Minas é um pedaço de estrela.


Ganhei nota dez. E, na frente da classe, um beijo de dona Derci Passos.”

Frei Betto
Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, é frade dominicano, assessor de movimentos pastorais e sociais e escritor. Este texto é um capítulo de seu livro intitulado “Alfabetto, Autobiografia Escolar”, Editora Ática, 248 páginas, setembro/2002

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