Um dia de Maria






Maria acordou ouvindo um barulho estranho e irritativo.
Sua mente, de tão cansada, não conseguia associar o barulho a coisa em si.
Depois de alguns segundos, conseguiu engatar uma primeira e colocou o despertador no soneca. “Só mais dez minutinhos”. 
Isto se repetiu por mais cinco vezes, até que Maria deu um pulo da cama. “Meu Deus! Estou atrasada para o trabalho.”
Pegou a roupa que já estava separada sobre a poltrona do quarto, vestiu, e saiu às pressas. Nem uma chuveirada tomou. Também, não estava nem um pouco interessada em entrar debaixo do chuveiro.

No escritório, questionou a secretária o motivo de seu café não estar sobre a mesa. Notou que as pessoas a estavam olhando de uma maneira estranha. Saiu de sua sala, foi até o banheiro, olhou-se no espelho e quase teve um ataque, isto depois de soltar uma gargalhada, aquela tipo riso nervoso.
Estava vestindo um lindo Tailleur cinza petróleo, só que abotoado todo errado, e o pior de tudo. Na pressa, deixou seu scarpin no armário, e saiu de pantufas cor de rosa com cara de cachorrinho.
Pelo menos, o coque feito às pressas no elevador estava disfarçando os cabelos sujos.

Olhou no relógio. Trinta minutos para a reunião mais importante do mês.
Não pensou duas vezes. Correu para a sapataria que ficava em frente ao escritório e quase teve um orgasmo escolhendo o sapato ideal para a ocasião. Pena que era um número menor que o seu. Mas que seja. “Sapato cede mesmo... e passar algumas horas com o pé espremido, valeria a pena.” Junto ao sapato, ficou com a meia fina da vendedora. Perfeito! Teve aquela sensação de que daquele minuto em diante, tudo voltaria ao seu ritmo normal.

Que nada. Foi só começar a reunião. Seus olhos foram ficando pesados, não conseguia se concentrar. Mesmos com os pés apertados e andando feito uma pata choca, soltou um bocejo e cochilou duas vezes em frente ao cliente. Quase pôs tudo a perder. Mas foi salva pelo chefe que inventou uma desculpa esfarrapada dizendo que tudo aquilo fazia parte dos planos para vender o produto. Marketing comercial.

Almoço. Só conseguia enxergar doces, bombons, brigadeiros. Depois de saciada a fome, veio o peso na consciência. “Ah! Meu regime!”
Foi aí que começou a ouvir uma voz que vinha de dentro dela mesma:
“- Deixa de bobagem. Você merece. Uns docinhos não vão fazer diferença. Trabalhou o mês todo na propaganda para seu cliente, e o resultado foi melhor do que o esperado. Ter cochilado na reunião foi até bom, vai aumentar a venda de colchões. E quem disser que você está errada está completamente enganado e não merece a mínima consideração. Acho que até deve pedir um aumento pelo excelente trabalho.”

Ao voltar para o escritório, fez tudo que a voz lhe pedia. Gritou com o boy, arrancou os sapatos e jogou na secretária, calçou as pantufas cor de rosa com cara de cachorrinho, foi até a sala do chefe e exigiu aquele aumento. Foi à sala de reuniões e começou a pular no colchão do cliente.

Não deu outra. Saiu do escritório numa camisa de força, direto para o psiquiatra.

Maria é levada para a psiquiatria

Maria chegou para avaliação no Serviço de Urgência Psiquiátrica em seu lindo Tailleur cinza petróleo, adornado por uma camisa de força, com as meias da vendedora da sapataria e com as pantufas cor de rosa com cara de cachorrinho. Diagnóstico - surto psicótico.

Foi medicada e, depois de sedada dormiu durante toda a noite. Um sono sem sonho, sem nada.
Acordou sem saber ao certo o que havia acontecido. “Onde estão as minhas pantufas cor de rosa com cara de cachorrinho?”

Do dia anterior não tinha praticamente nenhuma lembrança a não ser que havia acordado atrasada e que chegou ao escritório sem seu lindo scarpin. Foi quando sua secretária lhe contou parte do que havia acontecido. Maria escutava incrédula, duvidava do que escutava. E pensou: “Essa mulher quer é ficar com as minhas pantufas.” Olhou a seu redor. Estava realmente em um quarto de hospital. Algo sério havia acontecido. Ela havia perdido de alguma forma o controle e o contato com a realidade.

Após convencida a tomar um banho, tomou seu café da manhã e foi recebida pelo Dr. Cid Arandela, um psiquiatra famoso, que vem trabalhando numa nova linha de abordagem terapêutica onde a medicação só tem sentido na fase aguda.
O Dr. Arandela acredita que as drogas só fazem uma castração química do paciente. Melhoram sintomas, mas não tratam o paciente, não deixam ninguém apto para se relacionar com o que a vida nos exige. Remédios não modificam os sentimentos das pessoas e nem as trazem ao centro de si mesmas.

Dr. Arandela propõe a Maria uma nova forma de terapia. Propõe que ela se permita entrar em contato com ela mesma de forma sutil, leve, no ritmo dela. Um trabalho em que ela se abre para vida a partir de processos vivenciais, através da música e da dança, com a ajuda de um professor, um facilitador do processo.

No início da consulta, Maria sentia uma mistura de vergonha pelo acontecido, receio de estar louca, curiosidade, e lá no fundo, não acreditava muito na resposta desta nova abordagem. Mas aos poucos foi se soltando e se sentido segura. Falou de seus medos, de seus fantasmas, de suas sombras. Dr. Arandela pôde perceber que ela guardava, em locais sombrios do seu inconsciente, dores e angustias contidas.

Maria pôde compreender que ela não era diferente de nenhuma outra pessoa, e pensou “Ufa! Não estava louca”. Apenas a carga foi maior do que ela podia suportar e acabou explodindo.  E aí, veio uma vontade louca de começar o mais breve possível. Ela precisava mudar, se trabalhar, estar apta a conviver consigo mesma. “– Posso dançar de pantufas?”

Dr. Arandela sorriu e olhou-a como se estivesse vendo uma criancinha na véspera de Natal, ansiosa pelos presentes, e lhe advertiu:
- Este é um processo terapêutico, e como em todas as terapias, existem fases a serem venciadas. O primeiro passo está dado. Você conseguiu admitir que precisa de ajuda. Já é um bom começo. Mas nada se resolve de um dia para outro. É necessário dedicação e perseverança.

Maria pode retornar para lindo apartamento e logo começou seu processo terapêutico, sem as pantufas cor de rosa com cara de cachorrinho. Este processo passaria pelas chamadas cinco linhas de vivência. Através da musica e da dança e com a ajuda do facilitador do processo, Maria começou a se trabalhar.

Estas “linhas de vivência” são trabalhadas simultaneamente, e cada uma delas exerce seu poder sobre Maria.

Maria trabalhou a VITALIDADE que é possuir um bom nível de saúde e harmonia orgânica, possuir fortes motivações para viver. Sentimentos de alegria interior, plenitude existencial, o amor à natureza. O amor que integra o ser a si mesmo e ao universo.

Aprendeu que a vitalidade só se manifesta na plenitude se trabalhada junto a SEXUALIDADE, não no sentido restrito da palavra, mas em sentido mais amplo, associada ao prazer, ao desejo.

Aprendeu que a sensualidade e a sensibilidade aos estímulos não são apenas genital, mas também estão ligados ao prazer de sentir o gosto dos alimentos, a doce carícia de um toque, um abraço, o prazer de um banho, sentir a carícia da brisa, da chuva, e, porque não, ao próprio prazer de um beijo. É preciso ser uma pessoa sensual, com grande receptividade ao contato corporal. É preciso se sentir solta e leve.

Durante as sessões da terapia, aprendeu ser criativa, que a CRIATIVIDADE faz parte da grande transformação cósmica. O caminho do Caos a Ordem. O Ser Humano se manifesta como um impulso de inovação frente à realidade. A atividade criativa organiza a linguagem única a partir da vivência. Compreendeu que a mais elevada expressão da criatividade é a existencial, aquela de nossos atos do cotidiano.

Mas é também de grande importância que se desenvolva, que se deixe emergir a AFETIVIDADE.
Afetividade é um estado de profunda afinidade com todos os seres, capaz de originar sentimentos de amor, amizade, altruísmo, maturidade, paternidade, companheirismo.
Através da afetividade nos identificamos com outras pessoas, somos capazes de compreendê-los, mas também de recusá-los e agredi-los. Somos capazes de impor limites.

A ira, o ciúme, a insegurança, a inveja, são fenômenos ligados à afetividade.

A afetividade abarca qualquer das paixões do ânimo, em especial o amor, o carinho e o ódio.

A afetividade pode ter a dimensão do “amor diferenciado”, dirigido a uma só pessoa e a do “amor indiferenciado” dirigido a humanidade.

A afetividade é expressão da identidade. As pessoas que têm uma identidade débil são incapazes de amar, tem medo da diversidade, seus vínculos com outras pessoas são defensivos.

É preciso desenvolver a afetividade sempre. Esta encontra sua forma privilegiada de expressão no amor manifestada através dos sentimentos de empatia, solidariedade e comunhão.

Neste aspecto Maria encontrou sua maior dificuldade. Amar pode não ser tão fácil para algumas pessoas. Deixar ser amado então, ainda mais difícil. Mas depois de algum tempo compreendeu que para que todas estas LINHAS DE VIVENCIA efetivamente se manifestem é preciso transcender.

A TRANSCENDÊNCIA consiste na função natural do ser humano de se vincular a tudo que existe, aos outros seres humanos, aos animais, aos vegetais, aos minerais, em síntese, ao cosmo.
Transcender é superar limites, é superar a força do ego e ir além da auto percepção para que se possa se identificar com a unidade da natureza e com a essência das pessoas.

Maria descobriu que todos estes valores estão presentes nela, desde tempos imemoriáveis. Aprendeu que “quem não pode abandonar a consciência de si mesmo, não tem a possibilidade de ingressar à experiência transcendente”.

Depois de muito trabalho, Maria se deixou abraçar. Naquele momento, toda sua vida, como um flash back, passou diante de seus olhos. Uma mistura de fascinação, medo e esperança. Entendeu que não adiantava brigar com suas sombras, mas que deveria aprender a lidar com elas. E eram muitas. E muito assustadoras. Percebeu que, durante toda sua vida, assumia uma postura perfeccionista. Tentava provar que era melhor em tudo, tinha que sobressair, e isto a estava sufocando, ela só via as outras pessoas como concorrentes e tantas amizades verdadeiras deixou passar.

Maria se deixava abraçar... Se permitia as emoções. Chorar e sorrir se tornou natural. Não precisava mais de suas pantufas cor de rosa com cara de cachorrinho.
Maria aprendia a aceitar, a amar e a impor limites.

Naquela noite, dormiu sem auxilio de medicamentos.
Na manhã seguinte, acordou atrasada, mas isto agora não a incomodava. Não precisava mostrar que era perfeita. Tomou seu banho tranquilamente, deu bom dia para o porteiro. Foi cantarolando até o escritório. Lá chegando, foi até a cozinha e preparou, ela mesma o seu café, não precisou pedir a ninguém. Foi até a varanda de sua sala, ascendeu um cigarro, olhou para a cidade maravilhada com a vista que tinha. Como nunca havia percebido o quão lindo era aquela vista antes...

Voltou os olhos para o escritório e sorriu ao observar seus colegas de trabalho. Aquela era sua segunda família, com quem passava a maior parte de seu tempo.

As pessoas não haviam mudado, continuavam as mesmas. A grande mudança aconteceu nela mesma, na maneira de ver e agir diante das situações do dia a dia.

Agora Maria está trilhando seu caminho. Através da música e da dança começou a vivenciar e aprender sobre si mesma.

Cristina Corradi

Créditos: O texto referente ao processo terapêutico foi inspirado nas cinco linhas de vivência propostas pelo psicólogo Chileno Rolando Toro Araneda.

4 comentários:

  1. Maria somos todos nós.
    Costumo dizer que todos somos esquizofrênicos, bipolares, maníacos.
    Todos temos nossos desvios.
    Claro que alguns têm uma exacerbação de alguns sintoma que os tornam, digamos, mais anormais.
    A meu ver qualquer tratamento que a traga de volta a vida é válido. Ela é uma pessoa normal como todos somos, apenas deixou escapulir emoções contidas.
    Se ela vai dançar, cantar, correr, viajar, fazer compras. Não importa.
    Importa que ela se mantenha viva.

    Dr. Carlos Folkman

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    1. Fiquei muito honrada quando me foi solicitado o uso de um texto de minha autoria para estudo em uma Universidade de renome como a USP, principalmente por estar começando a escrever e publicar em tão pouco tempo. Só tenho que agradecer àqueles que acreditaram em meu trabalho.
      Maria são todas as mulheres, que, em um mundo onde a competitividade, independência econômica, a luta pela sobrevivência, fazem com que elas sejam obrigadas a abandonar parte de suas vidas, emoções e família. Maria deixa de ser uma pessoa plena e sofre com isto. Algumas conseguem manter-se inteiras, firmes e duras. Outras, desfragmentam-se e adoecem.
      Um dia de Maria é uma homenagem a todas as guerreiras da vida moderna. E, se o peso em seus ombros for maior do que possam suportar, elas devem saber que existe profissionais gabaritados para ajudá-las.

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  2. Domingo e segunda lemos o conto.
    Depois discutimos sobre o método de tratamento.
    Gostei do conto e esta terapia é muito boa. Quando entrei no mundo das drogas minha família me abandonou e eu não sabia o que fazer. A biodanza e as conversas com todos, principalmente com o Dr. Ari foram boas para mim.
    Aconselho a quem puder fazer este caminho que faça. Tem me ajudado muito.
    Luiz Otávio

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    1. Para você Luiz Otávio, estou deixando uma edição especial. Nem todos que passaram pelo mundo das drogas têm tanta força e coragem como você. Mesmo sem lhe conhecer pessoalmente, me orgulho de seu feito. Saiba que o que sinto vem do fundo de minha alma. Gostaria de lhe chamar de amigo. Nunca desista! Vá em frente! Um dia sua família se orgulhará de seus atos. Um grande abraço, meu amigo.
      Luiz Otavio http://pensesonheviva.blogspot.com.br/2013/04/luiz-otavio.html

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