A Pílula



Leio nos jornais que o Professor Plumb, da Universidade de Chicago, inventou recentemente um novo tipo de alimento, de altíssima concentração orgânica. Todos os elementos essenciais para a nutrição estão nele contidos e condensados sob a forma de tabletes deglutíveis que contêm de duas a trezentas vezes a substância normal de uma onça de qualquer espécie de alimento. Esses tabletes, quando dissolvidos em água, de preferência água aquecida, proporcionam tudo quanto é necessário para se viver.

Quanto ao professor Plumb, ele confia estar bem próximo de operar uma verdadeira revolução no atual sistema alimentar do mundo todo.

Ora, as coisas deste gênero andarão sem duvida muitíssimo bem, mas não sem alguns inevitáveis enganos, pelo menos no princípio. E mesmo no esplendoroso futuro previsto pelo professor Plumb não seria difícil imaginar fatos como o que passo aqui a narrar.

Nossa pequena família estava alegremente sentada na sala de jantar. Sobre a mesa, preparada de uma maneira sofisticada, havia apenas uma grande panela de água quente, e cada um de nós, as crianças, também tinha diante de si uma tigela.

Minha mãe, alegríssima, sorria para todos nós naquela oportunidade solene de ceia de Natal, contida ela inteira dentro de um dedal que repousava em cima de uma ficha de jogo de cartas.

Estávamos todos em silencio quando meu pai, levantado-se da cadeira na cabeceira de mesa, virou o dedal de cabeça pra baixo e mostrou finalmente uma pequena pílula em cima da ficha de plástico que era usada como bandeja. Continha a pílula ao mesmo tempo o peru, o molho, a farofa de castanhas, a torta e o pudim. Tudo estava ali, naquela pílula mínima, que não esperava outra coisa senão ser dissolvida em água quente.

Foi então que meu pai, com ar contrito e olhos devotos, mirando ora a pílula ora o céu, começou a habitual oração abençoando o alimento.

Um grito de horror seguiu-se a estas palavras da minha mãe:
- Ah, Harry, depressa, depressa! O pequeno Peter engoliu a pílula!

Era verdade, o anjinho de cabelos dourados chamado Peter, no meio tempo da oração, agarrara toda a ceia de Natal e a havia colocado na boca, sorrindo, muito satisfeito com sua alegre gaiatice. E eis que 175 quilos de alimentos desciam pelo esôfago do inocente abaixo.

- Que alguém bata nas costas dele! - gritou mamãe, torcendo as mãos, acometida de um enlouquecido desespero. - Dá-lhe um pouco d'água!

Pois esta idéia foi fatal para o pequeno Peter. A água, ao se encontrar com a pílula, subitamente fez com que ela se expandisse. Ouviu-se um triste e profundo ruído e, logo depois, um tremendo estrondo. Peter acabara de explodir por sobre a mesa do nosso primeiro Natal em pílulas.

Quando juntaram as migalhas do corpinho do meu irmão, seus lábios ainda arvoravam um sorriso: o sorriso de uma criança que havia comido treze ceias de Natal de uma só vez.
 Stephen Leacock
(1869-1944 - Canadá)




Da obra: Os Cem Melhores Contos de Humor da Literatura Universal

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