No colo do Verde Vale




Cansado. Assim sentia-se o Tempo.
- Muito mais que velho, muito além de antigo. Isto eu sou - pensava andando para frente, ele que não conhecia outra direção.

Vasculhando o passado que trazia às costas, não encontrava o dia em que tinha começado a caminhar. Já procurara muito. Agora até duvidava que existisse esse dia, que ele, como tudo o mais, tivesse um começo. Há tanto andava, que não sabia quanto, e bem podia há outro tanto estar andando.

Lá longe, porém, na juventude - se é que alguma vez tinha sido jovem - lembrava-se de caminhar com alegria, os passos, ou a alma, leves. Ah! Sim, tinha sido bom. Naquela época, certo de que o mundo inteiro era arrastado por ele, como numa imensa rede, enchia-se de orgulho e de poder.

- Eu piso com o pé direito - dizia afundando bem o calcanhar - e trago a primavera. Piso com o esquerdo - lá ia o outro pé marcando a terra -e vem chegando o verão. Cada passada minha faz uma flor, um fruto, uma semente.

Ria vendo girar as pás do moinho de vento.
- Coisinha de nada - dizia-lhe - se o vento acabar, você morre. Eu não, eu sou meu próprio vento. Sou eu que comando a ordem de tudo, que faço a hora do sol, e marco a noite da lua. Eu que empurro este mundo todo para frente.

Essa tinha sido sua razão para andar. Mas agora, tantas luas acumuladas no seu rastro, tantas frutas desfeitas no chão, já não lhes via a graça. Pois nada havia à sua frente que não conhecesse.
Só uma coisa não conhecia. Parar.

Foi pensar na palavra, e estremecer de susto. Nunca antes essa idéia tinha estado com ele. Pela primeira vez desde a alegria, percebeu que tropeçara em algo novo.
Parar... Seria possível?

- Mas se eu parar - pensou - os filhos não se acabam no ventre das mães, os passarinhos nos ninhos não aprendem a voar.
E continuo andando.

Mas a idéia seguiu caminho com ele, mais tentadora a cada passo. E o Tempo começou a olhar o mundo com outros olhos, procurando em todo lugar a sedução que o faria cometer tão grande audácia.

Olhou a cachoeira. Imaginou-se ali, os pés metidos na água fria, ouvindo para sempre o canto transparente.

- Mas seu eu parar, pára a água, - pensou num susto - a canção emudece. Não terei mais o que ouvir, nem onde molhar os pés. E triste, tocou as pernas para frente, uma depois da outra, como sempre.

Olhou a floresta. Pensou o bom que seria deitar naquele musgo rasgado de sol. E já se via quase lagarto, quando lembrou que as árvores parariam de crescer, as folhas parariam de mexer, o sol pararia de brilhar. E levantando os joelhos com cansaço e tédio, foi adiante.

Chegou ao deserto. - Enfim, um lindo mundo parado! - exclamou. Mas da crista das dunas o vento soprou areia em seus olhos, e ele percebeu que nem ali poderia ficar.

E foi ao mar, e viu as ondas. E passou pelo lago, e viu os peixes. Tudo se movia. Tudo, pensou, estava preso à rede que trazia nas costas.
Até chegar ao vale. Liso, lindo, lento vale.

Águas se perseguiam entre lago e regatos, espigas balançavam a cabeça jogando grãos ao vento, flores se voltavam para o sol. Ali também, no mesmo movimento, nada estava parado.
- Pois eu estarei! - exclamou súbito o Tempo, reconhecendo naquela paz todo o seu desejo.

E aos poucos, suspiroso, temendo a própria coragem, espraiou-se no vale, estendeu-se longo como ele mesmo não sabia ser. E pela primeira vez descansou.

Céu acima, doce grama embaixo, ainda esperava porém o desastre, o enorme desabar da ordem. E alisava o pêlo daquele chão, finas hastes e talos, para levá-lo na memória das mãos quando fosse preciso levantar-se e recomeçar a marchar para sempre, em castigo por aquele momento de fraqueza.

Silêncio no vale.
Acabou-se - pensou, esmagado de culpa - tudo parou. - A luz do sol pareceu escurecer.
-É o fim, - e entrefechou os olhos.

Mas chegou um mugido de longe, estremeceu um coelho no mato, uma folha caiu.
Para surpresa do Tempo, movia-se o mundo.

- Não sou eu, então, que carrego isso tudo? - perguntou-se intrigado, sentando.

E debruçado para olhar de perto o mundo pequeno que nunca tivera tempo para olhar, viu o grilo saltar vergando fios de grama, viu o escaravelho marcar sua passagem rolando a bola de esterco, a serpente escorrer em curvas, cada um no seu ritmo, avançando, tecendo a rede que ele acreditava segurar as pontas.

E ali, inclinado sobre a vida, descobriu aquilo que nunca suspeitara. Não era ele com seus passos que ordenava tudo, que comandava o salto do grilo, o vento na espiga, as pás do moinho. Mas eram eles, grilo e espiga, cada um deles que, com seus pequenos movimentos, faziam os passos do Tempo.

Então abriu as mãos, soltou a carga que acreditava carregar, deitou a cabeça.

Serena, a nuvem se afasta.
O sol volta a desenhar sombras.
No colo do Verde vale, dorme afinal o Tempo, enquanto filhotes amadurecem nos ovos.

Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento - Marina Colasanti
Moral da história:
Às vezes é necessário perder o controle para usufruir o momento.

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