O Dragão Apaixonado



Esta é a história de um dragão meio apaixonado, que nada tinha que indicasse um coração vulcânico e uma alma sentimental, de enorme corpo coberto por uma couraça de escamas brilhantes qual uma armadura prateada, com uma monstruosa cabeça, com uma língua bifurcada, adornada de uma volumosa crista. A espinha denteada era ornada de um par de asas em forma de leque; as pernas eram munidas de grandes garras, mostrando um aspecto aterrador.


Houve um tempo, narra um velho cronista, em que o Egito jazia sob a cruel opressão de um dragão. Essa assustadora besta era um verdadeiro flagelo, uma autentica praga para o país. Não existia senão um meio de mitigar um pouco de sua feria: oferecer-lhe para jantar, a cada dia, uma jovem e esplendida virgem.

Durante vinte e quatro anos foi-lhe ofertado esse cardápio; no entanto, um belo dia as provisões se extinguiram... Não restava mais nem uma só jovem intocada em todo o reino, além de Sabra, a filha do rei. Nesse ínterim, um turista inglês de boa fisionomia se apresentou; vinha de Conventry, onde era conhecido pelo nome de Jorge (em seguida foi promovido ao grau de "santo"), tinha um aspecto de guerreiro e se ofereceu para liquidar o monstro.

O inglês cavalheiresco teve muita sorte no embate, pois ao conseguir se refugiar sob uma laranjeira, descobriu que aquela árvore de flores simbólicas tornava-o inatacável por parte do dragão. E assim foi que pôde finalmente matar o monstro.

Esta é a fabula.

Acontece que, alguns séculos depois destes acontecimentos, verdadeiros ou falsos, um digníssimo cidadão, homem totalmente iletrado, descreveu o episódio em versos, sob o título sugestivo de "São Jorge e o dragão".

O drama foi representado num teatro de província, com uma cenografia dourada, e se iniciava com um tom suave, o que contrastava gritantemente com a lenda, devido ao luto que angustiava naquele momento o belo sexo do bom Ptolomeu. Fato bastante destacável, a princesa Sabra, que o texto apresentava como "senhorita, realmente o era, e, além disso, jovem e graciosa: uma linda criatura, viva, ágil, bem modelada, de carnação resplandecente de saúde, que honraria qualquer anúncio de sabonete de luxo. E todos no teatro estavam loucos por Sabra; começando pelo diretor, que fazia o papel de São Jorge, até o porteiro, que vez por outra vestia o manto de São Pedro.

Portanto, desnecessário seria dizer que foi Sabra quem tornou o dragão sentimental... Não só no libreto, naturalmente; pois o ardente desejo dele de devorar a moça não variava nem um pouquinho dado ao estado emotivo em que se encontrava. E preciso, no entanto, reconhecer, para inteira justeza com o nosso dragão, que só uma metade dele mesmo se deixou atingir pelas seduções de sua vitima. A outra metade, a melhor, membro taciturno de uma sociedade de temperança e respondendo pelo nome de Davie Brigg, permaneceu insensível.

Davie era a cabeça do dragão. Ele dirigia com incomparável maestria as partes dianteiras do monstro; afastava a cabeça, sacudia as asas com barulhos assustadores e acendia bombas de fogo na garganta flamejante da fantástica fera. Era um escocês rude e simples, maluco por teatro e com carreira assegurada.

A parte de trás do dragão era simplesmente conhecida pelo nome de Jimmy. Ele recebia dezoito soldos por dia e se apaixonou por Sabra.

Como aquela ignara atriz chegou a seduzir, sem o desejar, a metade do dragão?

Foi o destino. A ternura de Jimmy por Sabra nasceu durante um ensaio. De tanto encontrá-la e admirá-la nos ensaios, ele ficou feliz por desempenhar um papel naquela peça justamente com ela. Mas logo se desiludiu amargamente porque, se lhe era permitido nos ensaios de tempos em tempos desembaraçar-se da casca do dragão para respirar um pouco e ao mesmo tempo se deliciar com a visão de Sabra, durante a representação isto lhe era absolutamente impossível.

Durante os largos intervalos em que o dragão não estava em cena, ele precisava ficar estendido no escuro, enquanto Ptolomeu representava ou Sublime ou São Jorge, declamando a sua ousadia em versos livres.

A rainha de seus sonhos era totalmente invisível, exceto por alguns segundos nos quais, por acaso, lhe acontecia de descobri-la a deslizar do palco para o camarim, como um raio de luar. Algumas vezes, no entanto, durante o espetáculo, a voz de Sabra alcançava suavemente os seus ouvidos, sufocada pela espessa couraça e pelas laminas de zinco da casca do monstro; e ele experimentava com isso, uma tal emoção que freqüentemente se esquecia de agitar a cauda.

Deste modo o amor cego via-se privado da visão da adorada, enquanto a indiferença personalizada do apático Davie Brigg deixava passar um olhar, distraído pelos buracos que serviam de olhos ao animal.

Jimmy não demorou muito a se tornar loucamente ciumento dos privilégios do companheiro. E uma noite, empunhando a coragem com as duas mãos, ousou propor a Davie trocar de lugar com ele.

- Você é um idiota! Nem tente mais me fazer semelhante proposta!
- assim respondeu o outro, suspeitando que a sugestão escondesse a intenção de suplantá-lo.

Desesperado, Jimmy resolveu aproveitar a primeira oportunidade para entrar antes dele na carcaça de fios de ferro; mas, desgraçadamente, Davie, como artista consciencioso, chegava sempre antes no seu lugar. Essa competição se tornara um incentivo para intermináveis discussões para eles, discussões que, durante o espetáculo, faziam vibrar os flancos metálicos da carcaça, provocando no pobre dragão os mais estranhos rumores intestinais.

E uma noite, enquanto Sabra cantava a romança, Jimmy confessou a Davie o seu amor pela jovem princesa.

Davie explodiu numa boa risada.
- Tire essa fantasia da cabeça e pode ficar sabendo, meu Caro - disse ele -, que a tua princesa é um espírito pratico, porque já faz tempo que ela pôs os olhos em São Jorge, ou melhor, no nosso diretor.

O dragão sentiu um arrepio e soltou uma espécie de rugido.
- Cale essa boca - sussurrou a parte de trás raivosamente. - Ela é pura como um anjo.

- Pelo amor de Deus! - respondeu a cabeça. - não ofenda os anjos do céu! Por que então ela se deixaria apertar assim contra o peito do diretor para receber beijos que não estão no programa?...

- Mas ela não pode saber que ele é casado - responderam as pernas de trás em tom choroso.

- Não se iluda! Ela sabe muito bem disso... E sabe também outras coisinhas. Se você visse como ela se entrega nos bravos de São Jorge!

Um urro de dor escapou da parte de trás do dragão:
- Mentiroso! Mentiroso infame! - rugiu Jimmy.

Naquele momento o dragão devia começar a sua participação. Davie esquenta seus motores e faz sair chamas pela boca e pelas narinas do monstro e começa balançar a cabeça. O pobre apaixonado deveria balançar por sua vez. Naquela prisão móvel, escura e sufocante, o pensamento de Sabra entre os bravos de São Jorge lhe deu vertigens.

Sabemos que a constância acaba sempre por triunfar.

Uma noite, Davie, que se atrasara em casa estudando algumas novas modulações para a voz do dragão, chegou tarde ao teatro e apenas a tempo de se enfiar na carcaça que já estava em cena. Grande foi a sua surpresa quando viu Jimmy instalado no seu posto.

- Sai já daí! - gritou.

Mas Jimmy, fascinado pela visão da sorridente Sabra, nem se deu por rogado.

Davie sacudiu-o, mas em vão.

- Você vai defender a minha parte e eu a sua na noite de hoje; e não me aborreça mais - disse-lhe Jimmy.

Para não comprometer a sorte da representação, Davie não reagiu, porem a raiva o remoía e lhe sugeriu um atroz pensamento. Calmo e decidido, chamou:
- Jimmy!

- Fique quieto, Davie, estou ocupado.

- Previno você que eu estou armado com um longo alfinete... E juro que se você não me entregar meu posto, vou te cutucar com o alfinete.

- Fique tranqüilo aí onde você está - foi a resposta de Jimmy, em tom peremptório.

A ponta aguda penetrou profundamente na parte carnosa de Jimmy mais ao alcance da mão de Davie... E o dragão deu um salto de lado e um rugido tão potente que gelou o sangue nas veias dos espectadores.

Pensando nas desastrosas conseqüências que uma segunda alfinetada poderia acarretar, Davie desistiu dela e se resignou ao destino que, durante aquela noite, condenava-o a uma situação humilhante.

No entanto, bem diferentes eram as emoções da "cabeça" do dragão: a alegria de Jimmy por finalmente ocupar o sonhado lugar se transformava numa indignação crescente à medida que sua clarividência de apaixonado lhe revelava a existência real de entendimento amoroso entre a primeira atriz e o primeiro ator. Vendo a ternura que São Jorge, esquecido das regras mais elementares do cavalheirismo, prodigalizava a princesa, Jimmy sentia ferver o sangue nas veias.

Por fim, chegou a hora da cena principal: a suprema luta entre São Jorge e o dragão.

A princesa, divinamente bela na sua veste de seda egípcia, encorajava com gestos e voz o seu defensor, que, encerrado na armadura prateada, se retirara sob a laranjeira protetora e aguardava o ataque do monstro.

Ao sinal do maquinista, Jimmy, o vulcânico apaixonado, saltou para frente, lançando gritos inarticulados de raiva e maldição, atirando seus petardos nos olhos do defensor, seu rival, com a feroz intenção de lhe causar todo o mal possível.

Os petardos porém não são projéteis e por outro lado a vista do diretor estava protegida pelo elmo.

Finalmente, Jimmy e Davie foram desarvorados pela fina lamina de São Jorge, que passou exatamente entre os dois atores, transpassando o monstro de lado a lado, entre os aplausos delirantes dos espectadores. O dragão morreu conscienciosamente, estendendo-se pelo palco na mais comovente das posições, e mordendo o pó que ali se encontrava em abundância.

Sabra, então, se jogou nos bravos do seu Salvador, e o apertou apaixonadamente, enquanto São Jorge, levantando a viseira, fazia ecoar uma onda de beijos no rosto empurpurado da virgem.

Foi a gota d'água que transbordou o copo. A raiva e a atmosfera viciada que se respirava na carcaça por pouco não sufocaram Jimmy, e assim o dragão perdeu completamente a cabeça.

Davie jamais esquecera o horror do instante em que se sentiu arrastado num arranco irresistível. Com um esforço sobre-humano, ele tentou firmar-se no chão, mas em vão.

De repente o corpo do dragão se endireitou... Um instante depois Jimmy arrancou sua odiosa mascara, descobrindo uma cabeleira hirta e tempestuosa, cobrindo um rosto agitado, congestionado, invadido pelo suor.

Assustado, horrorizado por aquele inqualificável procedimento, Davie crivava Jimmy desesperadamente de picadas de alfinete; mas o amante enlouquecido se tornara completamente insensível.

Os aplausos para aquela estranha aparição cessaram bruscamente e fez-se no teatro um silencio de morte; seria possível de se perceber o ruído da queda do alfinete de Davie.

São Jorge, que observava tudo sempre abraçado com Sabra, passou do auge da satisfação a um espanto cômico. Estarrecido, abriu os braços e afastou-se diante do olhar selvagem que o ameaçava.

- Miserável... Como ousa...

- Rugiu enfim uma voz rouca saída daquela cabeça assustadora; e com um vigoroso golpe de perna direita, o monstro híbrido aterrorizou o defensor de Sabra.

- Ensinar-lhe-ei a respeitar as donzelas - urrou ainda o vingador.

E resistindo aos esforços de Davie, que pretendia puxá-lo para trás, o teimoso apaixonado continuou a desferir golpes sobre o pobre São Jorge, entre aplausos e gritos de alegria dos espectadores.

Deste dia em diante, São Jorge e o dragão não foi mais representada.
Israel Zangwill
(1864-1926 - Inglaterra) 



Israel Zangwuill
Romancista, humorista e contista londrino, defensor do direito de voto das mulheres.
Intelectual de presença marcante na Inglaterra entre os séculos XIX e XX.


Da obra: Os Cem Melhores Contos de Humor da Literatura Universal

 
 

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