Odisséia de uma Vaca



No parque que contorna o rio, organizaram um grande baile popular por ocasião de uma festa religiosa. Havia duas orquestras, uma gincana com corrida de sacos e corrida de ovos. Chamava-se ainda a atenção para a loteria com muitos e valiosos prêmios, entre os quais uma vaca viva, um gramofone e um samovar de imitação de prata. 

O baile foi um sucesso, e a loteria teve grande aceitação.

O caixeiro de uma fábrica de amido, Pétia Smirnov, foi para o parque em companhia de Nástia, da encantadora Nástia que embelezava sua insípida existência. Quando chegaram, a festa estava no auge. Muitos jovens já haviam corrido, com as pernas dentro de sacos de farinha presos acima da cintura, o que, por sinal, representava o empacotamento do nobre esporte das "corridas de sacos". Outro grupo de jovens esportistas já desfilara diante do público, com os olhos vendados, levando com o braço estendido uma colher com um ovo. A metade dos bilhetes já fora vendida.

Nástia, de repente, apertou o braço do companheiro e sugeriu:
- Que acha Pétia, de tentarmos a sorte? Pode ser que ganhemos alguma coisa!

Pétia, como um cavalheiro, não se opôs.
- Nástia – disse, - sua vontade é uma ordem para mim.
E precipitou-se para a roda da loteria.

Com um gesto digno de um Rothschild, lançou seu penúltimo rublo e, mostrando à companheira dois pequenos bilhetes enrolados, propôs:
- Pode escolher! Um é seu, o outro é meu.

Nástia, depois de muito hesitar, escolheu o seu, desenrolou-o e, proferindo um "zero!" desanimada, atirou-o no chão. Pétia, ao contrário, emitiu um grito de triunfo:
- "Ganhei!"

E acrescentou, contemplando Nástia amorosamente:
- Se for espelho ou algum perfume, é seu.

Dirigiu-se em seguida para a barraquinha e perguntou:
- Senhorita! O número quatorze... Qual é o prêmio do número quatorze?

- Do quatorze? Um momentinho... Mas é a vaca! O senhor ganhou a vaca!

Todos queriam felicitar o felizardo, e Pétia compreendeu que na vida há momentos inesquecíveis cuja glória perdura por muito tempo, clareando, como faróis luminosos, o triste caminho da rotina cotidiana. E - talo tremendo efeito da riqueza e da glória - a própria Nástia perdeu o encanto aos olhos de Pétia. Veio-lhe logo a idéia de que outra garota, muito mais atraente, poderia embelezar-lhe a vida totalmente.

- Mas me diga - interrogou Pétia, depois de serenarem o entusiasmo e a inveja dos espectadores. - Será que posso levar minha vaca?

- Com certeza. Ou será que o senhor não prefere vendê-la? Por 25 rublos ficamos com ela.

Pétia soltou uma risadinha.
- Ha, ha, ha! Quer dizer que vocês anunciam que "o valor da vaca ultrapassa 150 rublos" e agora oferecem 25? Hah, não! Tinha graça. Pode me dar a minha vaca e estamos conversados.

Com uma das mãos agarrou a corda amarrada nos chifres da vaca, com a outra segurou o braço de Nástia e, alegre, exultante de felicidade, disse:
- Vamos para casa, minha querida, não temos mais nada a fazer aqui.

Nástia estava um tanto ou quanto chocada com a companhia daquele ruminante de olhar meditabundo. Timidamente, objetou:
- Mas... Você mesmo vai levá-la? Eu à esquerda, ela à direita?

- E por que não? É uma vaca como outra qualquer, ora. Além disso, a quem eu poderia confiá-la, aqui?

Pétia Smirnov era inteiramente destituído de senso de humor. Foi por isso que não se deu conta um momento sequer no que havia de grotesco naquele pequeno grupo saindo do parque: ele, Nástia e a vaca.

Ao contrário, perspectivas fantasiosas de riqueza delineavam-se à sua frente, e a imagem de Nástia começava já a perder pouco a pouco o seu encanto...

Nástia, franzindo a testa, perscrutou Pétia com o olhar, e seu lábio inferior pôs-se a tremer...
- Escute Pétia! Você não vai me acompanhar até em casa?

- Sim, por que não iria?

- Mas... E a vaca?

- Mas em que está ela nos atrapalhando?

- Então você pensa que eu iria atravessar a cidade na companhia desse animal ridículo? Minhas amigas dariam boas gargalhadas, e os moleques de rua iriam me gozar!

- Bem... - disse Pétia, depois de pensar, - vamos pegar um carro. Ainda me sobraram 30 copeques.

- E a vaca?

- Ela vai atrás, amarrada.

Nástia ficou rubra de indignação.
- Quem você acha que eu sou? Só falta me propor que eu vá montada na sua vaca!

- Você se acha engraçada? - perguntou Pétia em tom de desprezo.
- Aliás, não estou te compreendendo. Seu pai é dono de quatro vacas. Como pode você ter medo de uma, apenas? Minha vaca não tem nada de diabólica!

- Não podia tê-la deixado no parque até amanhã? Será que iriam roubá-la? Um tesouro desses! Meu Deus!

- Como você quiser - e Pétia levantou os ombros; estava irritado.
- Se minha vaca não lhe agrada...

- Quer dizer que você não vai me levar?

- E a vaca, onde é que eu vou pôr a vaca? No meu bolso é que não pode ser...

- Muito bem! Pois seja! Volto para casa sozinha! E não cometa a burrice de aparecer lá amanhã!

- Como você quiser!
Pétia fez um gesto de cumprimento; estava ofendido.
- Tampouco aparecerei depois de amanhã; posso mesmo nunca mais aparecer, se esta for a sua vontade...

- Lógico. Você encontrou agora a companhia que lhe convém!
Ofendendo-o com seu sarcasmo, Nástia apressou-se em afastar-se de cabeça curvada, sentindo que o coração se partia para sempre.
Por instantes, Pétia olhou Nástia se afastando. Logo voltou a si.

- Eia! Vaca! Vamos em frente, amiga.

Enquanto Pétia e a vaca seguiam pela rua escura que margeia o parque, tudo foi muito bem, mas, assim que desembarcaram na Rua da Nobreza, movimentada e iluminada, Pétia sentiu-se meio atrapalhado. Os passantes olhavam para ele espantados, e um menino ficou tão excitado que soltou um grito agudo e pôs-se a berrar:
- Olha o novilho levando sua mãe para dormir!

- Vou te dar um tapa para você aprender a ficar quieto!  Disse Pétia, em tom de ameaça.

- Pois dê! Te pago com a mesma moeda!

Pura bravata. O menino não corria nenhum risco; Pétia não podia soltar a corda. A vaca, aliás, apenas caminhava, devagar.

Ao chegar no meio da Rua da Nobreza, Pétia não conseguiu mais suportar a expressão irônica dos transeuntes. Procurou uma saída: soltou a corda e, dando pontapés na vaca, obrigou-a a andar sozinha. Ele próprio, simulando distração, prosseguia seu caminho a certa distância, como um transeunte qualquer que nada tivesse a ver com aquele animal. Quando a vaca diminuía o passo, detendo-se bovinamente debaixo de alguma janela, Pétia reiterava discretamente os pontapés, e o bicho voltava a trotar.

Chegaram assim à rua onde morava Pétia. Era uma pequena casa na qual ele alugava um quarto, residência de um moleiro. De uma hora para outra, como um relâmpago, uma idéia subiu-lhe à cabeça:
- Mas onde irei guardar esta vaca?

Claro, não havia estábulo na casa. Prendê-la no pátio seria arriscar-se a ser roubado, tanto mais que a portela não fechava.

- Tenho uma idéia! Decidiu-se Pétia, após laboriosa meditação.
- Vou introduzi-la com cuidado no meu quarto e amanhã tudo se arrumará. Afinal de contas, não há nada de mais no fato de uma vaca passar uma noite dentro de um quarto.

Devagar, o feliz proprietário da vaca abriu a porta de entrada, puxando atrás de si, com mil cuidados, o melancólico animal:
- Vamos, por aqui... Psiu! Os donos da casa estão dormindo... Não bate tanto com os cascos! Na pontinha dos pés, animal!

É bem possível que o comportamento de Pétia, nesta situação, seja considerado por todos, estranho, absurdo, incrível. A única pessoa que não pensava desta forma era o próprio Pétia. E talvez a vaca. Ora, o próprio Pétia não via outra solução para o problema. E, quanto à vaca, parecia-lhe a mesma coisa dormir num quarto como num estábulo.

No quarto, a vaca parou, indiferente, próxima à cama de Pétia, e começou a mastigar a ponta do travesseiro.

- Psiu! Bicho ruim. Pastando meu travesseiro! Será que está com fome? Ou com sede?

Pétia encheu uma bacia d'água e colocou-a sob o focinho do animal. Depois, pé ante pé, saiu da casa, quebrou alguns ramos de árvore e, de volta, colocou-os cuidadosamente na bacia.

- Aí está! Hum! Como é o teu nome? Nieta? Coma! Vamos, coma!
 A vaca mergulhou a cabeça na bacia, passou a língua nas folhas e, de repente, erguendo a cabeça, pôs-se a mugir ruidosamente.

- Psiu, bicho ruim! Gemeu Pétia, perdendo a calma.
- Silêncio! E praguejou.

Atrás de Pétia a porta rangeu de mansinho. Um homem nu, envolto num cobertor, olhava o quarto e, depois de verificar o que se passava, recuou com uma exclamação de medo.
- É você, Ivan? Sussurrou Pétia.
- Pode entrar, não tenha medo... Estou com uma vaca no meu quarto.

- Você enlouqueceu Pétia? Onde foi arranjar esta vaca?

- Ganhei-a na loteria. Come Nieta, come. Cuidado! Huê! Assim...

- Mas, não se pode dormir com uma vaca dentro do quarto! Objetou o outro, sublocatário, aborrecido, sentando-se na cama.
- Se os donos da casa souberem, vão jogar você porta afora!

- Ora, é só até amanhã: Ela passará a noite aqui e depois, dá-se um jeito.
- Muuu... Muuuu... - mugiu a vaca, como se concordasse com o dono.

- Idiota! Já calada! Me dá este cobertor aqui, Ivan, vou enrolá-lo na cabeça dela. Um momento! O que fazer? Eis o bicho, agora come o cobertor. Diabos!

Pétia jogou a coberta na cabeça da vaca e deu um soco com força na cabeça do animal, bem entre os olhos.

- Muuuu... Muuuu!

- Você vai ver! Disse o sublocatário.
- O senhorio vai acabar aparecendo e vai jogá-lo na rua, você e a vaca.

- Mas o que eu posso fazer? Gemeu Pétia, desesperado.
- O que é que você me aconselha?

- Aconselhá-lo? E se a vaca passar a noite toda mugindo? Sabe o que você deve fazer? Matá-la.

- Como matá-la?

- É muito simples. Matá-la. E amanhã você vende a carne para os açougueiros.

Os dotes intelectuais da visita não eram, de fato, superiores aos do dono do quarto.

Pétia contemplou o sublocatário com ar estúpido e, depois de instantes de hesitação, observou:
- Que lucro teria com isso?

- Como assim? Esta vaca deve pesar uns trezentos quilos... Poderá vendê-la a uns cinco rublos por arroba, o que já representará uns cem rublos de lucro. Sem contar o couro e o resto. Não lhe darão mais do que isto por ela viva.

- Você acha mesmo? Mas como iria matá-la? Tenho uma faquinha de sobremesa, sem fio. Tenho ainda uma tesoura.

- Isso aí, e se lhe enfiássemos a tesoura pelos olhos até atingir o cérebro?

- Mas e se o bicho resolver se defender? E gritar?

- É verdade. Não poderíamos envenená-la?

- Uma boa idéia: poderíamos dar um narcótico para ela dormir. Mas onde arrumar um narcótico?

- Muuuu... Muuuu... Mugiu a vaca, olhando o teto com olhos redondos e néscios.

Ouviram alguém se mexer atrás do tapume e da porta. Alguém que chiava, limpava a garganta e soltava palavrões. Depois ouviu-se um rumor de pés descalços a se aproximar, a porta abriu-se com um estrondo e, diante de Pétia, confuso, surgiu o senhorio, desgrenhado e sonolento.

Olhou para a vaca, depois para Pétia, rangeu os dentes e, sem fazer perguntas inúteis, emitiu duas palavras curtas, porém enérgicas:
- Fora daqui!

- Deixa eu explicar, Alexandre Fomitch...

- Fora daqui! Que eu não te veja nunca mais! Vou te ensinar a não fazer escândalo!

- Bem que eu avisei. Observou calmamente o sublocatário, como se tudo tivesse se resolvido às mil maravilhas. E enrolou-se num cobertor pronto a meter-se na cama.

Era noite alta quando Pétia se viu na rua com a vaca, sobre a qual colocara sua maleta, seu travesseiro e sua coberta.

- Ande, caminhe, seu camelo! Disse Pétia com voz sonolenta.
- Não podemos ficar aqui parados.

Aos poucos dirigiram-se para a saída da cidade. Depois de passar pelas casinhas suburbanas, entraram numa estepe deserta, fechada de um lado por uma cerca. Pétia quase desmaiava de cansaço.

- Estou com vontade de cochilar um pouco ao lado desta cerca. Murmurou.
- E a vaca, amarro no meu braço.

Foi assim que Pétia, joguete de um destino caprichoso, adormeceu profundamente.

- Bom dia, senhor! Disse uma voz ao seu lado.

Era uma manhã clara e alegre.
Pétia abriu os olhos e se espreguiçou.

- Senhor! Disse o camponês, tocando-o com a porta do tamanco.
- O senhor amarrou o braço na árvore. Que idéia mais esquisita!

Pétia estremeceu como que picado por uma vespa e soltou um profundo gemido. A outra extremidade da corda estava fortemente amarrada a um raquítico arbusto.
Alguém supersticioso teria imaginado que, durante o sono, uma força misteriosa metamorfoseara a vaca em arbusto, mas Pétia era apenas um rapaz essencialmente prático.

Soluçou e começou a berrar:
- Roubaram! Roubaram a minha vaca!

- Devagar - disse o comissário. O senhor fica repetindo "roubado" e "vaca". Afinal, do que é que se trata? Que espécie de vaca exatamente?

- Como, que espécie de vaca? Ora, uma vaca igual às outras vacas.

- De que cor?

- Ora, o senhor sabe... Castanha... Com manchas brancas.

- Onde eram as manchas?

- O focinho, se não me engano, o focinho era branco. Não, espere aí... A cabeça é que era branca... E as costas... E também a cauda. Resumindo: era igualzinha a todas as outras vacas.

- Não! Exclamou categoricamente o funcionário, empurrando uma folha de papel.
- Não posso sair à procura de sua vaca baseado em informações tão confusas. Existem milhares de vacas no mundo!

E o pobre Pétia dirigiu-se, muito desapontado, para sua fábrica de amido. Doía-lhe o corpo todo por ter dormido encolhido devido ao frio. O chefe o aguardava, com a censura engatilhada, pois já passava do meio-dia.

O pobre Pétia começou a meditar sobre a vaidade de todas as coisas; na véspera, possuía tudo: uma vaca, um teto, uma namorada; hoje, tudo perdera: a vaca, o teto, a namorada.

Estranhos são os caprichos da sorte, e todos nós, enquanto existimos, não passamos de escravos resignados e cegos do Destino.

Arkadi Averchenko
(1881-1924 - Rússia) 

Considerado "o rei do humor russo", com a mesma arma da sátira e do riso, Arkadi Averchenko conseguiu tanto fustigar a Rússia czarista quanto o novo (1917) governo soviético. Resultado: exilou-se em Praga, onde continuou a escrever suas histórias sobre a vida cotidiana, com uma graça despretensiosa, algo contrária ao humor melancólico ou semitrágico da tradição russa de um Gogol, de um Tchecov.

Da obra: Os Cem Melhores Contos de Humor da Literatura Universal

2 comentários:

  1. Muito bom o conto. Divertido e real. Uma releitura do antigo ditado que diz: Quem tudo quer, tudo perde. Neste caso, o nosso heroi nem chegou a ver a vaca ir para o brejo.
    Arifonseca

    ResponderExcluir
  2. Muitos dormem com a vaca amarrada ao braço. Quando acordam já é tarde!

    P.S. O novo visual do site ficou ótimo.

    Abraços Merio.

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...