Zenzele, uma carta para minha filha

        Na véspera do meu casamento, enquanto eu experimentava nervosamente o meu vestido de noiva pela vigésima vez, a mãe do meu futuro esposo esgueirou-se pelo meu quarto e fechou a porta. Nessa época, nos nossos costumes, aqui na África, o casamento se realizava na casa dos sogros, e dias antes do casamento, a mulher se dirigia para lá a fim de cuidar dos preparativos das festas e danças que ocorriam antes e depois das cerimônias tradicionais.
Se já me sentia inquieta, imagine ali agora, diante do aparecimento de minha sogra: me sentia num terror catatônico. Ela se deteve à porta, apoiando-se na sua bengala, metida num vistoso camisolão estampado de flores, o cabelo grisalho envolvido num turbante amarelo, e, simplesmente me encarou. Não sorriu nem se mexeu durante alguns poucos minutos. Então, veio mancando para perto de mim, segurou minha mão e me levou até a cama.
- Venha cá minha filha. Sente-se. Quero lhe mostrar uma coisa.
Fiquei atordoada.
Até aquele momento, nós duas tivéramos pouquíssimo contato pessoal. Ela era conhecida como uma velha obstinada, rabugenta, com uma irritação fácil de se desencadear e difícil de se esgotar.
E, naquela noite, o que mais queria é que nada desse errado.
Sentei-me ali naquele instante, petrificada, com medo de que à semelhança de tantas sogras, ela viesse me oferecer algum tipo de encantamento ou alguma aliança em que eu tivesse de agradecer com fidelidade ou com promessas de fertilidade, ou com alguma outra coisa qualquer que protegesse o seu filho.
O que eu faria?
Como eu poderia, gentilmente, ou com firmeza, recusar alguma oferta que ela me fizesse, sem parecer uma moça arrogante da cidade?
Olhei com desespero ao redor, para o meu vestido, talvez ali dentro de mim, implorando que minha irmã Linda estivesse por perto. Afinal de contas estava ali para me acompanhar, e como sempre, não se encontra em parte alguma quando mais se precisa dela.
Para meu horror e minha surpresa, a velha senhora começou a desabotoar a camisola. Lenta e penosamente, as mãos reumáticas começaram a revelar o que seria preferível esconder.
Embaraçada, desviando o olhar, vi de relance os seios dela, fartos e lustrosos, mas encarquilhados como gigantescas ameixas penduradas na estrutura óssea.
-Você agora tem a beleza da juventude, por isso pode estremecer ante meus seios enrugados. Disse ela, sorrindo sozinha.
Eu estava perplexa demais para responder qualquer coisa.
Ela prosseguiu:
- Mas espere só para ver: à medida que passarem as estações, sua cintura irá engrossar, seus quadris ficarão redondos e cheios como a lua e os peitos irão despencar como frutos que passaram da madureza, pendurados na árvore.
Agora os seios dela estavam inteiramente expostos e eu tentava desviar os olhos sem grosseria. Ela apertou minha mão entre as suas. Depois colocou-a sobre suas faces enrugadas e me fez acariciar cada sulco.
Eu podia sentir-lhe a aspereza da face, as cerdas, macias das sombracelhas e as ondulações da testa, à medida que ela ia guiando delicadamente minha mão por todo o rosto. Enquanto isso, dizia:
- Ah! Isso foi das lágrimas que derramei quando ele nasceu. Como foi penoso! Doeu como quando uma árvore é rachada por um raio.
Senti vontade de cantar e de chorar ao mesmo tempo.
- Essa linha bem aqui foi quando ele começou a falar, oh! Como eu ri! Como eu ri! Esse sulco daqui, sim aqui, sinta como é fundo, foi quando ele saiu da granja para aderir à guerra. Meu Deus, como eu me preocupei!
Oh, e este vinquinho aqui foi de sorrir com a doce lembrança do sucesso dele.
E este, oh! Ainda dói; não aperte muito, surgiu quando o prenderam e o espancaram, porque tentava defender os meninos que lutavam pela liberdade.
Ela suspirou tão fundo, que parecia estar começando a chorar. Mas, apenas balançou tristemente a cabeça, enquanto fez minha mão descer e envolver a pele coriácea do seio.
- É aqui que vem a força do seu homem. Aqui ele se arrastava, agarrando minha blusa, berrando por leite. Amamentei seis filhos! Todos vorazes e saudáveis! Eh! Eh! Riu ela, friccionando delicadamente o peito.
Quando soltou minha mão e começou a vestir, senti um alívio.
- Você olha para nós, velhas, da cabeça aos pés, envolvidas por turbantes e saias compridas e pensa que somos como freiras, temerosas de mostrar o corpo porque é pecado. Mas não é verdade.
É porque compreendemos os caminhos da natureza. No mato, convivemos longa e profundamente com ela. A natureza é mulher como nós. Minha beleza esta aqui. Prosseguiu ela, apontando as rugas e os seios. Existem marcas de nascença e também outras. Eh! Eh! São as marcas da vida.
Meu rosto, do jeito como é, um mapa de minhas fadigas e alegrias, é para mim tão precioso quanto sua cinturinha e seus seios redondos são para você.
É esse o testemunho do amor que dei à minha família. Não existe uma só marca que seja minha. Elas pertencem a todos que criei, a essa família que formei.
É um corpo de amor.
Você vê como algo velho, ressequido e sem vida, mas um dia, entenderá que cada beleza tem sua estação.
O corpo da juventude conhece seu dia e deve vivê-lo integralmente.
Também o corpo da colheita tem seu tempo. É o meu agora.
É um corpo que ceifou, semeou e colheu a si mesmo.
Algum dia chegará também o corpo da terra, o finalmente eterno, que não tem forma nem se extingue, para onde devemos todos retornar.
Vim ver você esta noite, filha, para transmitir-lhe estas palavras que minha sogra me disse na véspera do meu casamento, tempos atrás, e assim a sabedoria de nossos ancestrais poderá dilatar-se e amadurecer em cada rebento que brotar. Assim nossas raízes se aprofundam e nossas palavras nunca morrerão.
À lembrança dos mortos, ela se manteve em silêncio por um instante, e depois, num tom mais alegre, disse:
- O corpo da mulher acompanha a lua. Não é fixo e rígido como o do homem. A felicidade e a tristeza da mulher assumem várias formas. A cada dia, a claridade de sua luz e as profundezas misteriosas de suas sombras podem mudar.
A mulher está tão perto da terra quanto das alturas. Cresce como a seara, amadurece como o fruto. Quando depois de chegarem muitas crianças, meu filho olhar para você e perguntar onde está a beleza da juventude, diga-lhe isto:
-“O corpo da juventude acompanha a juventude e o corpo da colheita é o corpo de seus anos tardios”.
Observe como a natureza se veste a cada estação.
No verão enfeita-se em campos de flores cor-de-rosa e encarnadas, frutifica em pêssegos, mangas e limões, e quando a estação esfria, também ela se veste com nuanças mais escuras de marrom, castanho avermelhado e ouro, para, durante as chuva, mostrar-se num misto de cinzas e azuis tempestuosos.
A mulher deve orgulhar-se sempre de cuidar de si. São princípios que nunca abandonamos. Completou.
- Boa noite, minha querida menina. Sei que você fará meu filho feliz e será uma esposa de quem nós poderemos orgulhar.
Apoiou-se na bengala e me deixou em completa escuridão. Eu estava aturdida, encantada com aquelas palavras que mostravam o seu corpo como um belo monumento do espírito humano sobre a diversidade.
Como desejei que aquilo também fosse o meu, que eu já pudesse acariciar minhas pálpebras enrugadas e ostentar meu corpo como um manto majestático de uma vida bem vivida!
 “Zenzele, uma carta para minha filha” de J. Nozipomaraire
 

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