Barba Azul



A curiosidade, apesar de seus encantos,
Muitas vezes custa sentidos prantos;
É o que vemos todo dia acontecer.
Perdoem-me as mulheres, esse é um frívolo prazer.
Assim que o temos, ele deixa de o ser
E é sempre muito caro de obter.


Basta ter um pouco de bom senso,
E ter vivido da vida um bocado,
Pra ver logo que esta história
É coisa de um tempo passado.
Já não existe esposo tão terrível,
Nem que exija o impossível.
Mesmo sendo ciumento, ou zangado,
Junto da mulher ele sorri, calado.
E quer tenha a barba azul, roxa ou amarela
Quem manda na casa é mesmo sempre ela.


Era uma vez um homem que possuía casas magníficas, tanto na cidade quanto no campo. Suas baixelas eram de ouro e prata, as cadeiras, estofadas com tapeçarias, as carruagens, recobertas de ouro.

Mas, por desgraça, esse homem tinha também a barba azul. A barba o tornava tão feio e terrível que mulheres e moças fugiam quando batiam os olhos nele.

Uma dama nobre que vivia nas suas vizinhanças tinha duas filhas que eram verdadeiras beldades. O homem pediu a essa senhora a mão de uma das suas filhas e deixou que ela mesma escolhesse qual das duas lhe daria.

Nenhuma das moças quis aceitar a proposta, e ficaram empurrando o pedido de uma para a outra, sem conseguirem se convencer de casar com um homem de barba azul. O que aumentava ainda mais aquela aversão é que o homem já se casara com várias mulheres e ninguém sabia o que fora feito delas.

Para criar amizade, Barba Azul levou as moças e a mãe, mais três ou quatro das amigas mais íntimas delas e alguns rapazes da vizinhança, para uma de suas casas de campo. Lá passaram oito dias inteiros. Foi uma sucessão de passeios, caçadas e pescarias, danças, banquetes e ceias. À noite, estavam sempre tão ocupados em pregar peças uns nos outros que nunca dormiam. Enfim, tudo correu tão bem que a irmã caçula começou a pensar que a barba daquele homem não era assim tão azul, e que ele era de fato um perfeito cavalheiro.

Assim que voltaram para a cidade, realizou-se o casamento.

Passado um mês, Barba Azul disse à mulher que tinha de partir em viagem para cuidar de um negócio importante na província. Ficaria fora pelo menos seis semanas. Insistiu que ela se divertisse na sua ausência. Poderia, se quisesse, convidar suas melhores amigas e levá-las para a casa de campo. Que as recebesse sempre muito bem.

Deu à mulher uma argola com chaves penduradas e disse:
- “Estas são as chaves dos dois grandes depósitos, aqui estão as das baixelas de ouro e prata que não são de uso diário, estas são as dos meus cofres-fortes, onde guardo meu ouro e minha prata, estas as dos escrínios onde guardo minhas pedrarias, e aqui está a chave mestra de todos os aposentos da casa. Quanto a esta pequenina aqui, é a chave do gabinete na ponta da longa galeria do térreo. Abra tudo que quiser. Vá aonde bem entender. Mas proíbo-lhe terminantemente de entrar nesse quartinho, e se abrir uma fresta que seja dessa porta nada a protegerá da minha ira.”

A esposa prometeu cumprir exatamente as ordens do marido. Barba Azul lhe deu um beijo de despedida, entrou na carruagem e iniciou sua viagem.

As vizinhas e as amigas da jovem recém-casada não esperaram convite para ir visitá-la, tal a impaciência delas em ver os esplendores da casa. Não haviam ousado ir lá enquanto o marido estava em casa, assustadas por sua barba azul. Sem perder tempo, começaram a explorar os quartos, gabinetes, guarda-roupas, cada um mais belo e suntuoso que o outro.

Depois subiram para ver os depósitos, e ficaram pasmas diante do número e da beleza das tapeçarias, camas, sofás, cristaleiras, mesas de vários formatos. Havia espelhos em que a pessoa podia se ver da cabeça aos pés. Alguns espelhos tinham moldura de vidro, outros de prata ou de vermeil, mas todos eram os mais belos e os mais magníficos que já se tinha visto.

As convidadas não paravam de exagerar e invejar a felicidade da amiga. Esta, no entanto, não estava se divertindo nada em ver todo aquele luxo, pois estava ansiosíssima para abrir o gabinete do térreo.

Estava tão atormentada por sua curiosidade que, sem lembrar que era grosseiro abandonar suas amigas, desceu por uma escadinha secreta, e tão depressa que por duas ou três vezes achou que fosse cair.

Ao chegar na porta do gabinete, parou por um momento, pensando na proibição do marido e considerando que podia lhe ocorrer uma desgraça caso desobedecesse. Mas a tentação era grande demais. Não pôde resistir a ela e, tremendo, pegou a chavezinha e abriu a porta.

De início não conseguiu ver coisa alguma, pois as janelas estavam fechadas. Após alguns instantes, começou a perceber que o assoalho estava todo coberto de sangue coagulado, e que naquele sangue se refletiam os cadáveres de várias mulheres mortas e penduradas ao longo das paredes. Eram todas as mulheres que Barba Azul desposara e degolara, uma depois da outra.

Pensou que ia morrer de pavor e, ao puxar a chave da fechadura, ela caiu da sua mão. Depois de respirar fundo, apanhou a chave, trancou a porta e subiu ao seu quarto para recobrar a calma. Mas seus nervos estavam em frangalhos, não conseguiu se tranqüilizar.

Notando que a chave do gabinete estava manchada de sangue, esfregou-a duas ou três vezes, mas o sangue não saiu. Tentou lavá-la e esfregá-la com areia e saibro também. Mas o sangue não saía, pois a chave era encantada e não havia meio de remover aquela mancha. Quando se conseguia limpar o sangue de um lado da chave, ele reaparecia no outro.

Barba Azul chegou de sua viagem naquela mesma noite, dizendo que a caminho recebera cartas lhe informando que o negócio que exigira a sua presença fora concluído de maneira vantajosa para ele. Sua esposa fez tudo que pôde para lhe demonstrar que estava radiante com seu rápido retorno.

No dia seguinte, ele pediu as chaves de volta e ela as devolveu, mas com uma mão tão trêmula que ele adivinhou facilmente tudo que acontecera.

- “Por que a chave do gabinete não está com as outras?”
Ele perguntou.

- “Com certeza eu a deixei lá em cima, sobre a minha mesa.”

- “Não deixe de devolvê-la logo mais.”
Disse Barba Azul.

Após várias desculpas, ela teve de trazer a chave. Depois de examiná-la, Barba Azul perguntou à mulher:
- “Por que a chave está manchada de sangue?”

- “Não tenho a menor idéia.”
Respondeu a pobre mulher, mais pálida que a morte.

- “Não tem a menor idéia? Mas eu tenho. Você quis entrar no gabinete! Muito bem, senhora, entrará nele e tomará seu lugar junto das damas que lá viu.”
Replicou Barba Azul.

Ela se jogou aos pés do marido, chorando e pedindo perdão, demonstrando um arrependimento verdadeiro por não ter sido obediente. Teria comovido um rochedo, bela e desesperada como estava. Mas Barba Azul tinha o coração mais duro que um rochedo.

- “Tem de morrer, senhora! e imediatamente.”
Disse ele.

- “Já que tenho de morrer dê-me só um tempinho para eu fazer minhas preces.”
Ela respondeu, fitando-o com olhos banhados de lágrimas.

- “Dou-lhe um quarto de hora, nem um segundo a mais.”
Disse Barba Azul.

Quando ficou sozinha, ela chamou sua irmã e lhe disse:
- “Minha irmã Ana, suba no alto da torre, eu lhe peço, e veja se meus irmãos estão chegando. Eles me prometeram que viriam hoje. Se os vir, faça-lhes sinais para que se apressem.”

A irmã Ana subiu ao alto da torre e de vez em quando a pobre desesperada gemia:
- “Ana, minha irmã Ana, não está vendo chegar ninguém?”

E a irmã Ana respondia:
- “Só vejo o sol coruscante e o capim verdejante.”

Então Barba Azul, com um grande cutelo na mão, gritou para a mulher a plenos pulmões:
- “Desça já, ou subirei aí.”

- “Um momento, senhor, por favor.”
A mulher lhe respondeu, e logo perguntou baixinho:
- “Ana, minha irmã, não está vendo chegar ninguém?”

E a irmã Ana respondeu:
- “Só vejo o sol coruscante e o capim verdejante.”

- “Trate de descer depressa subirei aí.”
Gritou Barba Azul.

- “Já vou!”
Respondeu a mulher, e implorou:
- “Ana, minha irmã, não está vendo chegar ninguém?”

“Estou vendo dois cavaleiros que vêm para este lado, mas ainda estão muito longe... Deus seja louvado!”
ela exclamou um instante depois.
- “São os meus irmãos. Estou fazendo todos os sinais que posso para que se apressem.”

Barba Azul se pôs a gritar tão alto que a casa toda tremeu. A pobre mulher desceu e foi se jogar aos pés dele, debulhando-se em lágrimas, toda descabelada.

- “Isso não adianta nada. Você tem de morrer.”
Disse Barba Azul agarrando-a pelos cabelos com uma das mãos e com a outra erguendo o cutelo no ar, estava pronto para lhe cortar a cabeça.

A pobre mulher, voltando-se para ele com olhos moribundos, suplicou que lhe desse um momento para se preparar.

“Não! Recomende a alma a Deus.”
E ergueu o braço.

Nesse instante bateram na porta com tanta força que Barba Azul ficou simplesmente paralisado. A porta foi aberta, e logo viram entrar dois cavaleiros que, empunhando a espada, correram diretamente para Barba Azul.

Reconhecendo os irmãos de sua mulher, um dragão, o outro mosqueteiro, ele saiu correndo para salvar sua pele. Mas os dois irmãos o perseguiram tão de perto que o agarraram antes que conseguisse chegar à escada. Atravessaram seu corpo com suas espadas e o deixaram cair morto. A pobre mulher, quase tão morta quanto o marido, nem teve forças para se levantar e abraçar os irmãos.

Aconteceu que Barba Azul não tinha herdeiros e que assim sua mulher continuou na posse de todos os seus bens.

Ela empregou parte da sua fortuna para casar a irmã Ana com um jovem fidalgo que a amava havia muito tempo. Outra parte na compra de patentes de capitão para seus dois irmãos. E o resto no seu próprio casamento com um homem muito direito que a fez esquecer o que sofrera com Barba Azul.

Charles Perrault

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