Vida Saudável




Agora virou moda.

Para ser feliz e gozar de uma boa saúde temos que ter uma alimentação saudável, praticar exercícios, ingerir alimentos ricos em vitaminas, ácido fólico, zinco, ferro, selênio, omega 3, ingerir pelo menos 2 litros de água por dia, evitar alimentos com as tais gorduras trans... Aliás, que raio é essa tão malvada gordura trans?


Beber está liberado. Até incentivam isso nas propagandas da TV. Aparecem jovens saudáveis, se divertindo, curtindo uma balada com vários tipos de bebidas.




Cigarro é o grande vilão, claro, ao lado da gordura trans.

Fiquei ali pensando... Como nossos avós viveram tanto tempo sem saber das grandes conquistas da humanidade para se conseguir viver bem e feliz?

Resolvi então aderir a moda e mudar meu estilo de vida e alimentação. Alimentos orgânicos, vitaminas naturais, fibras na dieta, água, pouco sal, nada de açúcar, carne magra, academia, dormir oito horas por dia, tirar uma sonequinha depois do almoço para diminuir o stress e aumentar a minha rentabilidade no trabalho.

Estava disposta a fazer qualquer coisa para uma vida feliz, com saúde e mais disposição. Tudo por uma vida saudável!

Peguei a minha listinha, abri o armário da despensa, e fui colocando em um saco de lixo todos os itens proibidos para iniciar minha nova vida saudável.

Anotação: comprar saco de lixo biodegradável.

Para minha surpresa, não sobrou quase nada. Como pude viver tanto tempo comendo somente porcarias?

Fumei meu último cigarro e joguei o resto no lixo.

Fui até o supermercado do outro lado da cidade, pois o que tinha no meu bairro não tinha alimentos orgânicos, muito menos os tão na moda, Glúten Free. Fui colocando os alimentos saudáveis em meu carrinho. Estava feliz. Eu estava começando uma nova vida, mais saudável, com garantia de mais saúde e disposição para os afazeres do dia a dia.

Ao passar no caixa, uma surpresa. O valor da compra excedia, e muito, ao que eu poderia gastar. Chegava a metade do valor de meu suado salário. Mas tudo bem. Tudo por uma vida saudável!

Voltando para casa, desliguei o ar condicionado do carro. O ar-condicionado retira a umidade do ambiente. Com isso, as vias respiratórias ressecam e vem a dificuldade e desconforto para respirar, além da tosse, garganta seca e sensível, irritação no nariz e olhos. Um calor de 32ºC. O jeito foi deixar os vidros do carro abertos.

Ao parar no sinal, a célebre frase:
- Perdeu… Perdeu...

Tive que entregar meu relógio, dinheiro e cartão de crédito para o meliante que me apontava uma navalha para o pescoço.
Mas tudo bem.
Tudo por uma vida saudável!

Minhas mãos ficaram tremendo, o coração bateu forte. Me veio uma vontade enorme de acender um cigarro para diminuir o stress, mas, não havia nenhum.
Mas tudo bem.
Tudo pro uma vida saudável!

Hora do almoço.
Preparei uma refeição de fazer inveja a qualquer nutricionista.
Tudo saudável.

E acompanhado de um copo lagoinha de vinho. Mais que nunca tenho que cuidar de meu coração.

Anotação: Comprar uma taça de vinho.

Depois de uma soneca, entrei em meu carro, com o ar condicionado desligado, vidros fechados num calor de 32ºC e me dirigi para o trabalho.
Já estava atrasada, dormi um pouco mais do que o esperado.
Então, para compensar, pisei mais fundo no acelerador.
Mais na frente, mais uma surpresa…
Uma blitz.

- Está com pressa? Perguntou o guarda de trânsito.
- Por favor, documentos. Desça do carro. Sopre o bafômetro. 0,07mg/l de ar contendo álcool de meus pulmões.

“Oh copinho de vinho danado!”

E mais uma multa. E não adiantou tentar explicar que havia sido o copo de vinho indicado para uma vida saudável.
A resposta:
- Se beber, não dirija.

Nessa altura do campeonato, teria que trabalhar dobrado para poder pagar as despesas dessa minha vida saudável.
Como iria conseguir dormir as oito horas recomendadas para a minha vida saudável?

Chegando no trabalho, meu humor não era o dos melhores. Pensava no cigarro mais que nunca.
Fui recebida com um aviso de que teria de arcar com as conseqüências…
Melhor dizendo…
Procurar outro emprego.

“Ai minhas dívidas para uma vida saudável!”
Agora além de arrumar mais um emprego, teria de conseguir dois.

Meu coração agora parecia não caber em meu peito.
Foi me dando uma vontade enorme de vomitar, e o suor escorria em corpo saudável. Fui ficando tonta…
Um aperto no peito.

Acordei em uma maca da emergência do SUS.
Sem emprego, sem dinheiro, sem plano de saúde.

Fato. Havia infartado.

E junto com a noticia do infarto, as recomendações do médico para levar uma vida mais saudável.

 Cristina Corradi


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