Sobre a Razão e a Paixão- Khalil Gibran



E a sacerdotisa voltou a falar e disse:

Fala-nos da Razão e da Paixão.

E ele respondeu, dizendo:

A vossa alma é muitas vezes um campo de batalha, em que a vossa razão e o vosso julgamento estão em guerra contra a vossa paixão e o vosso apetite.

Pudesse eu ser o pacificador da vossa alma e transformaria a discórdia e a rivalidade dos vossos elementos numa união e melodia.

Mas como o poderia fazer, a menos que vós também fosseis pacificadores, amantes de todos os vossos elementos?

A vossa razão e a vossa paixão são o leme e as velas da vossa alma navegante. Se um de vós navegardes e as velas se partirem, só podereis andar a deriva ou ficar imóveis no meio do mar, pois a razão, só por si, é uma força confinante; e a paixão, não controlada, é uma chama que arde provocando a sua própria destruição.

Por isso deixai a vossa alma exalar a vossa razão até ao auge da paixão, de forma a poder cantar.

E deixai que ela oriente a vossa paixão com razão, de forma a que a vossa paixão possa viver através da sua ressurreição diária, e, qual fênix, renascer das próprias cinzas.

Eu comparo o vosso julgamento e o vosso apetite com dois hóspedes queridos que recebeis na vossa casa.

Com certeza não iríeis favorecer um mais que o outro, pois aquele que o fizer perderá o amor e a confiança dos dois.

Entre as colinas, quando vos sentais à sombra fresca dos brancos álamos, desfrutando da paz e serenidade dos campos e prados distantes deixai o vosso coração dizer silenciosamente:

"Deus repousa na razão".

E quando vier a tempestade, e o vento forte assolar a floresta, e a trovoada e os relâmpagos proclamarem a majestade do céu, deixai que o vosso coração diga:

"Deus move-se na paixão".

E uma vez que sois um sopro na esfera de Deus e uma folha na floresta de Deus, também vós devíeis repousar na razão e mover-vos na paixão.

Trecho do livro O Profeta, de Khalil Gibran

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