Amor - Saadi



Uma ratinha amava um gato.
Que história!
 E como irei contá-la?

Logo de começo, dir-me-eis: "Não te acreditamos. Como podes afirmar que uma ratinha estava apaixonada por um gato, como a doce e flexível Khalila, em lspaã, por um terrível guerreiro tártaro que lhe matara pai e mãe? Acaso te revelou a ratinha os seus sentimentos, ou a ouviste confessá-los ao gato? Admitimos que esses dois encantadores animais se entendessem bem, como uma ovelha e um lobo que fossem criados juntos; mas não é possível ir mais longe. Se tens novas informações acerca dos amores de Khalila e do seu guerreiro tártaro, então serás escutado com interesse."

Vejo que não freqüentastes a Universidade Nizhamiya, onde se fala de coisas muito mais surpreendentes. Porventura um estudante, lá, abana a cabeça, incrédulo, quando o professor lhe ensina que Dario obteve a coroa graças à jumenta do seu escudeiro Mavuz? Ou levanta os ombros ao ouvir que, em Tebas, um crocodilo salvou o filho do faraó Nectanebo, que se ia afogando no Nilo? Noutra ordem de idéias: ousa ele formular objeções se lhe afirmam que tal borboleta pode ir diretamente ao encontro da fêmea, a mil parasangas do jardim onde esta foi capturada? Limito-me a repetir-vos que devemos acreditar em tudo, porque tudo ignoramos. A verdadeira ciência consiste em saber que não sabemos nada.

Enquanto eu vos fazia esta digressão, tivestes ensejo de vos arrepender e de pensar na ratinha e no gato. Eles são tais como os vistes. Rogo-vos, pois, não cuideis mais em Khalila, apesar do vestido de seda que usa minha ratinha, nem no guerreiro tártaro, não obstante os rijos bigodes do meu gato.

Agora, estais enganado se imaginais que essa ratinha e esse gato se encontravam numa casa ou numa loja, numa água furtada ou numa adega, num terreno devoluto ou num campo. Não: era numa mesquita em ruínas, onde ele desfrutava de grande consideração, em virtude do sacrifício que o profeta Moamede se impôs, um dia, para não despertar seu gato adormecido. Eis por que os gatos, como bem o sabeis, são os únicos animais que podem entrar no Paraíso.

Essa mesquita não era mais bela nem mais fresca do que outra qualquer. Pelo contrário! De todas aquelas de que se orgulhava Tabriz, era ela a mais miserável e a mais exposta às intempéries.

Conheço as mais nobres mesquitas do mundo. No Cairo, recolhi-me à mesquita de Amru, que tem vinte e nove naves paralelas e quatro mihrab . Em Jerusalém, orei na mesquita de Omar, onde se erguia o tribunal de Davi. Em Bagdá, ouvi arrulhar as pombas da mesquita de Al Mamum. Em Mussul, ouvi arrulhar as fontes da mesquita de Saíf Ed Din Ghazi. Em Ispaã, não podia afastar-me da área interna da mesquita Djumá. Oito dias passei na mesquita de Ocba, em Cairuane, e cinco noites na mesquita Karauiyin, em Fez.

Vi, pois, as mais belas mesquitas do mundo, mas, em minhas recordações, a todas ultrapassa a humilde mesquitinha de Tabriz.

Abandonada desde um século, era ela o asilo de uns vinte mendigos e de ladrões errantes, de quatro pobres de espírito e três sábios a quem a excessiva ciência tornara incapazes de viver como toda a gente. Posso estar em erro, mas creio que o Senhor devia de considerar com benevolência essa reunião, no seu templo, de tão grande número de vítimas do destino. E tanto mais o creio quanto aquele refúgio me foi precioso em certa época da vida em que eu acabava de sucumbir numa luta com minha consciência, minha honra e minhas aspirações.

Uma bela e cruel rapariga de Tabriz fora a causa dessa luta, de que, afinal, eu poderia ter saído vencedor, se com isto me houvesse preocupado a sério. Mas eu sabia haver tantas rosas nessa mesquita em ruínas, e tantas estranhas personagens! Estava, pois, vencido de antemão.

Durante a batalha, o bom guerreiro deve ter, há um tempo, o olho no inimigo e numa posição de retirada.

Eu escolhera, pois, aquele recanto, onde ficava sozinho quando a temperatura permitia aos ladrões e aos mendigos irem tratar de seus negócios. Em tais dias, procurava desalentar os três sábios, que logo se iam embora, e, por outro lado, tratava de livrar-me dos pobres de espírito, mandando-os a lugares muito distantes em busca de coisas extraordinárias, que não existiam. Uns regressavam na mesma tarde, outros, no dia seguinte, todos empenhados em recomeçar a procura, tanto é certo que os homens, insensatos ou não, têm necessidade de esperar.

Ora, cada manhã, à mesma hora, chegava um belo gato cinzento, que também tinha a pretensão de reinar como soberano naquela mesquita.

"Secretamente apaixonado, ó gato, esperas ou procuras, mas logo desdenhas o que alcançaste: a carícia ou a presa.
O pássaro, em seu ninho, tem medo de ti, e o peixe, nas ervas da margem do rio, e o grilo, à beira de seu esconderijo.
A mulher em que te roças, estremece.
O menino que te pega, examina as tuas garras.
O homem que deseja castigar-te, hesita.
Sultão veloz das noites serenas,
Tranqüilo sultão das noites tempestuosas,
Gemes de amor, ou de cólera, quando vagas pelas açotéias inundadas de luar?"

Compunha estes versos, e muitos outros, enquanto, imóvel, observava o gato. Como tudo é possível, a princípio eu havia imaginado que a paz da mesquita o atraíra também. Mas, na realidade, como logo percebi, o que lá o atraía não era outra coisa senão os camundongos que infestavam o templo.

Durante quatro dias seguidos esse paciente e ágil soberano fez carnificinas que eu comparo às de Dario contra os babilônios e os citas. Fulminante como o raio, pulava de uma cornija ou saltava de um canto de parede, e logo jaziam, ofegantes, dez camundongos. No quinto dia, uma ratinha, que conseguira escapar à última chacina, saiu do seu abrigo e, a passo lento, caminhou em direção ao guerreiro.

- Ó gato - disse ela, de longe - és verdadeiramente superior aos homens, pois eles são incapazes de realizar as tuas façanhas! Os sobreviventes e as sobreviventes da nossa tribo consideram-te o senhor do Universo, e aqui me vês muito feliz por ter sido incumbida de transmitir-te esta notícia.

Piscando os olhos, com ar muito sereno, o gato respondeu:
- Eu sou meio surdo. Não entendo o que me dizes. Queres-te aproximar um pouco?

- Não se deve falar de perto aos sultões e aos heróis - tornou a ratinha. Agradeço-te muito a honra que me fazes pretendendo violar, em meu favor, essa regra absoluta.

Entretanto, insisto em observá-la: minhas irmãs me espreitam, e delas recebi ordem de ser muito respeitosa para contigo, por mais bondosamente que me tratasses.

Ficou neste pé a conversa, e a nossa ratinha voltou à sua toca, sem perder de vista o poderoso.

Mal foi entrando, as amigas cercaram-na.

 - Ouviram o que ele me disse?
Perguntou, sentada em sua traseirinha, com olhos perscrutadores.

- Não! Não! - responderam as outras. - Diga logo!

Ela começou:
- Que gato! Que graça, que delicadeza! Declarou-me que teria o maior prazer em conversar sempre comigo e que me daria prova de sua deferência permanecendo longe do lugar onde eu estivesse. Pedi-lhe que não me tratasse com essa atenção, com essa cortesia exagerada, mas ele não me atendeu. Em vão tentei convencê-lo a dar alguns passos: não se mexeu. Serei, certamente, mais feliz na próxima vez. Agora, deixem-me sozinha. Vou pensar no meio que empregarei para fazê-lo afastar-se desta mesquita.

Devo concluir, para não vos fatigar a atenção. O essencial da minha história é que a ratinha ficou apaixonada pelo gato - incrivelmente apaixonada. Ela disse consigo mesma:
- "As palavras que lhe dirigi, certamente o impressionariam se eu tivesse o porte dele. Como é triste ser pequenina e tímida! Mas, afinal de contas, por que razão não poderia um gato amar a uma ratinha, por que não seria ele sensível à minha fraqueza e à minha doçura, justamente por ser forte e ousado? Ah! como eu seria feliz se dormisse no seu pêlo, que tem o cheiro da areia quente! Sem dúvida, algumas vezes ele brincará rudemente comigo... Mas o vento também maltrata as flores!
À sua brutalidade eu oporei a minha submissão; e às suas cóleras, a minha serenidade."

Na manhã do dia seguinte, após haver alisado cuidadosamente o pêlo, ela se aproximou do gato, que dormia enroscado, com uma pata sobre a cabeça.
- Aqui estou eu - disse a ratinha. - Pensei que talvez me amasses...

- Amo-te muito - murmurou ele, espreguiçando-se. Queria confessá-lo ao teu ouvido, repeti-lo entre carícias. As confidências de amor não se fazem à distância. Queria, também, recitar-te alguns versos. Passei dias em casa de um poeta que os diziam maravilhosos à filha do vizinho. Decorei-os, mas só podem ser exalados baixinho, como suspiros. Aproxima-te. Fecha os olhos. Escuta.

Carícias, versos... Já desfalecida de emoção, a ratinha aconchegou-se ao gato.

Com uma pata quebrada, o flanco aberto, ela conseguiu escapar-se e ganhar o esconderijo.

Declarou às comadres que tinham vindo novamente recebê-la.
- Não é nada. O gato não me obedeceu quando o mandei ir-se embora daqui. Tentei castigá-lo. Brigamos, e eu fiquei um tanto arranhada.

Alguns instantes depois, morria, sussurrando:
- Adormeço... Estou um pouco fatigada, vocês compreendem...

Saadi (1184-1291 - Pérsia)
Traduçâo de Paulo Rónai e Aurélío Buarque de Holanda

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