O Boneco de Sal



Era uma vez um boneco de sal que vivia sozinho. Ele queria saber quem ele realmente era e qual o sentido da vida. E pensou:
- Não vou encontrar as respostas ficando aqui parado. Preciso saber, necessito ter conhecimento. Deve existir alguém que possa saciar meu desejo e que possa me responder quem sou eu e por que de minha existência.

E começou a procurar com determinação.

Caminhando, dia após dia, o boneco atravessou planícies e planaltos, subiu e desceu montanhas, pode sentir a solidão e o calor do deserto. Atravessou florestas e vales gelados. Enfrentou perigos, mas também se encantou com as paisagens do caminho, com os pés no chão e o olhar sempre adiante.

Um dia, quando menos esperava, o boneco avistou o Mar.

Curioso, excitado, ficou a certa distância, medindo aquela amplidão quase sem limites e olhando assustado, para o estridor das ondas a desfazerem-se em espumas branquinhas na areia. Ele nuca havia visto coisa mais linda. Ele jamais tinha visto o Mar, por isso não o conhecia nem podia compreendê-lo.

Diante do desconhecido, o boneco de sal Perguntou:
- Quem é você?

E o mar respondeu:
- Eu sou o mar.

Ainda intrigado continuou:
- Mas que é o mar?

E o mar respondeu:
Sou eu.

- Não entendo. Mas gostaria muito de te compreender; como faço?
Disse o boneco de sal.

E o mar simplesmente respondeu:
- Toca-me.

Então o boneco de sal, timidamente, tocou o mar com a ponta dos dedos do pé. Percebeu que aquilo começou a ser compreensível. Mas logo se deu conta de que haviam desaparecido as pontas dos pés.
- Mar, veja o que você fez comigo!

E o mar respondeu:
- Você me deu um pouco de ti e eu te dei compreensão. Se quer as respostas para todas as suas perguntas, terá que te da por inteiro para me compreender todo.

E o boneco de sal começou a entrar lentamente mar adentro, devagar e solene, como quem está realizando o gesto mais importante, o ato mais decisivo de toda a sua vida.. E na medida em que ia entrando, ia também se diluindo e compreendendo cada vez mais o mar.

E o boneco fraternizava-se com ele e continuava perguntando:
- Que é você mar?

À medida que caminhava, se entregava ao Mar e sentia seu corpo se transformar.

Restava ainda sua cabeça, e o boneco continuava a perguntar:
Quem é você Mar?
Até que uma onda o cobriu totalmente.
Despojado de si e cheio do Mar, ele próprio pôde responder entusiasmado, no último momento, antes de dissolver no mar:
- O Mar? O Mar sou eu! Faço parte de sua natureza. Não vivo mais solitário e triste. Nós dois agora somos um!

O boneco de sal agora entendia o Mar
Uma história budista

Na idade adulta despedimo-nos de trabalhos, de profissões, do vigor do corpo e da lucidez da mente que vão se desgastando até despedirmo-nos da própria vida. Nestas despedidas deixamos um pouco de nós mesmos para trás.

Nos últimos tempos temos dedicado nossas reflexões quase que exclusivamente às questões ambientais e aos desafios que as mudanças climáticas implicam para o futuro de nossa civilização, para a produção e o consumo. Nem por isso devemos esquecer os problemas cotidianos, a construção continuada de nossa identidade e a moldagem de nosso sentido de ser. É uma tarefa nunca terminada. Entre muitas, duas provocações estão sempre presentes e temos que dar conta delas: a aceitação dos próprios limites e a capacidade de se desapegar.

Todos nós vivemos dentro de um arranjo existencial que, por sua própria natureza, é limitado a possibilidades e nos impõe barreiras de toda ordem, de lugar, de profissão, de inteligência, de saúde, de economia, de tempo. Há sempre um descompasso entre o desejo e sua realização. E às vezes nos sentimos impotentes diante a fatos que não podemos mudar como a presença de um esquizofrênico com seus altos e baixos ou um doente terminal. Temos que nos resignar face a esta limitação intransferível. Nem por isso precisamos viver tristes ou impedidos de crescer. Ao invés de crescer para fora, podemos crescer para dentro na medida em que criamos um centro onde as coisas se unificam e descobrimos como podemos aprender. Bem dizia a sabedoria oriental:"se alguém sente profundamente o outro, este o perceberá mesmo que esteja a milhares de quilômetros de distância". Se você modificar seu interior, uma fonte de luz surgirá a ponto de irradiar para os outros.

A outra tarefa da auto-realização é a capacidade de se desapegar. O zen budismo coloca como teste de maturidade pessoal e liberdade interior a capacidade de desapegar-se e de despedir-se. Se observarmos bem, o desapego pertence à lógica da vida: despedimo-nos do ventre materno, em seguida, da meninice, da juventude, da escola, da casa paterna, de parentes e da pessoa amada. Na idade adulta despedimo-nos de trabalhos, de profissões, do vigor do corpo e da lucidez da mente que vai se desgastando até nos despedirmos da própria vida. Nestas despedidas deixamos um pouco de nós mesmos para trás.

Qual é o sentido deste lento despedir-se do mundo? Mera fatalidade irreformável da lei universal da entropia? Essa dimensão é irrecusável. Mas será que ela não guarda um sentido existencial, a ser buscado pelo espírito? Se, fenomenologicamente, somos um projeto infinito e um vazio abissal que clama por plenitude, será que esse desapegar-se não significa criar as condições para que um Maior nos venha preencher? Não seria o Supremo Ser, feito de amor e bondade, que nos vai tirando tudo para que possamos ganhar tudo, no além vida, quando nossa busca finalmente descansará?

Ao perder, ganhamos e ao esvaziarmo-nos ficamos plenos. Dizem que esta teria sido a trajetória de Jesus, de Buda, de São Francisco de Assis, de Gandhi, de Madre Teresa de Calcutá e de outros mais.

Talvez esta história dos mestres espirituais antigos nos esclareça o sentido da perda que produz um ganho.
Leonardo Boff

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