Como é Bom Envelhecer



Parafraseando o poeta, os jovens que me perdoem, mas experiência é fundamental... Foi assim, num desses belos dias, que me dei conta que envelheci. Sem que eu percebesse, o tempo foi passando, implacável e inexoravelmente, como ditam as leis universais, como aliás é justo que seja.

Quem sou eu para contestar qualquer das criações divinas? Apenas acordei na frente do meu espelho existencial e, no show do intervalo entre fazer a barba e escovar os dentes, mostraram os melhores lances da minha vida: eu nascia, crescia na ingenuidade de um mundo onde havia carrinhos de rolimã, jogo de bola na rua, paqueras de escola (levava anos para dar um único e inesquecível beijo na sua musa, antes de namorar firme após enfrentar consentimento dos pais dela), boate Tom Marrom, Gloria Gaynor e dance music, com pantalonas e cabelos brilhantina, médico (quando isso ainda era sacerdócio), casamentos, filho, lutas, ganhos e perdas, alegrias e tristezas...

Levanto-me e vem à mente fechar meus olhos e serenamente assistir ao filme da minha vida. Deparo-me com um festival de dramas, romances, tragédias e comédias se sucedendo num mosaico que me faz rir, chorar, refletir. Como espectador de mim mesmo, critico ora severo, ora parcial e generoso, os erros e acertos, as tremendas imaturidades, os momentos em que construí, de forma altruística, obras que se eternizaram e os corações e almas dos que ajudei, curei, transferi afeto, passei a sabedoria que tinha.

Não ser nem melhor nem pior que qualquer semelhante, que igualmente tem seus enredos e histórias fantásticas, apenas estão esquecidos, anestesiados, ou distorcem, vitimados pela negatividade e pessimismo que virulentamente nos tira, diariamente, o prazer de viver cada momento e dele extrair o néctar do mar, fé e serenidade que alimentam alma, coração e mente.

É , estou realmente envelhecendo, pois para estar escrevendo isto e ainda achando que tudo valeu a pena até aqui, devo estar velho como o sábio do meu avô Zé Cocão.Cabelos que cismam em embranquecer, como se lembrassem que branca é a cor da paz. Só com a idade serena, a mente amansa o coração de paixões doentias e liberta a alma das torturas e ilusões da matéria...

Meu rosto sulcado pelas rugas de expressão, rugas essas bem-vindas por me relembrarem cada emoção vivida. Minha bochecha, que inevitavelmente vai caindo após resistir brava, mas inutilmente, à lei da gravidade. Que me desculpem os estetas, os vaidosos, pois os compreendo, mas não pertenço a sua tribo: acho ruga, vincos, “pescoços de peru”, “bigode de chinês”, lóbulos de orelhas alongados, enfim, as principais motivações para se buscar a medicina estética, exatamente as grandes marcas da beleza que a trajetória da vida nos lega. São a nossa história, escrita nas faces e no corpo que decai.

Envelhecer, meus amigos, é o ato sublime de fazer uma troca com o universo, que nos envolve e do qual somos a parte e o todo: eu lhe devolvo, agradecido, toda a matéria que no fundo nunca foi minha, mas sempre me serviu de morada, e à qual dei o nome sagrado de corpo, que decai naturalmente, feito no fundo de poeira cósmica, facilmente encontrada em qualquer tabela periódica (somos 64% H2O, tantos por cento carbono, sódio, nitrogênio, gás carbônico, potássio, cloro e assim por diante). Mas o saldo vai diminuindo e o fim, se aproximando.

Divinamente, essa decadência material permite um acúmulo de energia dia após dia. Energia do pensar, do sentir, do agir. Energia da Fé! É justamente essa transmutação matéria-energia, tão brilhantemente anunciada por Einstein e corroborada por ciências incríveis como física quântica, supercordas e multiverso, que me permitem ir morrendo tranqüilo na matéria e renascendo, mais tranqüilo ainda, na energia do dia a dia.

Moral da história: só a idade de quem bem vive permite o consolo, a serenidade, o desapego e a fé convicta para esse enunciado: somos, simultaneamente, a parte e o todo, o começo e o fim. Lamento se os vivos desejam estar mortos ou se outros temam tanto morrer. Felizes os que se sabem eternos aqui mesmo, presos em quatro dimensões, ou libertos na consciência não-material. Como diriam os barrocos, " Carpe diem"!

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