Vou Lhes Contar Uma História



Há muito...muito tempo atrás, eu era um homem de muitas posses e muito poder. Achava que tudo era permitido.

Eu vivia num grande castelo com muitos servos, e tinha em minhas terras, camponeses que plantavam e me serviam, a troco de migalhas. Um pouco de comida que nem dava para suprir todas as suas necessidades. Suas esposas e filhos eram obrigados a trabalhar mais de 12 horas no campo, debaixo de chuva, sol, ou neve, para que eu pudesse viver uma vida cheia de regalias.

Parte do que eu lucrava era passado a Igreja, na promessa de que eu teria um lugar garantido no céu.

Ainda existia uma lei que obrigava os camponeses a me servirem. Eles não podiam mudar de terras, passar a servir a outros senhores que lhe oferecessem um pouco mais do que eu estipulava que seria deles. A Coroa me garantia esses privilégios, pois senão, ninguém permaneceria trabalhando para que pudéssemos viver bebendo e comendo sem nada fazer. As festas no castelo duravam dias, com muita fartura para os nobres, e aos camponeses, só restava o trabalho árduo e o prazer de servir a seus donos.

Muitos tentavam fugir, mas eram capturados por meus soltados e enforcados em praça pública, depois de sofrer muitas humilhações, para servir de exemplo àqueles que quisessem fazer o mesmo.

Outra lei me permitia ter a primeira noite com a noiva de um camponês, aquela que eu julgava mais agradável, e quantas mulheres já tiveram que suportar meus caprichos no dia que seria o dia mais feliz de suas vidas. E depois eram tratadas como escórias e jogadas em seus míseros casebres.

Ah! Se eu soubesse naquela época o que sei hoje...

Quantas pessoas matei, humilhei, feri de diversas formas, somente para nutrir meu ego...
E quantas guerras iniciei somente para aumentar mais minhas terras e meu poder, mandando crianças para um campo de batalha...

Minha esposa não passava de uma coitada, tendo que aceitar tudo que eu fazia, porque mulher naquela época era tratada pior que um animal. Era somente aquela destinada a gerar meus filhos para manter o nome da família. Tudo com a bênção de Deus na figura de um Bispo todo poderoso.

E aquelas mulheres que tentavam ajudar os menos poderosos com suas ervas medicinais, eram consideradas bruxas e executadas em praça pública. E o pior de tudo. As pessoas acabavam acreditando em tudo que dizíamos e iam felizes presenciar suas execuções.

De tantos excessos, bebidas, prostituição, meu corpo se encheu de feridas, e uma febre sem fim tomou conta de todo o meu corpo. As sangrias não foram o bastante para retirar todo o mal que estava em mim, e, após a bênção do todo poderoso Bispo, fechei os olhos na certeza que estava indo diretamente para o céu. Minha passagem estava garantida com metade de toda a fortuna que eu possuía, deixada para a Santa e Amada Igreja.

Ao abrir os olhos novamente, estava eu em meio a um lamaçal mal cheiroso, ouvindo gritos de terror, vendo pessoas maltrapilhas andando de um lado para o outro, comendo seus próprios excrementos de tanta fome que sentiam. Tamanha foi minha indignação que amaldiçoei a tudo e a todos, afinal de contas, eu espera acordar em lugar iluminado, cheio de mulheres a me servir, e com um grande banquete a minha espera.

Caminhei, caminhei, mas não conseguia sair daquele local horroroso, e acabei me juntando a um grupo de maltrapilhos e com eles bebendo barro para matar a sede e comendo meus excrementos. Tentei achar um servo para mim, mas acabei virando servo de outros. Não sei por quanto tempo vaguei, sendo humilhado e maltratado, até que um dia comecei a chorar e pedir a Deus perdão por todas as coisas más que já havia praticado. Por horas, dias, semanas, meses... Meus olhos já não conseguiam discernir o que via de tanto chorar.

Foi aí que pude ver em meio a tanta sujeira e desolação, pessoas bem vestidas, limpas, barbas feitas, que me estenderam a mão. No primeiro momento, minha reação foi cobrir o rosto de tanta vergonha que sentia. Eles sorriram e disseram para eu não ter medo. Foi a primeira vez em tanto tempo que não senti dores em meu corpo e uma sensação de alívio em minha alma.

Olhando direito, pude notar a figura de uma mulher muito bonita, e tive a sensação de já tê-la visto anteriormente. Sim. Era ela. Mas como poderia? Era uma das mulheres que privei da primeira noite de núpcias com seu noivo, e na manhã seguinte, mandei executar, por ter comido um pedaço de pão que se encontrava em meus aposentos. A vergonha tomou conta de todo o meu ser. Como aquela criatura poderia estar ali para me ajudar? E antes de dizer uma só palavra, ela me disse para não me envergonhar do que havia acontecido. Minha ignorância é que me cegava das coisas essenciais da vida.

Confesso que estava tão cansado que não consegui sair dali correndo, mas foi a primeira coisa que me passou na mente. Então, deixei-me levar.

Fui parar em uma espécie de hospital, um lugar que eu jamais havia imaginado, e, depois de curada minhas chagas, varias coisas me foram ensinadas.

Hoje estou aqui, acolhido em seu ventre, sentindo todo o carinho e amor que sente por mim. Sei que está preocupada por estar sangrando e com medo de eu ir embora.

Então te peço, minha mãe. Não fique triste, não chore, acredite em Deus. Mesmo que Deus me faça partir, o amor que você já me deu é maior do que o amor que tive em toda minha outra existência.

Aprendi a amar e perdoar com você. Já não sou mais aquele ignorante e egoísta que era. Te amo muito e quero que você seja muito feliz. Espero algum dia poder olhar em seus olhos e lhe dizer o quanto te amo e admiro, e o quanto você me ensinou. Seu amor me transformou. Obrigado minha mãe.
Cristina Corradi

A minha amiga Silvia F.
Não percas a tua fé entre as sombras do mundo. Ainda que os teus pés estejam sangrando, siga em frente, erguendo-a por luz celeste, acima de ti mesmo. Crê e trabalha. Esforça-te no bem e espera com paciência. Tudo passa e tudo se renova na terra, mas o que vem do céu permanecerá. De todos os infelizes os mais desditosos são os que perderam a confiança em Deus e em si mesmo, porque o maior infortúnio é sofrer a privação da fé e prosseguir vivendo. Eleva, pois, o teu olhar e caminha. Luta e serve. Aprende e adianta-te. Brilha a alvorada além da noite. Hoje, é possível que a tempestade te amarfanhe o coração e te atormente o ideal, aguilhoando-te com a aflição ou ameaçando-te com a morte. Não te esqueças, porém, de que amanhã será outro dia.
Chico Xavier

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