Canção da Inocência Perdida


O que a minha mãe dizia
Não pode ser bem verdade:
Que uma vez emporcalhada
Nunca passa a sujidade.

Se isto não vale pra a roupa
Também não vale pra mim.
Que o rio lhe passe por cima
Breve fica branca, assim.

Como qualquer pataqueira
Aos onze anos já pecava.
Mas só ao fazer quatorze
O meu corpo castigava.

A roupa já estava parda,
No rio a fui mergulhar.
No cesto está virginal
Como sem ninguém lhe tocar.

Sem ter conhecido algum
Já eu tinha escorregado.
Fedia aos Céus,
Como uma Babilônia de pecado.

A roupa branca no rio
Enxaguada à roda, à roda,
Sente que as ondas a beijam:
Volta-me a brancura toda.

Quando o primeiro me amou
Abracei-o eu também.
Senti no ventre e no peito
Ir-se a maldade pra além.

Assim acontece à roupa
E a mim acontecerá.
A água corre depressa,
Sujidade diz: Vem cá!

Mas quando os outros vieram
Um ano mal começou.
Chamaram-me nomes feios,
Coisa feia agora sou.

Com poupanças e jejuns
Nenhuma mulher se acalma.
Roupa guardada na arca,
Na arca se não faz alva.

E veio depois um outro
No ano que se seguiu.
Vi que me fazia outra
Com o tempo que fugiu.

Mete-a na água e sacode-a!
Há sol, cloreto e vento!
Usa-a, dá-a de presente:
Fica fresquinha a contento.

Bem sei: Muito pode vir
Até que nada, por fim, fica.
Só quando ninguém a usa
A roupa se sacrifica.

E uma vez que apodreça
Nenhum rio a embranquece.
Leva-a consigo em farrapos.
Um dia assim te acontece.
Bertold Brecht

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