Canção da Plenitude



Não tenho mais os olhos de menina nem corpo adolescente,
E a pele translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas.

Sou uma estrutura
Abrandada pelos anos e o peso dos fardos, bons ou ruins.
Carreguei muitos com gosto
E alguns com rebeldia.

O que te posso dar-te é mais que tudo o que perdi.
Dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir quando em outros tempos choraria,
Busco agradar-te quando antigamente quereria apenas ser amada.

Posso dar-te muito mais do que beleza e juventude agora.
Esses dourados anos me ensinaram a amar melhor,
Com mais paciência e não menos ardor.
A entender-te se precisas,
A aguardar-te quando vais,
A dar-te regaço de amante e colo de amiga,
E sobretudo força,
Que vem do aprendizado.

Isso posso dar-te.
Um mar antigo e confiável,
Cujas marés, mesmo que fujam,
Retornam...
Cujas correntes ocultas não levam destroços,
Mas o sonho interminável das sereias.
Lya Luft

Um comentário:

  1. Primeiramente parabéns pelas quase 60.000 visitas em um ano de blog.

    Lindo poema da Lya Luft.

    Arifonseca

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