Páscoa - História e Símbolos



A Páscoa começa na quarta feria de cinzas e termina no domingo de páscoa. Durante os 40 dias da quaresma, os cristãos procuram purificar o espírito, livrando-se dos pecados. Sempre é celebrada no domingo depois da primeira lua cheia da primavera.

Muito antes de ser considerada uma das principais festas do Cristianismo, a Páscoa representa a passagem de um tempo de trevas para outro de luzes.

Uma festa de passagem comemorava o fim do inverno e a chegada da primavera entre povos europeus há milhares de anos atrás, principalmente na região do Mediterrâneo. Geralmente, esta festa era realizada na primeira lua cheia da época das flores, durante o mês de março. Entre os povos da antiguidade, o fim do inverno e o começo da primavera era de extrema importância, pois estava ligado a maiores chances de sobrevivência em função do rigoroso inverno que castigava a Europa, dificultando a produção de alimentos.

Os antigos povos pagãos europeus homenageavam Ostara, ou Esther, a Deusa da primavera, que segura um ovo em sua mão e observa um coelho, símbolo da fertilidade, pulando alegremente em redor de seus pés nus. Do nome Esther surgiu a palavra Easter, que significa páscoa em inglês. A deusa e o ovo que ela carrega são símbolos da chegada de uma nova vida. Ostara equivale, na mitologia grega, a Persephone. Na mitologia romana, é Ceres.


Estes antigos povos pagãos comemoravam a chegada da primavera decorando ovos. O costume de decorá-los para dar de presente na Páscoa surgiu na Inglaterra, no século X, durante o reinado de Eduardo I (900-924), que tinha o hábito de banhar ovos em ouro para presentear amigos e aliados. Agora a tradição de decorá-los com pinturas faz parte de diversas culturas, para trazer sorte, fertilidade, amor e dinheiro.


A origem desta comemoração vem de muitos séculos atrás.  É uma das datas comemorativas mais importantes entre as culturas ocidentais. A festa cristã da Páscoa tem origem na festa judaica, mas tem um significado diferente, e em ambos os casos se celebra uma “libertação do povo de Deus”.


A páscoa, ou Pessach (passagem  em hebraico), possui três significados.
1.   Para os cristãos representa a morte e ressurreição de Jesus, ocorrida três dias após sua crucificação, de acordo com o Novo Testamento. O domingo de Páscoa é muito importante para os cristãos. As igrejas costumam tratar a data de forma festiva e feliz, pois ela simboliza a esperança e a vida nova em Cristo.
2.   Para os judeus, representa a libertação do povo de Israel no Egito. O nome Pessach é associado a esta festa que celebra e recorda o fim da escravidão de quatro séculos no Egito, a libertação do povo de Israel, conforme narrado no livro de Êxodo. Pessach é o nome do sacrifício executado em 14 de Nissan segundo o calendário judaico e que precede a Festa dos Pães Ázimos (Chag haMatzot). A Páscoa Judaica também está relacionada com a passagem dos hebreus pelo Mar Vermelho, onde liderados por Moises, fugiram do Egito. Nesta data, os judeus fazem e comem o matzá (pão sem fermento) para lembrar a rápida fuga do Egito, quando não sobrou tempo para fermentar o pão.
3.   O terceiro significado da Páscoa é pouco conhecido. Refere-se a uma festa de grupos pastoris que viviam na terra de Canaã no segundo milênio antes de Cristo. No final das chuvas, entre março e abril, eles abandonavam suas terras e viajavam para a região das planícies, mais férteis. A festa da Páscoa pedia proteção durante a travessia.

A páscoa é um rito de povos antigos, assimilado pela Igreja Cristã de modo a impor sua influência. Substituindo venerações à natureza por outra figura da mitologia, tomando os significados do judaísmo, os símbolos celtas e fenícios, remodelando-os mediante o Evangelho e dando uma decoração final.

Símbolos da Páscoa

O Ovo de Páscoa


O ovo contém o germe, o fruto da vida, que representa o nascimento, o renascimento, a renovação. O ovo representa o surgimento da vida e a origem do mundo. Daí sua relação com a ressurreição de Cristo e a Páscoa.

Os celtas, gregos, egípcios, fenícios, chineses e muitas outras civilizações acreditavam que o mundo havia nascido de um ovo. Na maioria das tradições, este “ovo cósmico” aparece depois de um período de caos.

Na Índia acredita-se que uma gansa de nome Hamsa, um espírito considerado o “Sopro divino”, chocou o ovo cósmico na superfície de águas primordiais e, daí, dividido em duas partes, o ovo deu origem ao Céu e a Terra. Simbolicamente é possível ver o Céu como a parte leve do ovo, a clara, e a Terra como outra mais densa, a gema.

O mito do ovo cósmico aparece também nas tradições chinesas. Antes do surgimento do mundo, quando tudo ainda era caos, um ovo semelhante ao de galinha se abriu e, de seus elementos pesados, surgiu a Terra (Yin) e, de sua parte leve e pura, nasceu o céu (Yang).

Para os celtas, o ovo cósmico é assimilado a um ovo de serpente. Para eles, o ovo contém a representação do Universo: a gema representa o globo terrestre, a clara o firmamento e a atmosfera, a casca equivale à esfera celeste e aos astros.

Na tradição cristã, o ovo aparece como uma renovação periódica da natureza. Em muitos países europeus, existe a crença de que comer ovos no Domingo de Páscoa traz saúde e sorte durante todo o resto do ano. Também, que um ovo posto na sexta-feira santa afasta as doenças.

A tradição de presentear a família e os amigos com ovos coloridos é um costume antigo dos chineses. Esses povos decoravam ovos de galinha e davam de presente a pessoas queridas, em comemoração à Festa da Primavera, que no hemisfério Norte, coincide com os meses de março e abril, próprios da Páscoa. Ao longo dos anos, o costume foi sendo passado às demais culturas do mundo todo e os ovos de galinha passaram a ser substituídos por ovos de madeira, de prata e de ouro decorados com pedras preciosas e, por fim, pelos de chocolates em decorrência principalmente, da chegada das indústrias de chocolate.

O Coelho

O coelho, apesar de ser um mamífero e, por conseguinte, não botar ovos, assumiu o papel de produtor e entregador dos ovos de Páscoa.
A tradição do Coelho da Páscoa foi trazida à América por imigrantes alemães em meados de 1700. O coelhinho visitava as crianças, escondendo os ovos coloridos que elas teriam de encontrar na manhã de Páscoa.
Outra lenda conta que uma mulher pobre coloriu alguns ovos e os escondeu em um ninho para dá-los a seus filhos, como presente de Páscoa. Quando as crianças descobriram o ninho, um grande coelho passou correndo. Espalhou-se então a história de que o coelho é que trouxe os ovos.
No antigo Egito, o coelho era considerado o símbolo da Lua, e simbolizava o nascimento e a nova vida. É possível que ele se tenha tornado símbolo, pelo fato de a Lua determinar a data da Páscoa.
Mas, o que se pode afirmar é que a imagem do coelho na Páscoa está na fertilidade. O coelho se reproduz rapidamente e em grandes quantidades. Entre os povos da antiguidade, a fertilidade era sinônimo de preservação da espécie e melhores condições de vida, numa época onde o índice de mortalidade era muito alto. No Egito Antigo, por exemplo, o coelho representava o nascimento e a esperança de novas vidas.
Assim, os coelhos são vistos como símbolos de renovação e início de uma nova vida. Em união com o mito dos Ovos de Páscoa, o Coelho da Páscoa representa a renovação de uma vida que trará boas novas, e novos e melhores dias.

O Cordeiro


Moisés sacrificou um cordeiro em homenagem e agradecimento a Deus pela libertação dos hebreus da escravidão no Egito.

O cordeiro é um dos principais símbolos de Jesus Cristo, já que é considerado como tendo sido um sacrifício em favor do seu rebanho. Segundo o Novo Testamento, Jesus Cristo é “sacrificado” durante a Páscoa judaica.

Paulo de Tarso, na primeira epístola a Coríntio no capítulo 5, versículo 7 diz:

Purificai-vos do velho fermento, para que sejais massa nova, porque sois pães ázimos, porquanto Cristo, nossa Páscoa, foi imolado.

Jesus, desse modo, é tido pelos cristãos como o Cordeiro de Deus (em latim: Agnus Dei) que supostamente fora imolado para salvação e libertação de todos do pecado. Para isso, Deus teria designado sua morte exatamente no dia da Páscoa judaica para criar o paralelo entre a aliança antiga, no sangue do cordeiro imolado, e a nova aliança, no sangue do próprio Jesus imolado. Assim, a partir daquela data, o Pecado Original tecnicamente deixaria de existir.

A Cruz


Simboliza a vitória de Jesus sobre a morte, a salvação e a ressurreição. Ela mistifica todo o significado da Páscoa.

No Concílio de Nicea em 325 d.C, Constantino decretou a cruz como símbolo oficial do cristianismo. Então, ela não somente é um símbolo da Páscoa, mas o símbolo primordial da fé católica.

O Pão e o Vinho


Simbolizam a vida eterna, o corpo e o sangue de Jesus, oferecido aos seus discípulos. Evangelho segundo Mateus, capítulo 26 versículos 26 a 28:  

Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai e comei, isto é meu corpo. Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos, porque isto é meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados.


Sinos
 
São eles que anunciam, nas igrejas católicas, a ressurreição de Cristo no domingo de Páscoa.
 
Círio Pascal

Círio Pascal é uma vela acessa com as letras gregas "alfa" e "ômega" (início e fim).
A luz da vela representa a ressurreição de Cristo.

Colomba pascal

Criado na Itália, é um pão doce em formato de pomba. A pomba simboliza a paz de Cristo e também a presença do Espírito Santo.


Feliz páscoa para todos vocês!
Desejo que o coelhinho traga muito mais que simples ovos de chocolate.



O Pequeno Príncipe - XVI



XVI

O sétimo planeta foi pois a Terra.
 A Terra não é um planeta qualquer! Contam-se lá cento e onze reis (não esquecendo é claro, os reis negros), sete mil geógrafos, novecentos mil negociantes, sete milhões e meio de beberrões, trezentos e onze milhões de vaidosos isto é, cerca de dois bilhões de pessoas grandes.
Para dar-lhes uma idéia das dimensões da Terra, eu lhes direi que, antes da invenção da eletricidade, era necessário manter, para o conjunto dos seis continentes, um verdadeiro exército de quatrocentos e sessenta e dois mil quinhentos e onze acendedores de lampiões.
Isto fazia, visto um pouco de longe, um magnífico efeito. Os movimentos desse exército eram ritmados como os de um balé de ópera.
Primeiro vinha a vez dos acendedores de lampiões da Nova Zelândia e da Austrália. Esses, em seguida, acesos os lampiões, iam dormir. Entrava por sua vez a dança dos acendedores de lampiões da China e da Sibéria. E também desapareciam nos bastidores.
Vinha a vez dos acendedores de lampiões da Rússia e das índias. Depois os da África e da Europa. Depois os da América do Sul, os da América do Norte. E jamais se enganavam na ordem de entrada. Quando apareciam em cena era um espetáculo grandioso.
Apenas dois, o acendedor do único lampião do Pólo Norte e o seu colega do único lampião do Pólo Sul, levavam vida ociosa e descuidada: trabalhavam duas vezes por ano.

O Pequeno Príncipe, Antoine De Saint-Exupery

Os Animais e a Peste



Uma peste caiu sobre os animais. Muitos morreram e os que se mantinham vivos estavam tão doentes, que nem conseguiam se alimentar.

Foi então que o Leão decidiu convocar uma assembléia. Quando todos os animais se reuniram ele se levantou e disse:

- Queridos amigos, eu acredito que os deuses enviaram esta peste sobre nós como um castigo pelos nossos pecados. Portanto, o mais culpado de nós deve ser oferecido em sacrifício. Talvez possamos, assim, obter o perdão e cura para todos.

- Serei o primeiro a confessar meus pecados. Admito que tenho sido muito ganancioso e para me alimentar, devorei muitas ovelhas. Elas não haviam me feito nenhum mal. Tenho comido cabras e touros e veados. Para dizer a verdade, eu até comi um pastor. Sou o mais culpado, estou pronto para ser sacrificado. Mas eu acho que é melhor que cada um confessar seus pecados assim como eu fiz. Então poderemos decidir com toda a justiça, quem é o mais culpado.

- Sua Majestade, disse a Raposa, você é muito bom. Como pode ser um crime comer ovelhas? Não, não, sua majestade. Você lhes fez uma grande honra em consumi-los. E quanto aos pastores, todos nós sabemos que eles pertencem a uma raça insignificante que pretende ser nossos mestres.

- Então morro eu, disse o Tigre, pois também já matei tantos animais quanto há estrelas no céu.

- Não! - Protestou a Raposa. - Um Tigre tão valente como o senhor não pode morrer por nós.

Foi então a vez do Urso – Já matei muitos animais, mais do que se possa imaginar. Já vivi bastante, sou o mais velho de todos e não farei falta a ninguém.

E mais uma vez a Raposa protestou: - Jamais permitiremos isso! Um Urso com sua idade e sua força não pode morrer por nós.

Todos os animais aplaudiram a Raposa. Então, apesar de o Tigre, o Urso, o Lobo, e todos os animais selvagens recitarem os atos mais perversos, todos foram perdoados e ainda fizeram parecer que seus atos foram heróicos e inocentes.

Foi então que um Burro que estava no canto da sala pediu a palavra: "Eu me lembro", disse ele com culpa, que um dia, quando eu estava passando por um campo que pertencia a alguns sacerdotes, minha fome era tanta, que eu não pude resistir e acabei comendo a couve do quintal do padre. Eu não tinha direito de fazer isso, eu admito.

Iniciou-se então um grande tumulto entre os animais. Aqui está o culpado da desgraça de todos! Que crime horrível! Comer a couve que pertencia a outra pessoa! E ainda a um padre!

Isto foi o suficiente para condená-lo. Imediatamente todos os animais caíram sobre o Burro, o Lobo na liderança, e logo acabaram com ele, sacrificando-o aos deuses ali mesmo, e sem a formalidade de um altar.

Dessa forma o burro morreu por todos para acalmar os ânimos dos deuses e trazer de volta a tranqüilidade para os habitantes da floresta.

Moral da história: Aos poderosos tudo se desculpa, aos miseráveis nada se perdoa.

 

O Pequeno Príncipe - XV




XV

O sexto planeta era dez vezes maior - Era habitado por um velho que escrevia livros enormes.

- Bravo! Eis um explorador! Exclamou ele, logo que viu o principezinho.
O principezinho assentou-se na mesa, ofegante. Já viajara tanto!
- De onde vens? Perguntou-lhe o velho.
- Que livro é esse? Perguntou-lhe o principezinho.
Que faz o senhor aqui?
- Sou geógrafo, respondeu o velho.
- Que é um geógrafo? Perguntou o principezinho.
- É um sábio que sabe onde se encontram os mares, os rios, as cidades, as montanhas, os desertos.
É bem interessante, disse o principezinho. Eis, afinal, uma verdadeira profissão! E lançou um olhar, em torno de si, no planeta do geógrafo. Nunca havia visto planeta tão majestoso.
- O seu planeta é muito bonito. Haverá oceanos nele?
- Como hei de saber? Disse o geógrafo.
- Ah! (O principezinho estava decepcionado.) e montanhas?
- Como hei de saber? Disse o geógrafo.
- E cidades, e rios, e desertos?
- Como hei de saber? Disse o geógrafo pela terceira vez.
- Mas o senhor é geógrafo.
- É claro, disse o geógrafo; mas não sou explorador.
Há uma falta absoluta de exploradores. Não é o geógrafo que vai contar as cidades, os rios, as montanhas, os mares, os oceanos, os desertos. O geógrafo é muito importante para estar passeando. Não deixa um instante a escrivaninha. Mas recebe os exploradores, interroga-os, anota as suas lembranças. E se as lembranças de alguns lhe parecem interessantes, o geógrafo estabelece um inquérito sobre a moralidade do explorador.
- Por quê?
- Porque um explorador que mentisse produziria catástrofes nos livros de geografia. Como o explorador que bebesse demais.
- Por quê? Perguntou o principezinho.
- Porque os bêbados vêem dobrado. Então o geógrafo anotaria duas montanhas onde há uma só.
- Conheço alguém, disse o principezinho, que seria um mau explorador.
- É possível. Pois bem, quando a moralidade do explorador parece boa, faz-se uma investigação sobre a sua descoberta.
- Vai-se ver?
- Não. Seria muito complicado. Mas exige-se do explorador que ele forneça provas. Tratando-se, por exemplo, de uma grande montanha, ele trará grandes pedras.
O geógrafo, de súbito, se entusiasmou:
- Mas tu vens de longe. Tu és explorador! Tu me vais descrever o teu planeta!
E o geógrafo, tendo aberto o seu caderno, apontou o seu lápis. Anotam-se primeiro a lápis as narrações dos exploradores. Espera-se, para cobrir à tinta, que o explorador tenha fornecido provas.
- Então? Interrogou o geógrafo.
Oh! Onde eu moro, disse o principezinho, não é interessante: é muito pequeno. Eu tenho três vulcões. Dois vulcões em atividade e um vulcão extinto. A gente nunca sabe...
- A gente nunca sabe, repetiu o geógrafo.
- Tenho também uma flor.
- Mas nós não anotamos as flores, disse o geógrafo.
- Por que não? É o mais bonito!
- Porque as flores são efêmeras.
- Que quer dizer "efêmera"?
As geografias, disse o geógrafo, são os livros de mais valor. Nunca ficam fora de moda. É muito raro que um monte troque de lugar. É muito raro um oceano esvaziar-se. Nós escrevemos coisas eternas.
Mas os vulcões extintos podem se reanimar, interrompeu o principezinho. Que quer dizer "efêmera"?
- Que os vulcões estejam extintos ou não, isso dá no mesmo para nós, disse o geógrafo. O que nos interessa é a montanha. Ela não muda.
Mas que quer dizer "efêmera" repetiu o principezinho, que nunca, na sua vida, renunciara a uma pergunta que tivesse feito.
- Quer dizer "ameaçada de próxima desaparição".
- Minha flor esta ameaçada de próxima desaparição?
- Sem dúvida.
Minha flor é efêmera, disse o principezinho, e não tem mais que quatro espinhos para defender-se do mundo! E eu a deixei sozinha!
Foi seu primeiro movimento de remorso. Mas retomou coragem:
- Que me aconselha a visitar? Perguntou ele.
- O planeta Terra, respondeu-lhe o geógrafo. Goza de grande reputação...
E o principezinho se foi, pensando na flor.

O Pequeno Príncipe, Antoine De Saint-Exupery

O Rei dos Leões

 O Rei dos Leões

Ha muitos anos um estrangeiro levou um burro para Uganda e, certa manhã, ele fugiu para o campo.
Zurrou por tanto tempo e com tanto barulho que despertou um leão que estava tranqüilamente dormindo.
O leão levantou-se e ficou muito assombrado com aquele som e pensou:
- Este bicho estranho, com orelhas compridas e pontudas, deve ser muito mais perigoso do que eu.

Cautelosamente se aproximou e perguntou:
- Quem é o senhor?

- Sou o Rei dos Leões, respondeu o burro. Não ouviu o meu desafio?

- Ouvi, disse o leão. Mas não precisamos travar uma luta. Podemos chegar a um acordo e fazer uma dupla contra todos os outros animais.

- Pois sim, respondeu o burro; e logo foram embora juntos.

Depois de muito andar, chegaram junto a um rio. O leão atravessou-o num único salto, mas o burro teve de atravessá-lo a nado e com muita dificuldade.

- Você não sabe nadar? Perguntou o leão.

-Nadar? Claro que sei, disse o burro. Nado como um pato, mas é que pesquei um enorme peixe com a minha cauda e ele quase me puxou para debaixo da água. Mas já que está tão impaciente para ir embora, vou largá-lo.

Pouco tempo depois chegaram ao pé de um muro bem alto. O leão galgou-o facilmente e o burro conseguiu passar as patas dianteiras, mas estava com dificuldade de fazer mais que isso.

- O que é que estás fazendo? Perguntou o leão.

- Então não vê? Retorquiu o burro. Estou me pesando para saber se minha parte dianteira é tão pesada como a trazeira.

Depois de muito esforço, o burro conseguiu passar, e o leão lhe disse:
- O senhor não tem nenhuma força. Vou lutar contigo.

- Quando quiser, respondeu o burro, mas primeiro devemos fazer uma experiência com as nossas forças. Quando vejo que não posso saltar um muro eu o boto a baixo. Vamos ver se é capaz de fazer isso.

O leão começou a bater no murro com as patas, mas se feriu muito e teve de desistir. Em seguida o burro escoiceou o muro com tanta força que ele logo caiu.

- Sim, o senhor tem mesmo muita força! Disse o leão, lambendo as patas feridas. Quero que seja aclamado Rei dos Leões.

No dia seguinte reuniram-se todos os leões de Uganda, e o burro conduziu-os a um vale coberto por árvores cheias de espinhos.

- Oh! Por favor, não vá por aí! Gritaram os leões cheios de terror. Os espinhos se enterrariam em nossas patas.

- Mas que criaturas medrosas! Disse o burro. Olhem para mim.

E para grande espanto dos presentes àquela assembléia, começou a comer as plantas espinhosas. E assim foi aclamado, por unanimidade, Rei dos Leões.

Como o burro não comia carne, nunca se servia da caça que os seus súditos matavam. Dessa forma passou a ser considerado como o melhor rei de todos os tempos.

 Esopo (620-560 a.C.) é um personagem mais lendário do que histórico. A maior parte do que se conta sobre a sua vida é baseada em relatos de outros escritores antigos. Ele teria sido um escravo muito inteligente, cujo dono o teria libertado ao descobrir suas fábulas. Depois de livre viajou pelo mundo, passando pelo Egito, a Babilônia e o Oriente. Não existe prova concreta que tenha escrito alguma coisa. O que consta é que suas fábulas faziam parte da tradição oral dos gregos, passaram de boca em boca até serem reunidas num volume escrito por Demétrio de Falera mais de duzentos anos depois de sua suposta morte. Não se sabe ao certo o local de seu nascimento. Muitas cidades clamam para si esta honra, entre elas estão Atenas, Trácia, Frígia, Etiópia, Samos e Sardes. Consta que teria morrido em Delfos.

As fábulas reunidas que lhe são atribuídas formam um conjunto de pequenas histórias, de caráter moral e alegórico, tendo animais e plantas no papel principal que falam, cometem erros, são sábios ou tolos, maus ou bons, como são os homens em todos os tempos. Sua meta seria mostrar, com pequenas histórias, como são os seres humanos em suas atitudes tanto para o bem como para o mal.. Essas pequenas histórias eram muito apreciadas pela cultura popular.

O Pequeno Príncipe – XIV



XIV

O quinto planeta era muito curioso. Era o menor de todos. Mal dava para um lampião e o acendedor de lampiões...

O principezinho não podia atinar para que pudessem servir, no céu, num planeta sem casa e sem gente, um lampião e o acendedor de lampiões. No entanto, disse consigo mesmo:
- Talvez esse homem seja mesmo absurdo. No entanto, é menos absurdo que o rei, que o vaidoso, que o homem de negócios, que o beberrão. Seu trabalho ao menos tem um sentido. Quando acende o lampião, é como se fizesse nascer mais uma estrela, mais uma flor. Quando o apaga, porém, é estrela ou flor que adormecem. É uma ocupação bonita. E é útil, porque é bonita.
Quando abordou o planeta, saudou respeitosamente o acendedor:
- Bom dia. Por que acabas de apagar teu lampião?
Eu executo uma tarefa terrível. É o regulamento - respondeu o acendedor-. Bom dia.
Que é o regulamento?
É apagar meu lampião. Boa noite.
E tornou a acender.
- Mas por que acabas de o acender de novo?
- É o regulamento, respondeu o acendedor.
- Eu não compreendo, disse o principezinho.
- Não é para compreender, disse o acendedor. Regulamento é regulamento. Bom dia.
E apagou o lampião.
Em seguida enxugou a fronte num lenço de quadrinhos vermelhos.
- Eu executo uma tarefa terrível. Antigamente era razoável. Apagava de manhã e acendia à noite. Tinha o resto do dia para descansar e o resto da noite para dormir...
- E depois disso, mudou o regulamento?
- O regulamento não mudou, disse o acendedor. Aí é que está o drama! O planeta de ano em ano gira mais depressa, e o regulamento não muda!
- E então? Disse o principezinho.
- Agora, que ele dá uma volta por minuto, não tenho mais um segundo de repouso. Acendo e apago uma vez por minuto!
- Ah! Que engraçado! Os dias aqui duram um minuto!
Não é nada engraçado, disse o acendedor. Já faz um mês que estamos conversando.
Um mês?
Sim. Trinta minutos. Trinta dias. Boa noite.
E acendeu o lampião.
O principezinho considerou-o, e amou aquele acendedor tão fiel ao regulamento. Lembrou-se dos pores-do-sol que ele mesmo produzia, recuando um pouco a cadeira. Quis ajudar o amigo.
- Sabes? Eu sei de um modo de descansar quando quiseres...
- Eu sempre quero, disse o acendedor. Pois a gente pode ser, ao mesmo tempo, fiel e preguiçoso.
E o principezinho prosseguiu:
- Teu planeta é tão pequeno, que podes, com três passos, dar-lhe a volta. Basta andares lentamente, bem lentamente, de modo a ficares sempre ao sol. Quando quiseres descansar, caminharás... E o dia durará quanto queiras.
- Isso não adianta muito, disse o acendedor. O que eu gosto mais na vida é de dormir.
- Então não há remédio, disse o principezinho.
- Não há remédio, disse o acendedor. Bom dia.
E apagou seu lampião.
Esse aí, disse para si o principezinho, ao prosseguir a viagem para mais longe, esse aí seria desprezado por todos os outros, o rei, o vaidoso, o beberrão, o homem de negócios.
No entanto, é o único que não me parece ridículo. Talvez porque é o único que se ocupa de outra coisa que não seja ele próprio.
Suspirou de pesar e disse ainda:
Era o único que eu podia ter feito meu amigo. Mas seu planeta é mesmo pequeno demais. Não há lugar para dois...
O que o principezinho não ousava confessar é que os mil quatrocentos e quarenta pores-do-sol em vinte e quatro horas davam-lhe certa saudade do abençoado planeta!

O Pequeno Príncipe, Antoine De Saint-Exupery
Continua...




O Soldado e o Rei



Um rei vivia muito desconfiado da sua segurança porque os seus súditos falavam amiudamente em república. De vez em quando apareciam rumores que o impressionavam.
Abalado por esses rumores resolveu pessoalmente saber o estado do seu reino saindo disfarçado em pobre para percorrer os recantos da cidade. Desejava saber o que dele diziam e o que pretendiam fazer do seu reino e do seu rei.

Uma noite, em uma bodega onde se encontrava, aproximou-se um soldado lastimando-se:
— É uma miséria a vida que eu levo: sou soldado há mais de vinte anos e o meu ganho não dá para sustentar a minha família. Tenho uma ninhada de filhos magros de fome que passam. O rei não olha para o seu povo, a opressão é grande, enquanto o rei se diverte. Vivo morrendo de fome com os meus filhos e a minha mulher morando em uma casa desgraçada.

O taberneiro querendo associar-se ao soldado, replicou:
— É mesmo; o nosso rei é um miserável, não faz caso do seu povo.

— Alto lá! — disse o soldado — Você não pode falar do meu rei; eu posso porque sou soldado, vivo do estado, você não pode porque não é nada no governo. Cale-se e bote uma bicada para mim.

Tomando o copo, virou-se para o rei que estava vestido pobremente e irreconhecível:
— Camarada você toma um pouquinho. Venha de lá, beba primeiro.

O desconhecido escusou-se, ponderou que não queria beber, mas, diante das exigências do soldado tomou o copo e provou da pinga.

O soldado continuou na sua lamúria:
— Vim comprar umas coisinhas para os meninos não dormirem com fome, mas como não tenho dinheiro vou empenhar meu facão; no fim do mês, quando receber ordenado, venho tirá-lo do prego. Bodegueiro, fique com o meu facão e me dê em troca, até o fim da semana, um pouco de café, açúcar, bacalhau e farinha.

O negócio foi feito. Ao deixar a bodega o soldado convidou o desconhecido para acompanhá-lo. Quero meu amigo, mostrar a minha casa e a minha gente, você vai ver quanta miséria.
Foram os dois. A casa era de fato um mocambo desmantelado cheio de meninos magros com uma mulher andrajosa e magra também entre eles.

Prepare a ceia, mulher, disse o soldado, entregando o que trouxera da venda.
Enquanto a mulher preparava a ceia o soldado conversava com o desconhecido que o acompanhara:
— Eu empenhei o meu facão nas vésperas da festa de Nossa Senhora da Conceição, eu tenho de formar e o facão vai me fazer uma falta danada, mas eu já pensei como devo fazer. Tenho um cabo velho de um facão que se quebrou, colocarei uma lâmina de pau e com ele irei à parada. Quem sabe o que está dentro da bainha?

A ceia na mesa o soldado insistiu com o companheiro para fazer uma perninha. Convite aceito pelo desconhecido, que comeu o que havia; e depois deixou a hospedaria sem dizer quem era, onde morava e de que vivia.

No dia da parada o rei passava em revista da tropa formada em frente do palácio, fazendo esforço para descobrir o soldado com quem conversara dias atrás. Tanto procurou até descobri-lo. Parando em sua frente gritou com majestade:
— Soldado! Dê um passo à frente.

Virando para o capitão da companhia ordenou:
— Capitão! Dê um passo à frente.

Quando os dois militares emparelharam-se o rei ordenou: 
— Soldado tire o seu facão e mate imediatamente o seu capitão!

O soldado sentiu-se perdido, mas teve um lampejo de inteligência dizendo: 
— Obedeço a ordem de vossa majestade.

Ao retirar o facão gritou com misticismo:
— Valei minha Nossa Senhora da Conceição! Que o meu facão vire pau. Pra eu não matar o meu capitão!

Retirou o facão da bainha ante o espanto geral a lâmina estava transformada em madeira.

 — "Milagre!" Gritaram todos.

O rei riu-se e o promoveu a sargento.

Getúlio César

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