Sobre as Compras e Vendas - Khalil Gibran



E um mercador disse:

Fala-nos das Compras e das Vendas.

E ele respondeu, dizendo:

Para vós a terra concede os frutos e vós não os aceitareis a menos que saibais como encher as mãos.

É na troca das dádivas da terra que encontrareis a abundância e ficareis saciados.

No entanto, a menos que a troca seja feita com amor e justiça, só trará ganância a alguns e sofreguidão a outros.

E vós, trabalhadores do mar e campos e vinhas, quando no mercado encontrardes os tecelões, os oleiros e os mercadores de especiarias, invocai então o espírito superior da terra, para que venha para o meio de vós e abençoe as balanças e as medidas que avaliam valor contra valor.

E não admitais que os de mãos estéreis participem nas vossas transações, pois eles trocariam as suas palavras pelo vosso trabalho.

A tais homens deveis dizer:

"Vinde conosco aos campos, ou ide com os nossos irmãos para o mar e atirai as vossas redes, pois a terra e o mar serão tão generosos para vós como têm sido para nós."

E se aparecerem os dançarinos e cantores e tocadores de flauta, aceitai também as suas ofertas, pois também eles recolhem frutos e incensos, e aquilo que trazem, embora disfarçado de sonhos, é alimento para a vossa alma.

E antes de sairdes do mercado certificai-vos de que ninguém saiu de mãos vazias, pois o espírito superior da terra não dormirá em paz ao vento enquanto não forem satisfeitas as necessidades dos mais pequenos de vós.

Trecho do livro O Profeta, de Khalil Gibran

Sobre as Roupas - Khalil Gibran



E o tecelão disse:

Fala-nos das Roupas.

E ele respondeu:

As vossas roupas ocultam muito da vossa beleza, no entanto não ocultam a fealdade.

E embora procureis no vestuário a liberdade da privacidade, podereis encontrar nele grilhetas.

Pudésseis vós enfrentar o sol e o vento com mais pele e menos vestuário, pois o sopro da vida está na luz do sol e a mão da vida, no vento.

Alguns de vós dizeis:

 "Foi o vento do norte que teceu as roupas que vestimos."

E eu digo:

Ah! Sim! Foi o vento do norte...

Mas a vergonha era o seu ofício e o amolecimento dos tendões o seu tear. E depois de acabar o seu trabalho foi-se rir para a floresta.

Não esqueçais que a modéstia é um escudo contra o olho do impuro. E quando o impuro deixar de o ser, que será a modéstia senão um entrave do espírito?

E não vos esqueçais que a terra adora sentir os vossos pés nus, e os ventos anseiam por brincar com os vossos cabelos.
Trecho do livro O Profeta, de Khalil Gibran

Sobre as Casas- Khalil Gibran



Depois um pedreiro aproximou-se e disse, Fala-nos das Casas.

E ele respondeu, dizendo:

Na vossa imaginação construí um abrigo na floresta antes de construirdes uma casa dentro das muralhas da cidade.

Pois assim como tendes vontade de regressar ao crepúsculo, também o errante que existe em vós, sempre distante e solitário o tem.

A vossa casa é o vosso corpo em ponto grande.
Cresce ao sol e dorme na quietude da noite; e tem sonhos.

A vossa casa não sonha?
E ao sonhar não deixa a cidade e vai para os bosques e colinas?

Pudesse eu juntar as vossas casas na minha mão e espalhá-las pelas florestas e pelos prados.
Os vales seriam as vossas ruas, e os caminhos verdes as vossas avenidas, e procuraríeis uns pelos outros nas vinhas e traríeis nas vossas roupas a fragrância da terra.

Mas ainda não chegou o momento dessas coisas acontecerem.

Os vossos antepassados, com receio, fizeram-vos permanecer juntos.
E esse receio perdurará mais algum tempo.
Mais algum tempo e as muralhas da vossa cidade separarão os vossos lares dos vossos campos.

E dizei-me, povo de Orfalés, que tendes vós nessas casas?

Que guardais vós a sete chaves?

Tendes paz, a calma necessidade que revela o vosso poder?

Tendes recordações nas abóbadas que assentam nos cumes do espírito?

Tendes a beleza que conduz o coração das coisas modeladas em madeira e pedra à montanha sagrada?

Dizei-me.
Tendes isto nas vossas casas?
Ou só tendes conforto e o desejo do conforto, essa coisa que entra na vossa casa como hóspede e logo se transforma em dono e depois se apossa de tudo?

Ah! E se transforma em domador, e com o chicote faz dos vossos maiores desejos meras marionetes.

Embora as suas mãos sejam de seda, o seu coração é de ferro.

Embala-vos até adormecerdes para ficar junto à vossa cama e escarnecer da dignidade da carne. E troça dos sentidos sensatos e torna-os frágeis navios.

Na verdade, o desejo do conforto mata a paixão da alma e depois acompanha, sorrindo, o seu funeral.

Mas vós, filhos do espaço que repousais na inquietude, não vos deixareis apanhar nesta ratoeira nem vos deixareis domar.

A vossa casa não será uma ancora, mas um mastro.

Não será uma tênue película que tapa uma ferida, mas uma pestana que guarda o olho.

Não encolhereis as vossas asas para passardes pelas portas, nem curvareis as vossas cabeças para que não batam no teto, nem receareis respirar com medo que as paredes se desmoronem.

Não vivereis em túmulos feitos pelos mortos para os vivos.

E, embora magnificente e resplendorosa, a vossa casa não reterá o vosso segredo nem abrigará a vossa aspiração, pois aquilo que é ilimitado em vós habita a mansão do céu, cuja porta é a neblina matinal e cujas janelas são os cânticos e os silêncios da noite.

Trecho do livro O Profeta, de Khalil Gibran

Sobre a Alegria e a Tristeza - Khalil Gibran


"Aquele que nunca viu a tristeza, nunca reconhecerá a alegria."
E depois uma mulher disse, Fala-nos da alegria e da tristeza.

E ele respondeu:


A vossa alegria é a vossa tristeza mascarada.



E o mesmo poço de onde sai o vosso riso esteve muitas vezes cheio de lágrimas.

E como poderá ser de outra maneira?

Quanto mais fundo a tristeza entrar no vosso ser, maior é a alegria que podereis conter.

A taça que contém o vosso vinho não é a mesma que foi feita no forno do oleiro?

E a lira que vos apazigua o espírito não é da mesma madeira com que foram esculpidas as facas?

Quando estiverdes alegres, olhai bem dentro do vosso coração e descobrireis que só aquele que vos deu tristezas vos dá também alegrias.

Quando estiverdes tristes, olhai novamente para dentro do vosso coração e vereis que na verdade estais a chorar por aquilo que foi a vossa alegria.

Alguns de vós dizeis, "A alegria é maior que a tristeza" e outros dirão "Não, a tristeza é maior".

Mas eu digo-vos que são inseparáveis.

Juntas vêm, e, quando uma se senta junto de vós lembrai-vos que a outra está a dormir na vossa cama.

Na verdade, estais suspensos como balanças entre a vossa tristeza e a vossa alegria.

Só quando vos esvaziais ficais em equilíbrio e imóveis.

Quando o guardador de tesouros vos erguer para pesar o seu ouro e a sua prata, nem a vossa alegria nem a vossa tristeza se devem alterar.

Trecho do livro O Profeta, de Khalil Gibran
 

Sobre o Trabalho - Khalil Gibran



Depois um operário disse-lhe:

Fala-nos do Trabalho.

E ele respondeu, dizendo:

Vós trabalhais para poder manter a paz com a terra e a alma da terra. Pois ser ocioso é tornar-se estranho às estações e ficar afastado da procissão da vida que marcha majestosamente e com orgulhosa submissão em direção ao infinito.

Quando trabalhas, sois uma flauta através da qual o sussurro das horas se transforma em música.

Qual de vós gostaria de ser uma cana muda e silenciosa, quando todo o resto canta em uníssono som?

Sempre vos disseram que o trabalho é uma maldição e o labor um infortúnio.

Mas eu vos digo que, quando trabalhas, estais a preencher um dos sonhos mais importantes da terra, que vos foi destinado quando esse sonho nasceu, e quando vos ligais ao trabalho estais verdadeiramente amando a vida, e amar a vida através do trabalho é ter intimidade com o segredo mais íntimo da vida.

Mas se na dor chamais ao nascimento uma provação e à manutenção da carne uma maldição gravada na vossa fronte, então vos digo que nada, exceto o suor na vossa fronte, apagará aquilo que está escrito.

Também vos foi dito que a vida é escuridão, e no vosso cansaço fazeis-vos.

E eu digo que a vida é mesmo escuridão, exceto quando existe necessidade.
E toda a necessidade é cega, exceto quando existe sabedoria.
E toda a sabedoria é vã, exceto quando existe trabalho.
E todo o trabalho é vazio, exceto se houver amor.

E quando trabalhais com amor estais a ligar-vos a vós mesmos, e uns aos outros, e a Deus.

E o que é trabalhar com amor?

É tecer o pano com fios arrancados do vosso coração, como se os vossos bem amados fossem usar esse pano.

É construir uma casa com afeto, como se os vossos bem amados fossem viver nessa casa.

É semear sementes com ternura e fazer a colheita com alegria, como se os vossos bem amados fossem comer a fruta.

É dar a todas as coisas um sopro do vosso espírito, e saber que todos os abençoados defuntos estão à vossa volta a observar-vos.

Muitas vezes vos ouvi dizer, como se estivesseis falando durante o sono:

"Aquele que trabalha o mármore e encontra na pedra a forma da sua própria alma, é mais nobre do que aquele que trabalha a terra.
E aquele que agarra o arco-íris para o colocar numa tela à semelhança do homem, é mais do que aquele que faz as sandálias para os nossos pés."

Mas eu vos digo, não no sono, mas no despertar, que o vento não fala mais docilmente com o carvalho gigante do que com a mais ínfima erva.

E é grande aquele que, sozinho, transforma a voz do vento numa canção tornada doce pelo seu amor.

O trabalho é o amor tornado visível.

E, se não sabeis trabalhar com amor, mas com desagrado, é melhor deixardes o trabalho e sentar-vos na porta do templo a pedir esmola para aqueles que trabalham com alegria.

Pois se fizerdes o pão com indiferença, estareis fazendo um pão tão amargo que só saciará metade da fome.

E se esmagardes as uvas de má vontade, essa má vontade contaminará o vinho com veneno.

E se cantardes como anjos, mas não apreciardes os cânticos, estareis a ensurdecer os ouvidos do homem às vozes do dia e às vozes da noite.

Trecho do livro O Profeta, de Khalil Gibran

Sobre a Comida e a Bebida - Khalil Gibran



E depois um velho Dono de uma estalagem, disse:

 Fala-nos da Comida e da Bebida.

E ele respondeu:

Deverieis viver da fragrância da terra, e, tal como uma planta, sustentar-vos com a luz.

Mas como tens que matar para comer, e retirar o recém nascido do leite da sua mãe para aplacar a vossa sede, então fazei disso um ato de veneração, e fazei um altar onde os puros e inocentes da floresta e da planície sejam sacrificados para aquilo que é mais puro e ainda mais inocente no homem.

Quando matares um animal, dizei-lhe com todo o coração:

– Pelo mesmo poder com que te abato, também eu sou abatido, e também eu serei consumido.
Porque a lei que te entregou em minhas mãos, me irá entregar a uma mão mais poderosa.
O teu sangue é o meu sangue, mas não são do que a seiva que alimenta a árvore do céu.

E quando esmagares uma maçã com os vossos dentes, dizei com todo o vosso coração:

– As tuas sementes viverão no meu corpo, e os botões do teu amanhã florescerão no meu coração, e a tua fragrância será a minha respiração, e juntos nos regozijaremos em todas as estações.

E no outono, quando colherdes as uvas das vossas vinhas, dizei com todo o coração:

– Também eu sou uma vinha e o meu fruto será colhido para o lagar. E, tal como o vinho novo, serei conservado em jarros eternos.

E no inverno, quando provardes o vinho, que haja no vosso coração uma canção para cada taça.
E que na canção haja a recordação dos dias de outono, da vinha e do lagar.

Trecho do livro O Profeta, de Khalil Gibran

Sobre a Dádiva - Khalil Gibran



Depois um homem rico disse:

Fala-nos da Dádiva.

E ele respondeu:

Dais muito pouco quando estais a dar o que vos pertence.
Só quando vos dais a vós próprios é que estais verdadeiramente a dar, pois o que são os vossos pertences senão aquilo que guardais com medo de necessitar amanhã?

E amanhã, que trará o amanhã ao cão prudente que vai enterrando ossos na areia sem marcas enquanto segue os peregrinos até à cidade santa?

E o que é o medo da necessidade senão a própria necessidade?

Não é o receio da sede que sentis quando o vosso poço está cheio, da sede insaciável?

Há aqueles que dão pouco do muito que têm, e fazem-no para conseguirem reconhecimento e o seu desejo oculto torna as suas dádivas sem valor.

E há aqueles que, tendo pouco, tudo dão.
Esses são os que acreditam na vida e na magnificência da vida e o seu cofre nunca está vazio.

Há aqueles que dão com alegria, e essa alegria é a sua recompensa.

E há aqueles que dão com dor e essa dor é o seu batismo.

E há aqueles que dão e não conhecem a dor ao dar, nem procuram alegria, nem dão para se sentirem virtuosos. Dão, tal como no vale a murta exala o seu perfume para o espaço. E é através das mãos desses, que Deus fala, e por detrás dos seus olhos, que Ele sorri para a terra.

É bom dar quando vos é pedido, mas é melhor dar se vos pedirem só através da compreensão.

E para o que tem as mãos abertas a busca daquele que vai receber é uma alegria maior do que dar.

E que podereis conservar?

Tudo o que possuís será um dia dado.

Por isso dai agora, agora que a época da dádiva pode ser vossa e não dos vossos herdeiros.

Dizeis muitas vezes "Eu daria, mas só a quem o merecesse".

As árvores do vosso pomar não dizem isso, nem os rebanhos nas pastagens. Eles dão para poder viver, pois não dar é perecer.

Aquele que é merecedor das suas noites e dos seus dias é, com certeza, merecedor de tudo.

E aquele que mereceu beber do oceano da vida merece encher a taça no vosso ribeiro.

E que deserto maior haverá do que aquele que assenta na coragem e na confiança de receber?

E quem sois vós para que os homens se desnudem e exponham o seu orgulho, para que os possais ver nus e com o orgulho a descoberto?

Certificai-vos primeiro de que sois dignos de dar e de ser instrumento da dádiva, pois, na verdade, é a vida que dá à vida, enquanto vós, que vos considerais doadores, não passais de testemunhas.

E vós, os que recebem – e todos recebem – não carregueis o fardo da gratidão, pois estareis colocando um jugo sobre vós e sobre aquele que dá.

Erguei-vos antes juntamente com o que dá, sobre essas dádivas como se elas fossem asas, porque ter demasiada consciência da vossa dívida é duvidar da generosidade daquele que tem a terra de coração livre como mãe e Deus como pai.
 Trecho do livro O Profeta, de Khalil Gibran

Sobre as Crianças - Khalil Gibran




Depois, uma mulher que trazia uma criança ao colo disse:

Fala-nos das Crianças.

E ele respondeu:

Os vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da Vida que anseia por si mesma.
Eles vêm através de vós, mas não de vós.
E embora estejam convosco não vos pertencem.

Podeis dar-lhes o vosso amor, mas não os vossos pensamentos, pois eles têm os seus próprios pensamentos.

Podeis abrigar os seus corpos, mas não as suas almas, pois as suas almas vivem na casa do amanhã, que vós não podereis visitar, nem em sonhos.

Podereis tentar ser como eles, mas não tenteis torná-los como vós, pois a vida não anda para trás nem se detém no ontem.

Vós sois os arcos de onde os vossos filhos, quais flechas vivas, serão lançados.

O arqueiro vê o sinal no caminho do infinito e Ele com o Seu poder, faz com que as Suas flechas partam rápidas e cheguem longe.

Que a vossa inflexão na mão do Arqueiro seja para a alegria, pois assim como Ele ama a flecha que voa, também ama o arco que se mantém estável.


Trecho do livro O Profeta, de Khalil Gibran

Sobre o Casamento - Khalil Gibran




Então Almitra falou novamente e disse:

E quanto ao casamento, Mestre?

E ele repondeu, dizendo:

Nascestes juntos, e juntos ficareis para sempre.
Estareis juntos quando as asas brancas da morte acabarem com os vossos dias.

Ah! Estareis juntos mesmo na memória silenciosa de Deus.

Mas que haja espaços na vossa união e que os ventos celestiais possam dançar entre vós.

Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor uma prisão;
Deixai antes que seja um mar ondulante entre as margens das vossas almas.
Enchei a taça um do outro, mas não bebais de uma só taça.
Parti o vosso pão ao meio, mas não comais do mesmo pão.
Cantai e dançai juntos, mas deixai que cada um de vós fique sozinho, como as cordas de uma lira que estão sozinhas embora vibrem ao som da mesma música.
Entregai os vossos corações, mas não ao cuidado um do outro, pois só a mão da Vida pode conter os vossos corações.
E ficai juntos, mas não demasiado juntos, pois os pilares do templo estão afastados, e o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro.

Trecho do livro O Profeta, de Khalil Gibran 

Sobre o Amor - Khalil Gibran




Então Almitra disse, fala-nos do Amor.

E ele ergueu a cabeça e olhou para o povo e caiu uma grande imobilidade sobre eles. E em voz poderosa ele disse:

Quando o amor vier ter convosco,
Seguros embora os seus caminhos sejam árduos e sinuosos.
E quando as suas asas vos envolverem, abraçai-o, embora a espada oculta sob as asas vos possa ferir.
E quando ele falar convosco, acreditai,
Embora a sua voz possa abalar os vossos sonhos como o vento do norte devasta o jardim.
Pois o amor, coroando-vos, também vos sacrificará. Assim como é para o vosso crescimento também é para a vossa decadência.
Mesmo que ele suba até vós e acaricie os mais ternos ramos que tremem ao sol,
Também até as raízes ele descerá e abana-las-à
Enquanto elas se agarram a terra.
Como molhos de trigo, ele vos junta a si.
Vista-vos para vos pôr a nu.
Peneira-vos para vos libertar das impurezas.
Mói-vos até a alvura.
Amassa-vos até vos tomardes moldáveis;
E depois entrega-vos ao seu fogo sagrado, para que vos torneis pão sagrado para a sagrada festa de Deus.

Toda estas coisas vos fará o amor até que conheçais os segredos do vosso coração, e, com esse conhecimento, vos tomeis um fragmento do coração da Vida.

Mas se, receosos, procurardes só a paz do amor e o prazer do amor.
Então é melhor que oculteis a vossa nudez e saias do amor, para o mundo sem sentido onde rireis, mas não com todo o vosso riso, e chorareis mas não com todas as vossas lágrimas.

O amor só se dá a si e não tira nada senão de si;
O amor não possui nem é possuído;
Pois o amor basta-se a si próprio.

Quando amardes não deveis dizer "Deus está no meu coração", mas antes "Eu estou no coração de Deus".

E não penseis que podeis alterar o rumo do amor, pois o amor, se vos achar dignos, dirigirá o seu curso.

O amor não tem outro desejo que o de se preencher a si próprio.

Mas se amardes e tiverdes desejos, que sejam esses os vossos desejos:
Fundir-se e ser como um regato que corre e canta a sua melodia para a noite.

Para conhecer a dor de tanta ternura.
Ser ferido pela vossa própria compreensão do amor;
E sangrar com vontade e alegremente.

Despertar de madrugada com um coração alado e dar graças por mais um dia de amor;
Repousar ao fim da tarde e meditar sobre o êxtase do amor;
Regressar para casa à noite com gratidão;
E depois adormecer com uma prece para os amados do vosso coração e um cântico de louvor nos vossos lábios.
Trecho do livro O Profeta, de Khalil Gibran

A Chegada do Navio - Khalil Gibran



Almustafa, o escolhido e bem amado, que era aurora do seu próprio dia, esperara doze anos na cidade de Orfalés pelo navio que havia de o recolher e levar de volta à sua ilha natal.

E no décimo segundo ano, no sétimo dia de Eilul, o mês das colheitas, subiu à colina sem muralhas e pôs-se a olhar para o mar; e viu o seu navio aparecer com a bruma.

Então as portas do seu coração abriram-se e a sua alegria voou longe sobre o mar. E ele fechou os olhos e orou no silêncio da sua alma.

Mas enquanto descia a colina, apoderou-se dele uma grande tristeza e pensou com o coração:
Como poderei partir em paz e sem mágoa?
Não, não vou sair da cidade com uma ferida no espírito.

Muitos foram os dias de dor que passei dentro das suas muralhas, e muitas foram as noites de solidão; e quem pode separar-se da dor e da solidão sem mágoa?

Espalhei demasiados fragmentos do espírito por estas ruas, e muitos são os filhos da nostalgia que caminham nus por estas colinas, e não posso afastar-me deles sem peso nem dor.

Não é a roupa que hoje dispo, mas uma pele que arranco com as minhas próprias mãos.

Nem é um pensamento que deixo atrás de mim, mas um coração tornado doce pela fome e pela sede.

No entanto, não posso demorar-me mais.

O mar que chama todas as coisas. Chama-me também e tenho de embarcar. Pois ficar, embora as horas escaldem na noite, é gelar e cristalizar e perder-me numa forma.

De bom grado levaria tudo o que aqui se encontra. Mas como o poderei fazer?

Uma voz não pode transportar a língua e os lábios que lhe deram asas. Terei de procurar sozinho o etéreo. E solitária e sem ninho a águia atravessará o sol.

Quando chegou ao fundo da colina, voltou-se para o mar e viu o seu navio aproximar-se do porto, e na proa os marinheiros, os homens da sua pátria.

E a sua alma gritou-lhes e ele disse:

Filhos da minha velha mãe, vós, cavaleiros das marés. Quantas vezes velejastes nos meus sonhos. Agora apareceis no meu despertar, que é o meu sonho mais profundo. Pronto estou eu para ir, e a minha ânsia pelas velas desfraldadas aguarda o vento. Só respirarei mais uma vez neste ar imóvel, só mais um olhar de amor para trás, e então encontrar-me-ei entre vós, um marinheiro entre marinheiros.

E, enquanto caminhava, avistou ao longe homens e mulheres que saíam dos campos e das vinhas e se apressavam em direção aos portões da cidade.

E ouviu as suas vozes chamarem-lhe o nome, gritando de campo para campo, anunciando uns aos outros a chegada do navio.

E disse para consigo:

Será o dia da partida o dia da reunião?

E poderá em verdade ser dito que a minha noite foi a minha aurora?

E que darei àquele que deixou a charrua a meio de um sulco ou àquele que fez parar a roda do seu lagar?

Tornar-se-à o meu coração uma árvore carregada de frutos que eu possa reunir para Ihes dar?

E conseguirão os meus desejos fluir como uma fonte para que eu possa encher-lhes os cálices?

Sou uma harpa que a mão dos poderosos pode tocar, ou uma flauta cujo sopro passa por mim?

Sou aquele que procura os silêncios, e que tesouros encontrei nos silêncios que possa dispensar com confiança?

Se este é o dia da minha colheita, em que campos espalhei a semente, e em que esquecidas estações?

Se esta é verdadeiramente a hora em que erguerei a minha lanterna, não é a minha chama que lá irá arder. Erguerei a minha lanterna vazia e escura. E o guardião da noite enchê-la-à de petróleo e alumiá-la-à.

Estas coisas disse ele em palavras. Mas muito no seu coração ficou por dizer. Porque ele próprio não podia falar do seu segredo mais profundo.

E quando entrou na cidade todos vieram se encontrar com ele, e todos choravam a uma só voz.

E os anciãos da cidade avançaram e disseram:

Não te apartes ainda de nós. Tu foste o sol do meio dia no nosso crepúsculo, e a tua juventude deu-nos sonhos para sonhar.

Não és nenhum estranho entre nós, nem um hóspede, mas nosso filho eleito e adorado. Que os nossos olhos não sofram ainda por deixar de te ver.

E os sacerdotes e sacerdotisas disseram-lhe:

Não deixes que as ondas do mar nos separem agora, e que os anos que passaste entre nós se transformem numa recordação.

Caminhaste entre nós como um espírito, e a tua sombra tem iluminado os nossos rostos. Muito te temos amado. Mas o nosso amor era sem palavras, e coberto com véus.

E agora grita bem alto e desvenda-se perante ti.

É que o amor só conhece a sua profundidade na hora da separação.

E outros chegaram e com ele falaram.

Mas ele não lhes respondeu. Limitou-se a curvar a cabeça; e aqueles que se encontravam perto viram as lágrimas cairem-lhe sobre o peito.

E ele e os outros dirigiram-se para a grande praça frente ao templo. E do santuário saiu uma mulher que se chamava Almitra e era vidente. E ele olhou-a com grande ternura, pois fora ela a primeira que acreditara nele quando estava na cidade havia só um dia.

E ela disse-lhe:

Profeta de Deus, na busca do supremo, muito procuraste as distancias do teu navio. E agora o teu navio chegou e tu tens de ir.

Profunda é a ânsia pela terra das tuas memórias e pelo paradeiro dos teus maiores desejos; e o nosso amor não te vai reter, nem as nossas necessidades te prenderão. E agora que vais partir pedimos-te que fales conosco e nos reveles a tua verdade. E nós passá-la-emos aos nossos filhos, e eles aos filhos deles e ela nunca morrerá.

Na tua solidão observaste os nossos dias, e no teu despertar ouviste o choro e o riso do nosso sono. Agora revela-te a nós, e diz-nos o que te foi mostrado e que existe entre o nascimento e a morte.

E ele respondeu:

Povo de Orfalés, de que vos poderei falar, exceto daquilo que agora se passa em nossas almas?
Trecho do livro O Profeta, de Khalil Gibran
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