Caminhos do Coração



Há muito tempo que eu saí de casa
Há muito tempo que eu caí na estrada
Há muito tempo que eu estou na vida
Foi assim que eu quis, e assim eu sou feliz

Principalmente por poder voltar
A todos os lugares onde já cheguei
Pois lá deixei um prato de comida
Um abraço amigo, um canto prá dormir e sonhar

E aprendi que se depende sempre
De tanta, muita, diferente gente
Toda pessoa sempre é as marcas
Das lições diárias de outras tantas pessoas

E é tão bonito quando a gente entende
Que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá
E é tão bonito quando a gente sente
Que nunca está sozinho por mais que pense estar

É tão bonito quando a gente pisa firme
Nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos
É tão bonito quando a gente vai à vida
Nos caminhos onde bate, bem mais forte o coração
Gonzaguinha


Música de Gonzaguinha
Interpretada pela Banda Falamansa.

Eu. Modo de Usar



Pode invadir
Ou chegar com delicadeza
Mas não tão devagar que me faça dormir

Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar
Acordo pela manhã com ótimo humor
Mas ... Permita que eu escove os dentes primeiro

Toque muito em mim
Principalmente nos cabelos
E minta sobre minha nocauteante beleza

Tenho vida própria
Me faça sentir saudades
Conte algumas coisas que me façam rir

Viaje antes de me conhecer
Sofra antes de mim para reconhecer-me
Acredite nas verdades que digo
E também nas mentiras,
Elas serão raras
E sempre por uma boa causa.

Respeite meu choro.
Me deixe sozinha.
Só volte quando eu chamar.
E não me obedeça sempre
Que eu também gosto de ser contrariada.
Então fique comigo quando eu chorar, combinado?

Seja mais forte que eu e menos altruísta!
Não se vista tão bem...
Gosto de camisa para fora da calça

Gosto de braços.
Gosto de pernas
E muito de pescoço.

Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto:
Boca, cabelos, cheiros, olhos, mãos...

Leia,
Escolha seus próprios livros,
Releia-os.

Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos.
Seja um pouco caseiro e um pouco da vida.
Não goste tanto de boate que isto é coisa de gente triste.

Não seja escravo da televisão, nem xiita contra.
Nem escravo meu.
Nem filho meu.
Nem meu pai.

Escolha um papel para você
Que ainda não tenha sido preenchido
E o invente muitas vezes.

Me enlouqueça uma vez por mês.
Mas me faça uma louca boa.
Uma louca que ache graça em tudo que rime com louca:
Loba, boba, rouca, boca ...

Goste de música e de sexo.
Goste de um esporte não muito banal.

Não invente de querer muitos filhos.
Me carregar pra a missa,
Apresentar sua família...
Isso a gente vê depois ... Se calhar ...

Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora.
Quero ver você nervoso,inquieto.

Olhe para outras mulheres.
Tenha amigos que se tornem meus amigos
E digam muitas bobagens juntos.

Me conte seus segredos ...
Me faça massagem nas costas.
Não fume Beba Chore
Eleja algumas contravenções.

Me rapte!
Se nada disso funcionar ...
Experimente me amar!

Marta Medeiros

Vovô nem é tão Velho



Uma tarde, o neto conversava com seu avô sobre os acontecimentos e, de repente, perguntou:
- Quantos anos você tem, vovô?

E o avô respondeu:
- Bem, deixa-me pensar um pouco...

Nasci antes da televisão, das vacinas contra a pólio, comidas congeladas, foto copiadora, lentes de contato e pílula anticoncepcional.

Não existiam radares, cartões de crédito, raio laser nem patins on line.

Não se havia inventado ar-condicionado, lavadora, secadora (as roupas simplesmente secavam ao vento).

O homem nem havia chegado à lua, "gay" era uma palavra inglesa que significava uma pessoa contente, alegre e divertida, não homossexual. Das lésbicas, nunca havíamos ouvido falar e rapazes não usavam piercings.

Nasci antes do computador, duplas carreiras universitárias e terapias de grupo.

Até completar 25 anos, chamava cada homem de "senhor" e cada mulher de "senhora" ou "senhorita".

No meu tempo, virgindade não produzia câncer.

Ensinaram-nos a diferenciar o bem do mal, a sermos responsáveis pelos nossos atos.

Acreditávamos que "comida rápida" era o que a gente comia quando estava com pressa.

Ter um bom relacionamento, era dar-se bem com os primos e amigos.

Tempo compartilhado, significava que a família compartilhava férias juntas.

Não se conhecia telefone sem fio, e muito menos celular.

Nunca havíamos ouvido falar de música estereofônica, rádios FM, fitas cassetes, CDs, DVDs, máquinas de escrever elétricas, calculadoras (nem as mecânicas, quanto mais as portáteis).

"Notebook" era um livreto de anotações.

Aos relógios se dava corda a cada dia.

Não existia nada digital, nem relógios nem indicadores com números luminosos dos marcadores de jogos, nem as máquinas.

Falando em máquinas, não existiam cafeteiras automáticas, micro-ondas nem rádio-relógios-despertadores. Para não falar dos videocassetes ou das filmadoras de vídeo.

As fotos não eram instantâneas e nem coloridas. Havia somente em branco e preto e a revelação demorava mais de três dias. As de cores não existiam e quando apareceram, sua revelação era muito cara e demorada.

Se em algo lêssemos "Made in Japan", não se considerava de má qualidade e não existia "Made in Korea", nem "Made in Taiwan", nem "Made in China".

Não se havia ouvido falar de "Pizza Hut", "McDonald's", nem de café instantâneo.

Havia casas onde se compravam coisas por 5 e 10 centavos. Os sorvetes, as passagens de ônibus e os refrigerantes, tudo custava 10 centavos.

No meu tempo, "erva" era algo que se cortava e não se fumava.
"Hardware" era uma ferramenta e "software" não existia.
Fomos a última geração que acreditou que uma senhora precisava de um marido para ter um filho.
Agora me diga quantos anos acha que tenho?

- Hiii... vovô... mais de 200! Falou o neto.

- Não, querido, somente 58.
Autor Desconhecido
Imagem: Rafael Lopes

Namore uma garota que viaja



Namore uma garota que viaja! Uma garota que prefira gastar seu dinheiro numa viagem no final de semana, uma viagem bate-e-volta que seja a torrar numa promoção do shopping. Ela anda com calçados confortáveis, pois nunca sabe qual distância ela irá andar aquele dia, afinal, ela não reconhece as distâncias como barreiras na vida.
Ela estará na rodoviária com um mochilão no próximo final de semana, ou em shows de bandas que você nunca ouviu falar “porque conheci eles a um ano atrás, viajando”.

Ela carrega na bolsa lembranças de vários lugares diferentes, e sempre tem um lanchinho ou uma garrafa d’água dentro dela, pois vai que ela não volta pra casa naquele dia? É marcada em mil fotos diferentes, de pessoas que moram bem longe dela, coleciona presentinhos que ganhou dos amigos que conheceu pela estrada, tem planos para viajar pelos próximos 5 anos para rever todos que teve que deixar pelo caminho. Encontra pessoas no meio da rua em um lugar bem longe onde jamais você conheceria alguém, e você verá que do outro lado do mundo tem alguém que a olha com o mesmo sorriso bobo que você faz quando a vê.

Ela não será a pessoa mais bem vestida por aí, porém a pele queimada de sol e o corpo com os músculos naturalmente desenhados de tantos dias nas montanhas combinadas com brincos sulamericanos, uma mochila da Espanha e sapatos da Ásia farão uma combinação de estilo tão único, tão vibrante, que você já saberá alguma coisa sobre ela antes mesmo de perguntar seu nome. Não jogue com ela, não diga que ela é linda, pergunte de onde vem essa camiseta que ela veste, escute-a, veja a simplicidade da resposta e não se preocupe: você viajará com os “causos” delas antes mesmo que perceba isso.

Ela lê livros de viagens, escuta Eddie Vedder na estrada, sabe nome de lugares maravilhosos os quais você nunca havia ouvido falar antes. Fala com tanta paixão sobre os lugares, que é impossível não ter vontade de pedir demissão amanhã do trabalho, colocar a mochila nas costas e ela do lado. Muitas vezes vai te surpreender resolvendo coisas de um jeito totalmente novo, dizendo quando vir sua cara de espanto “é que uma vez quando eu estava viajando, aconteceu algo assim e…”. Ela vai querer te levar em todos os lugares em que esteve sozinha, e pensou como seria bom se estivesse acompanhada, vai fazer uma lista com você de “coisas para se viver esse ano”, vai completar com toda certeza, vai trazer cenários de filmes para sua vida, vai te fazer acreditar passar a noite num saco de dormir com o céu estrelado te faz sentir muito mais especial que qualquer quarto de hotel estrelado.

Namore uma garota que viaja porque ela ama a vida. Ela não tem tempo para picuinhas, sabe que a vida voa, e que é melhor amarmos agora, na maior da intensidade, porque nunca se sabe que curso a vida tomará amanhã. Você pode ir embora, se apaixonar por outro lugar, por outra vida, que não a inclua. Ela pode reclamar, mas sabe bem que isso acontece. Vai vibrar com suas conquistas que te levem pra longe dela, pois sabe o prazer que o desconhecido causa, e sabe também que as distâncias jamais levam as pessoas que amamos de verdade de nós, pelo contrário, as fixam que nem tatuagem. Não tem muitas coisas materiais, sabe que roupas desnecessárias na mala significam um problema de coluna por peso, passa dias e dias apenas com algumas peças, e continua linda de se ver: ela se veste dela mesmo, e não há como bater isso.

Não siga padrões com ela. Não faça nada que envolva muito dinheiro com ela. Escolha o caminho mais bonito da cidade para atravessar a cidade do trabalho dela até a sua casa, ou até o restaurante de comida peruana mais próximo, preste atenção nos comentários que ela fizer sobre as coisas no caminho. Uma garota que viaja tem um olhar aguçado de uma criança, vai te fazer reparar numa planta florida, num grafite fantástico que você nunca reparou, num anúncio colado no ponto de ônibus de um show interessante, vai definir os lugares pelos cheiros agradáveis no ar: “Roma tem cheiro de pizza, que nem esse cheiro agora”. Tudo coisas que de dentro de um carro importado com o ar condicionado ligado, não aconteceria.

Você viverá o momento presente como nunca. Ela te chamará atenção para tudo que está a sua volta, e não na briga que tiveram ontem. Ela vai ser a trilha sonora da tua vida.

A garota que viaja sabe te ouvir. Já ouviu muita gente do mundo inteiro, e o que alegrava os dias mochileiros dela era justamente se inserir nas histórias de tão longe. Ela repara o que ninguém repara no que você fala, só você havia prestado atenção nisso. Ela te ajuda sem esperar o retorno imediato, sabe como é essa vida, já foi ajudada inúmeras vezes na estrada sem que a pessoa pedisse um tostão de volta, e voltou para casa certa de fazer tudo diferente, pois sabe o quanto isso pode significar na vida da outra pessoa. Ela não liga para coisas pequenas como datas e presentes, ela liga para o quanto você andou para encontrá-la, o que você prestou atenção das coisas que ela te disse para mandar uma mensagem no celular dizendo “tá tocando aquela música que você disse ser a música de Cuzco. Saudades!” e provavelmente a resposta será: “Escutaremos ela de novo, lá”.

De repente, sua vida tomará um ritmo acelerado, cheio de novidades. Porém não descuide: traga novidades para a vida dela também, mantenha a curiosidade dela sempre acesa. É indispensável que fique na sua cabeça que estamos falando de uma menina apaixonada pela vida. Logo, não corte suas asas. Ela vai, caso você não possa ir. Ela volta, porque você é o motivo para ela se lembrar do caminho de volta. Acompanhe-a sempre que puder, e não espere para propor qualquer programa para ela, por mais louco que julgue ser. Ela vai sorrir e bolar várias coisas a mais para complementar o plano de vocês, e vai se encantar com sua energia. Ela sabe se encantar pelas coisas boas da vida, seja uma delas! Então juro: não há o menor risco de se arrepender.

Casamento é algo que assusta a maioria das garotas viajantes, mas no fundo é o que mais elas querem: alguém que elas possam rir tomando “uns bons drinks” relembrando as histórias de 1, 2, 8 anos atrás, alguém que tope uma casinha simples num lugar paradisíaco, e mesmo que você não faça a linha radical, que tire as fotos do rafting que ela estava louca para fazer, e a ajude a contar depois para os outros como foi a loucura, com a mesma empolgação. É, você vai se empolgar. Ela vai te propor um casamento numa montanha, com o Sol nascendo, ou na fazenda de um dos seus amigos, só com aquelas 50 pessoas que com toda certeza irão. Seja lá o que for, vai ser incomum, impensado como ela é, impensável, imprevisível. E a lua de mel, não espere menos que um mochilão! Menos dinheiro em cada lugar, mais lugares no itinerário, vários passeios e comidas curiosas encontradas pelo caminho que não são oferecidas pelas agências de viagens. Aliás, agência o que?

A menina que viaja não tem medo da idade, não tem medo das responsabilidades, das obrigações: ela já viu inúmeras soluções para cada caso por aí, já tem tudo montado na cabeça. A família de vocês vai ter um conhecimento de mundo incrível. Seus filhos vão saber o valor de cada refeição que tem, de cada teto que dormem, de cada monumento histórico que encontram na frente. Ela vai ensiná-los a respeitar e amar incondicionalmente a natureza, e ter uma habilidade incrível de se enturmar com qualquer tipo de pessoa do mundo. Serão pessoas bem queridas onde quer que forem, sem depender de vocês. Ah, e não se esqueça do cachorro(s).

Pense nela aos 60: mesmo sorriso, mesmas andanças. O que te atrair nela, provavelmente será pra sempre, invariável com o tempo. Uma pessoa acumulou uma qualidade de experiências notória, e que a cada dia que passa se divertiu com menos, se aborreceu com quase nada. Já terá vivido tanta coisa por aí que será a atração dos netos de todas as idades, explicando o significado do quadro maya estranho na parede, e fazendo a dança indiana no casamento de um deles. Esse tipo de alegria nunca se apaga, só se prolonga, e se espalha a quem a cerca.

Namore uma menina que viaja. Se ela te escolher, acredite: já passou tanta gente pela vida dela, de longe, de perto, pouco tempo, muito tempo, e se ela te escolheu é porque ela realmente gosta de você. Sem inseguranças ou interesses, ela gosta de você e pronto. Deixe-a te carregar pela mão, durma no colo dela nas rodoviárias, delicie seu miojo de acampamento. Deixe o mundo ser apresentado a você, caso ainda não tenha sido, e veja como alguém pode, definitivamente, ser a chave da sua alegria.


Esse texto foi originalmente publicado no blog Solitary Wanderer.

Pequeno Acidente de Percurso



O sol desaparecia aos poucos por detrás da grande serra senhoreada pelo Puy-de-Dôme, e a sombra da serra se estendia pelo profundo vale de Royat.

Algumas pessoas passeavam no parque, ao redor do quiosque da música. Outras estavam sentadas, em grupos, apesar da friagem da tarde.

Conversava-se com animação num desses grupos, posto que um grave assunto preocupava as senhoras de Sarcagnes, de Vaulacelles e de Bridoie. As férias se aproximavam e tratava-se de mandar buscar seus filhos, internados nos colégios dos jesuítas e dos dominicanos.

Ora, essas damas não pensavam em fazer elas mesmas a viagem para trazer seus descendentes e não conheciam ninguém a quem pudessem encarregar de tão delicada missão.

Era nos últimos de julho. Paris estava deserta. Elas procuravam em vão um nome que lhes oferecesse as requeridas garantias.

Maior eram suas preocupações devido a um escabroso caso de ultraje ao pudor público que ocorrera alguns dias antes num vagão de trem. E estas damas estavam persuadidas de que todas as rameiras da capital passavam a vida nos trens, entre Auvergne e a Gare de Lyon. Os tópicos de Gil Blas, aliás, no dizer de Mr. De Bridoie, assinalavam sua presença em Vichy, no Mont Doré e em Bouboule, de todas as horizontais conhecidas e desconhecidas. Para lá chegarem, deveriam elas viajar de trem e, sem dúvidas, de trem regressariam elas; deveriam mesmo voltar ininterruptamente para tornarem a vir todos os dias. Seria, portanto, um vaivém constante daquelas mulheres impuras todos os dias.As damas em questão se lamentavam de que os acessos às gares não fosse proibido às mulheres suspeitas.

Ora, Roger de Sarcagnes tinha quinze anos. Gontran de Vaulacelles, treze, e Rotand de Bridoie, onze anos. O que fazer? Elas não podiam, no entanto, expor seus queridos filhos ao contato com semelhantes criaturas. O que não ouviriam eles, o que não aprenderiam, se passassem um dia inteiro, ou uma noite, num compartimento de em que contivesse também uma ou duas daquelas desavergonhadas com seus respectivos companheiros.

A situação parecia sem saída, quando aconteceu de por ali passar Madame Martinsec. Ela parou para cumprimentar as amigas, que lhe contaram suas preocupações.

- Mas é muito simples - exclamou ela eu posso emprestar-lhes o padre. Posso muito bem dispensá-lo durante quarenta e oito horas. A educação de Rodolphe não irá se abalar por tão pouco. O padre irá buscar seus filhos.

Ficou então combinado assim, que o padre Lecuir, um jovem sacerdote muito instruído, preceptor de Rodolphe de Martinsec, iria a Paris na semana seguinte buscar os três garotos.

O padre partiu, pois, na sexta-feira; e encontrava-se na Gare de Lyon no domingo de manhã, para, com seus três garotos, embarcar no expresso das oito, o novo expresso em funcionamento há poucos dias apenas e que era, por sinal, uma aspiração de todos os banhistas de Auvergne.

Ele passeava pela gare seguido de seus meninos, e procurava um vagão com poucos passageiros, e passageiros de aspecto respeitável, pois ficara obcecado com todas as minuciosas recomendações que lhe fizeram as Sras. de Sarcagnes, de Vaulacelles e de Bridoie.

Eis que ele avistou, em frente a um dos compartimentos, um velho senhor e uma velha dama de cabelos brancos que conversavam com uma outra dama instalada na cabine. O velho era oficial da Legião de Honra; e tinham ambos um aspecto perfeitamente distinto. "É a cabine que me serve", pensou o padre. Fez os três alunos subirem e foi atrás.

A velha dama dizia:
- Cuide-se bem, minha filha.
A jovem respondeu:
- Claro, mamãe, não tenha medo.
- Se sentir alguma coisa, não se esqueça de chamar o médico.
- Claro, mamãe.
- Vamos indo. Adeus, minha filha.
- Adeus, mamãe.

Abraçaram-se e se beijaram; depois o empregado da gare fechou a portinhola e o trem se pôs em marcha.

Estavam sós. O padre, encantado, congratulava-se com a sua habilidade, iniciou conversa com os garotos que lhe foram confiados. No dia de sua partida, combinara com a Sra. de Martinsec que iria a dar lições particulares aos três garotos durante as férias, e ele queria sondar um pouco a inteligência e a personalidade de seus novos alunos.

Roger de Sarcagnes, o maior, era um desses meninos crescidos depressa magros e pálidos, e cujas articulações não pareciam completamente formadas. Ele falava de forma lenta e era um tanto simplório.

Gontran de Vaulacelles, pelo contrário, permanecera pequeno, rechonchudo e era malicioso, dissimulado e gozador. Vivia sempre se divertindo à custa dos outros, tinha saídas de gente grande, respostas de duplo sentido, que inquietavam seus pais.

O mais jovem, Roland de Bridoie, não parecia revelar nenhuma aptidão para coisa alguma. Era um bom animalzinho que iria se parecer com seu pai.

O padre prevenira os meninos de que eles ficariam sob as suas ordens durante os dois meses de verão; e fez-lhes um sermão bastante sentido sobre os seus deveres para com ele, padre, sobre a maneira como pretendia governá-los e o método que seguiria.

Era um padre de alma reta e simples, um pouco posudo e cheio de regras.

Seu discurso foi interrompido por um profundo suspiro da sua vizinha. Voltou a cabeça para ela. A senhora conservava-se sentada no seu canto, com os olhos fixos, as faces algo pálidas. O padre voltou-se para seus discípulos.

O trem corria a toda velocidade, atravessava planícies, bosques, passava túneis e pontes, sacudia com sua forte trepidação o rosário de viajantes presos nos vagões.

Era a vez de Gontran de Vaulacelles interrogar o padre sobre Royat e os divertimentos da terra. Tinha rio? Podia-se pescar? Conseguiria ele um cavalo, como nas férias passadas? Etc.

De repente, a jovem soltou uma espécie de grito, um "ah!" de sofrimento, logo reprimido. Inquieto, o sacerdote lhe perguntou:
- A senhora está se sentindo bem, Madame?

Ela respondeu:
- Não, senhor padre, não é nada, apenas uma leve dor. Ultimamente tenho andado meio adoentada e o movimento do trem me cansa.

Na verdade, seu rosto se tornara lívido. Ele insistiu:
- Se eu puder fazer alguma coisa pela senhora...

- Não, em absoluto, senhor padre. Fico-lhe muito agradecida.

O padre continuou a conversar com os alunos, avaliando-os para seu ensino e orientação.

Passavam-se as horas. O trem parava de quando em quando, em seguida tornava a partir. A jovem senhora parecia dormir, não mais se movia, aconchegada no seu canto.

Embora mais da metade do dia já se passara, ela ainda não comera coisa alguma. O padre pensava: "A pobre deve estar sofrendo".

Mais duas horas e estariam em Clermond-Ferrand. Foi então que a senhora viajante começou a gemer. Quase se deixara cair do banco e, firmando-se nas mãos, com os olhos esgazeados, feições crispadas, ela repetia: "Ai, meu Deus! Ai, meu Deus!"

O padre se precipitou:
- Madame... Madame... Madame, o que é que a senhora tem?

Ela balbuciou:
- Eu... eu... acho que... que... vou dar à luz.

E, em seguida, começou a gritar de um modo horrível, lançando um longo clamor desvairado que parecia rasgar-lhe a garganta na passagem, um clamor agudo, lancinante, cuja entonação sinistra traduzia a angústia de sua alma e a tortura do seu corpo.

Transtornado, o pobre do padre, de pé diante dela, não sabia o que fazer, o que dizer, que iniciativa tomar, e murmurava: "Meu Deus, se eu soubesse... Meus Deus, se eu soubesse!" Estava vermelho até o branco dos olhos; e seus três garotos olhavam apatetados para a mulher.

De repente, ela se contorceu, levantando os braços acima da cabeça, e então estremeceu com uma convulsão que percorreu seu corpo todo. O padre pensou que ela ia morrer, morrer bem ali à sua frente, privada de socorros e de cuidados por culpa dele. Conseguiu dizer com uma voz resoluta:
- Vou ajudá-la, Madame. Eu não sei... Mas eu a ajudarei como puder. Devo dar minha assistência a toda criatura que sofre.

E voltou-se para os três garotos e gritou:
- Vocês aí, vão colocando a cabeça na janela; e se algum de vocês olhar, vai ter de copiar mil versos de Virgílio.

Ele próprio baixou o vidro da janela, acomodou ali as três cabeças, estendeu sobre os pescoços deles as cortinas azuis e repetiu:
- Se fizerem um só movimento, vão ficar de castigo, vão ficar privados dos passeios durante todas as férias. Não se esqueçam que eu não perdôo nunca.

E voltou para junto da jovem senhora, erguendo as mangas da batina.

Ela continuava a gemer; às vezes, gritava. O padre, com o rosto vermelho, dava-lhe assistência, exortando-a e reconfortando-a; e repetidamente levantava os olhos para os três garotos que arriscavam olhares furtivos, logo desviados, para o misterioso trabalho a que se dedicava seu novo preceptor.

- Sr. de Vaulacelles, vai me copiar vinte vezes o verbo "desobedecer"! - gritava ele. - Sr. de Bridoie, você vai ficar sem sobremesa durante um mês.

Subitamente a senhora parou com sua queixa insistente e quase em seguida um grito estranho e frágil, que mais parecia um latido ou um miado, fez com que os colegiais se voltassem para dentro ao mesmo tempo, convencidos de que acabavam de ouvir um cãozinho recém-nascido.

O padre segurava nas mãos uma criaturinha nua. Contemplava-a com um olhar desorientado; parecia feliz e desolado; a ponto de rir e a ponto de chorar; parecia que estava louco, tantas coisas exprimia a sua cara com ao rápido movimento dos olhos, dos lábios e das faces. E declarou, como se desse aos seus alunos uma grande notícia:
- É um menino. - E em seguida, ordenou: - Sr. De Sarcagnes, me passe a garrafa d'água que está ali no canto. Desarrolhe-a... Isso... muito bem... Põe um pouco na minha mão... ótimo, ótimo...

E aspergiu com aquela água a fronte nua do bebezinho, dizendo:
Eu te batizo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

O trem entrava na gare de Clermont. O rosto da Sra. De Bridoie apareceu na janela. O padre então, perdendo a cabeça, apresentou-lhe o frágil ser humano que acabara de colher, murmurando:
- "Tivemos um pequeno acidente de percurso."

Seu aspecto era o de ter recém apanhado aquela criança num esgoto; e, com os cabelos molhados de suor, o colarinho fora de lugar, a batina maculada, ele repetia:
- As crianças não viram nada, eu garanto. Os três olhavam pela janela, eu garanto. Eles nada viram.

E desceu do trem com quatro meninos em vez dos três que fora buscar, enquanto as senhoras de Bridoie, de Vaulacelles e de Sarcagnes trocavam olhares desvairados, sem encontrar uma palavra sequer para dizer.

À noite, as três famílias jantaram juntas para festejar a chegada dos colegiais. Mas não falavam; os pais, as mães e os próprios meninos pareciam preocupados. De repente, o mais jovem, Roland de Bridoie, perguntou:
- Mamãe, onde foi que o padre achou aquela criancinha?

A mãe não poderia ter sido mais peremptória:
- Vamos, come e nos deixa em paz com as suas perguntas.

O garoto calou-se por alguns minutos, logo em seguida:
- Não tinha ninguém. Só aquela senhora que estava com dor de barriga. É que o padre é um mágico, como o Houdini, que faz sair um armário cheio de peixes de baixo de um tapete?

- Cale essa boca. Foi Nosso Senhor quem mandou o bebê.

- Mas onde é que Nosso Senhor tinha posto o nenenzinho? Eu não vi nada. Será que ele entrou pela portinhola?

A Sra de Bridoie, impaciente, replicou:
- Cale a boca. Acabou-se. Ele apareceu num pé de couve, pronto, como todas as criancinhas. Você sabe disso.

- Mas não havia nenhuma couve naquele vagão.

Daí então Gontram de Vaulacelles, que escutava tudo com um ar maroto, sorriu e, disse:
- Havia uma couve, sim. Mas só quem a viu foi o padre.
Guy de Maupassant
(1850-1893 - França)

Amor - Saadi



Uma ratinha amava um gato.
Que história!
 E como irei contá-la?

Logo de começo, dir-me-eis: "Não te acreditamos. Como podes afirmar que uma ratinha estava apaixonada por um gato, como a doce e flexível Khalila, em lspaã, por um terrível guerreiro tártaro que lhe matara pai e mãe? Acaso te revelou a ratinha os seus sentimentos, ou a ouviste confessá-los ao gato? Admitimos que esses dois encantadores animais se entendessem bem, como uma ovelha e um lobo que fossem criados juntos; mas não é possível ir mais longe. Se tens novas informações acerca dos amores de Khalila e do seu guerreiro tártaro, então serás escutado com interesse."

Vejo que não freqüentastes a Universidade Nizhamiya, onde se fala de coisas muito mais surpreendentes. Porventura um estudante, lá, abana a cabeça, incrédulo, quando o professor lhe ensina que Dario obteve a coroa graças à jumenta do seu escudeiro Mavuz? Ou levanta os ombros ao ouvir que, em Tebas, um crocodilo salvou o filho do faraó Nectanebo, que se ia afogando no Nilo? Noutra ordem de idéias: ousa ele formular objeções se lhe afirmam que tal borboleta pode ir diretamente ao encontro da fêmea, a mil parasangas do jardim onde esta foi capturada? Limito-me a repetir-vos que devemos acreditar em tudo, porque tudo ignoramos. A verdadeira ciência consiste em saber que não sabemos nada.

Enquanto eu vos fazia esta digressão, tivestes ensejo de vos arrepender e de pensar na ratinha e no gato. Eles são tais como os vistes. Rogo-vos, pois, não cuideis mais em Khalila, apesar do vestido de seda que usa minha ratinha, nem no guerreiro tártaro, não obstante os rijos bigodes do meu gato.

Agora, estais enganado se imaginais que essa ratinha e esse gato se encontravam numa casa ou numa loja, numa água furtada ou numa adega, num terreno devoluto ou num campo. Não: era numa mesquita em ruínas, onde ele desfrutava de grande consideração, em virtude do sacrifício que o profeta Moamede se impôs, um dia, para não despertar seu gato adormecido. Eis por que os gatos, como bem o sabeis, são os únicos animais que podem entrar no Paraíso.

Essa mesquita não era mais bela nem mais fresca do que outra qualquer. Pelo contrário! De todas aquelas de que se orgulhava Tabriz, era ela a mais miserável e a mais exposta às intempéries.

Conheço as mais nobres mesquitas do mundo. No Cairo, recolhi-me à mesquita de Amru, que tem vinte e nove naves paralelas e quatro mihrab . Em Jerusalém, orei na mesquita de Omar, onde se erguia o tribunal de Davi. Em Bagdá, ouvi arrulhar as pombas da mesquita de Al Mamum. Em Mussul, ouvi arrulhar as fontes da mesquita de Saíf Ed Din Ghazi. Em Ispaã, não podia afastar-me da área interna da mesquita Djumá. Oito dias passei na mesquita de Ocba, em Cairuane, e cinco noites na mesquita Karauiyin, em Fez.

Vi, pois, as mais belas mesquitas do mundo, mas, em minhas recordações, a todas ultrapassa a humilde mesquitinha de Tabriz.

Abandonada desde um século, era ela o asilo de uns vinte mendigos e de ladrões errantes, de quatro pobres de espírito e três sábios a quem a excessiva ciência tornara incapazes de viver como toda a gente. Posso estar em erro, mas creio que o Senhor devia de considerar com benevolência essa reunião, no seu templo, de tão grande número de vítimas do destino. E tanto mais o creio quanto aquele refúgio me foi precioso em certa época da vida em que eu acabava de sucumbir numa luta com minha consciência, minha honra e minhas aspirações.

Uma bela e cruel rapariga de Tabriz fora a causa dessa luta, de que, afinal, eu poderia ter saído vencedor, se com isto me houvesse preocupado a sério. Mas eu sabia haver tantas rosas nessa mesquita em ruínas, e tantas estranhas personagens! Estava, pois, vencido de antemão.

Durante a batalha, o bom guerreiro deve ter, há um tempo, o olho no inimigo e numa posição de retirada.

Eu escolhera, pois, aquele recanto, onde ficava sozinho quando a temperatura permitia aos ladrões e aos mendigos irem tratar de seus negócios. Em tais dias, procurava desalentar os três sábios, que logo se iam embora, e, por outro lado, tratava de livrar-me dos pobres de espírito, mandando-os a lugares muito distantes em busca de coisas extraordinárias, que não existiam. Uns regressavam na mesma tarde, outros, no dia seguinte, todos empenhados em recomeçar a procura, tanto é certo que os homens, insensatos ou não, têm necessidade de esperar.

Ora, cada manhã, à mesma hora, chegava um belo gato cinzento, que também tinha a pretensão de reinar como soberano naquela mesquita.

"Secretamente apaixonado, ó gato, esperas ou procuras, mas logo desdenhas o que alcançaste: a carícia ou a presa.
O pássaro, em seu ninho, tem medo de ti, e o peixe, nas ervas da margem do rio, e o grilo, à beira de seu esconderijo.
A mulher em que te roças, estremece.
O menino que te pega, examina as tuas garras.
O homem que deseja castigar-te, hesita.
Sultão veloz das noites serenas,
Tranqüilo sultão das noites tempestuosas,
Gemes de amor, ou de cólera, quando vagas pelas açotéias inundadas de luar?"

Compunha estes versos, e muitos outros, enquanto, imóvel, observava o gato. Como tudo é possível, a princípio eu havia imaginado que a paz da mesquita o atraíra também. Mas, na realidade, como logo percebi, o que lá o atraía não era outra coisa senão os camundongos que infestavam o templo.

Durante quatro dias seguidos esse paciente e ágil soberano fez carnificinas que eu comparo às de Dario contra os babilônios e os citas. Fulminante como o raio, pulava de uma cornija ou saltava de um canto de parede, e logo jaziam, ofegantes, dez camundongos. No quinto dia, uma ratinha, que conseguira escapar à última chacina, saiu do seu abrigo e, a passo lento, caminhou em direção ao guerreiro.

- Ó gato - disse ela, de longe - és verdadeiramente superior aos homens, pois eles são incapazes de realizar as tuas façanhas! Os sobreviventes e as sobreviventes da nossa tribo consideram-te o senhor do Universo, e aqui me vês muito feliz por ter sido incumbida de transmitir-te esta notícia.

Piscando os olhos, com ar muito sereno, o gato respondeu:
- Eu sou meio surdo. Não entendo o que me dizes. Queres-te aproximar um pouco?

- Não se deve falar de perto aos sultões e aos heróis - tornou a ratinha. Agradeço-te muito a honra que me fazes pretendendo violar, em meu favor, essa regra absoluta.

Entretanto, insisto em observá-la: minhas irmãs me espreitam, e delas recebi ordem de ser muito respeitosa para contigo, por mais bondosamente que me tratasses.

Ficou neste pé a conversa, e a nossa ratinha voltou à sua toca, sem perder de vista o poderoso.

Mal foi entrando, as amigas cercaram-na.

 - Ouviram o que ele me disse?
Perguntou, sentada em sua traseirinha, com olhos perscrutadores.

- Não! Não! - responderam as outras. - Diga logo!

Ela começou:
- Que gato! Que graça, que delicadeza! Declarou-me que teria o maior prazer em conversar sempre comigo e que me daria prova de sua deferência permanecendo longe do lugar onde eu estivesse. Pedi-lhe que não me tratasse com essa atenção, com essa cortesia exagerada, mas ele não me atendeu. Em vão tentei convencê-lo a dar alguns passos: não se mexeu. Serei, certamente, mais feliz na próxima vez. Agora, deixem-me sozinha. Vou pensar no meio que empregarei para fazê-lo afastar-se desta mesquita.

Devo concluir, para não vos fatigar a atenção. O essencial da minha história é que a ratinha ficou apaixonada pelo gato - incrivelmente apaixonada. Ela disse consigo mesma:
- "As palavras que lhe dirigi, certamente o impressionariam se eu tivesse o porte dele. Como é triste ser pequenina e tímida! Mas, afinal de contas, por que razão não poderia um gato amar a uma ratinha, por que não seria ele sensível à minha fraqueza e à minha doçura, justamente por ser forte e ousado? Ah! como eu seria feliz se dormisse no seu pêlo, que tem o cheiro da areia quente! Sem dúvida, algumas vezes ele brincará rudemente comigo... Mas o vento também maltrata as flores!
À sua brutalidade eu oporei a minha submissão; e às suas cóleras, a minha serenidade."

Na manhã do dia seguinte, após haver alisado cuidadosamente o pêlo, ela se aproximou do gato, que dormia enroscado, com uma pata sobre a cabeça.
- Aqui estou eu - disse a ratinha. - Pensei que talvez me amasses...

- Amo-te muito - murmurou ele, espreguiçando-se. Queria confessá-lo ao teu ouvido, repeti-lo entre carícias. As confidências de amor não se fazem à distância. Queria, também, recitar-te alguns versos. Passei dias em casa de um poeta que os diziam maravilhosos à filha do vizinho. Decorei-os, mas só podem ser exalados baixinho, como suspiros. Aproxima-te. Fecha os olhos. Escuta.

Carícias, versos... Já desfalecida de emoção, a ratinha aconchegou-se ao gato.

Com uma pata quebrada, o flanco aberto, ela conseguiu escapar-se e ganhar o esconderijo.

Declarou às comadres que tinham vindo novamente recebê-la.
- Não é nada. O gato não me obedeceu quando o mandei ir-se embora daqui. Tentei castigá-lo. Brigamos, e eu fiquei um tanto arranhada.

Alguns instantes depois, morria, sussurrando:
- Adormeço... Estou um pouco fatigada, vocês compreendem...

Saadi (1184-1291 - Pérsia)
Traduçâo de Paulo Rónai e Aurélío Buarque de Holanda

O Casamento Enganoso



Saía do Hospital da Ressurreição, em Valladolid, além da Porta do Campo, um soldado que, por usar a espada como bordão e pela fraqueza das pernas e a palidez do semblante, revelava claramente - embora a temperatura não fosse tão quente - que ele deveria ter transpirado durante vinte dias toda a disposição que, com toda a certeza, adquirira numa só hora. Andava ziguezagueando, tropeçando toda hora, como um convalescente, e, ao transpor o portal da cidade, percebeu aproximar-se em sua direção um amigo a quem não via há mais de meio ano. O amigo, benzendo-se como se visse alguma assombração, aproximou-se e lhe disse:
- O que aconteceu, Senhor Alferes Campuzano? Como é possível que estejais por aqui? Imaginava-o em Flandres, de lança em riste, e não por estas bandas arrastando a espada. Que palidez, que fraqueza é essa?

Campuzano respondeu:
- Se estou ou não nesta terra, senhor Licenciado Peralta, a minha simples presença lhe responde. Quanto às outras perguntas, nada tenho a responder senão que estou saindo daquele hospital onde sofri quatorze suadouros por causa de uma mulher a quem escolhi como minha, quando jamais o deveria ter feito.

- Quer vossa mercê dizer que se casou? - perguntou Peralta.

- Sim - respondeu Campuzano.

- E teria sido por amor? - disse Peralta, acrescentando em seguida:
- Tais casamentos sempre trazem arrependimento.

- Não saberei se foi por amor - respondeu o alferes - embora possa garantir ter sido por amargor, pois do meu casamento, ou cansamento, carrego tais coisas no corpo e na alma que as do corpo, para curá-las, me custaram quarenta suadouros, mas para as da alma não encontro remédio sequer para aliviá-las. Mas você me perdoe; não posso manter longas conversas neste lugar. Qualquer outro dia, com comodidade, contar-lhe-ei minhas aventuras; são as mais novas e originais que vossa mercê terá ouvido em todos os seus longos dias de vida.

- Não será como dizeis - falou o Licenciado -, pois gostaria que venha à minha pousada para ali desabafarmos nossas mágoas. Além disso tenho lá uma comida muito própria para convalescentes. Embora tenha sido preparada para dois, meu criado contentará com um pastel. E se a sua convalescença o permitir, umas fatias de presunto servirão para nos abrir o apetite. A boa vontade com que lhe ofereço, não somente agora, mas todas as vezes quer vossa mercê quiser, fica acima de qualquer dúvida.

Agradeceu-lhe Campuzano, aceitando o convite e as ofertas. Foram ambos a São Llorente, onde ouviram missa e depois Peralta levou o amigo para a sua casa dando-lhe o prometido e insistindo para que repetisse. Mal Campuzano concluíra pediu-lhe Peralta que narrasse os acontecimentos que tanto o haviam abalado. Campuzano não se fez de rogado e pôs-se logo a falar:
- Vossa Mercê bem se lembra, senhor licenciado Peralta, como fui nesta cidade amigo do capitão Pedro de Herrera, que agora vive em Fiandres.

- Bem me lembro - respondeu Peralta.

- Pois um dia - prosseguiu Campuzano -, mal acabávamos a refeição na pousada da Solana onde vivíamos, quando entraram duas mulheres de belo porte, acompanhadas de dois criados. Uma delas pôs-se logo a falar com o capitão, encostados ambos a um canto da janela. A outra sentou-se numa cadeira junto à minha, cobrindo-se com o xale até o pescoço, sem deixar ver o seu rosto mais do que a transparência do xale o permitia. Embora cortesmente lhe suplicasse que se descobrisse, não me foi possível consegui-lo. E para completar a história, fosse de caso pensado ou por simples acaso, ela exibiu suas mãos muito brancas e cobertas de excelentes jóias. Da minha parte, eu estava importantíssimo com aquela grande corrente que vossa mercê terá talvez conhecido, o sombreiro com plumas e cordões, o traje colorido e a arrogância de um militar, tão imponente aos olhos da minha própria vaidade que me considerava a pairar no ar. Mesmo assim, roguei-lhe que descobrisse a face, ao que ela respondeu:
- "Não sejais importuno. Tenho minha casa; fazei com que um pajem me siga, pois embora seja mais honrada do que esta resposta sugere, quero ver se vossa discrição corresponde à vossa galhardia. Só então folgarei que me vejais."

- Beijei-lhe as mãos pela grande mercê com que me contemplava, em troca da qual lhe prometi punhados de ouro. O capitão concluíra sua conversa.

Elas se foram, com seus criados atrás. O capitão me disse que a dama lhe pedira para levar algumas cartas a outro capitão, em Flandres. Dizia serem para um primo, mas ele bem sabia que e a quem obedecer.

- "A quem, juntamente com o arranjo da minha vida, entregarei uma incrível solicitude em agradar e servir. Príncipe algum terá cozinheira mais cuidadosa ou quem melhor saiba fazer um guisado no ponto. Tanto sei dirigir uma casa como orientar uma cozinha ou receber visitas. Na verdade, sei mandar e ser obedecida. Nada desperdiço e muito economizo. O dinheiro não vale menos e sim mais quando gasto sob minha orientação. A roupa branca que é minha, é muita e da melhor, mas não foi adquirida em lojas ou com vendedores ambulantes; estes dedos e os de minhas criadas fizeram-na, e se fosse possível tê-la tecido em casa, assim teríamos feito. Digo isso sem modéstia, pois não há mal algum quando a necessidade nos obriga a dizê-las. Acrescento ainda que procuro marido que me ampare, dirija e honre, e não amante que se aproveite e depois saia por aí falando... Se vossa mercê souber apreciar a prenda que nesse momento se lhe oferece, eis-me aqui a vossa disposição, sujeita a tudo quanto vossa mercê ordenar, e isso sem me pôr em leilão, que é a mesma coisa que andar em língua de casamenteiros. Não há nada para consertar o conjunto, como as suas próprias partes."

Eu, que estava com o juízo não na cabeça mas nos calcanhares, julgando a felicidade ainda maior do que a imaginação me pintava e, oferecendo-se-me tão à mão tal quantidade de bens - já os convertera mentalmente em dinheiro! -, sem mais comentários do que aqueles a que dava lugar à ventura (que me embrulhava o raciocínio), respondi-lhe que me sentia muito alegre e afortunado por haver-me dado o céu, quase por milagre, companheira tal, para fazê-la senhora da minha vontade e dos meus haveres, que não eram tão poucos que não valessem, junto com aquela corrente que trazia no peito e outras joiazinhas que estavam em casa, além das minhas galas de soldados, mais de dois mil ducados, os quais, juntos aos mil e quinhentos dela, formavam quantia mais do que suficiente para vivermos na aldeia onde nasci e ainda possuía alguns bens.

Tais haveres, convertidos em dinheiro, renderiam seus frutos com o tempo, permitindo-nos uma vida alegre e descansada. Em suma, naquelas noites acertamos o nosso casamento e esclarecemos nossa vida de solteiros. E nos próximos três dias de festas que vieram logo pela Páscoa fizeram-se as proclamas e no quarto dia nos casamos, encontrando-se presentes dois amigos meus e um rapaz que dizia ser primo dela.

Tratei-o como se fosse um parente, com amabilidades, como as que eram para o amante. Eu ficara abrasado pelas mãos de neve que havia visto e ansioso pelo rosto que desejava ver. E assim, no dia seguinte, guiado pelo meu criado, fui visitá-la Encontrei uma bela residência e uma mulher de quase trinta anos, a quem reconheci pelas mãos. Não era extremamente bela, mas era-o de modo a poder nos prender pelo tato, pois tinha um tom de voz tão suave e penetrante que ia até a alma. Mantivemos longos e amorosos colóquios. Adulei, garganteei, prometi, dei enfim todas as demonstrações que me pareciam necessárias para me tornar benquisto. Mas ela parecia feita para ouvir semelhantes ou maiores ofertas e discursos. Era toda ouvidos e nenhuma surpresa. Concluindo, nossos colóquios duraram quatro floridos dias.

Continuei a visitá-la sem que chegasse, no entanto, a colher o fruto cobiçado.

- Nos momentos em que a visitei - prosseguiu ele -, encontrei sempre a casa livre; jamais percebi indícios de parentes, reais ou fingidos. Servia-lhe certa moça mais astuta do que simplória. Tratando de meus amores como a um soldado em vésperas de partir, apertei finalmente a senhora Dona Estefânia de Caicedo - é esse o nome de quem assim me deixou - que respondeu:
- "Tola seria eu, senhor alferes Campuzano, se quisesse me vender a vossa mercê por santa. Pecadora tenho sido e ainda sou, embora não tanto que os vizinhos cochichem e os empregados comentem. Nem de meus parentes herdei coisa alguma, mas apesar disso, o que tenho aqui em casa vale - bem contados - dois mil e quinhentos escudos. E isto em coisas que, vendidas, se converterão em bom dinheiro. Com essa fortuna procuro marido a quem entregar-me até então ele dirigira à minha nova esposa. Falava porém com intenção tão falsa e hipócrita que prefiro ficar calado. Embora esteja dizendo apenas verdades, não são verdades de confessionário, dessas que não podem deixar de ser ditas.

O criado conduziu meu baú da pousada para a casa da minha mulher. Enfiei nele, diante dela, minha esplêndida corrente, mostrando-lhe outras três ou quatro não do mesmo tamanho, porém na melhor qualidade possível, assim como três ou quatro cintos de diversos tipos. Mostrei-lhe também as roupas e os chapéus e entreguei-lhe os quatrocentos reais que possuía para as despesas da casa. Seis dias desfrutei calmamente a lua-de-mel, como genro pobre em casa de sogro rico.

Pisei caros tapetes, amassei colchas da Holanda, iluminei-me com candelabros de prata. Almoçava na cama, levantando-me às onze horas, comendo às doze e sesteando às duas. Dona Estefânia e a criada excediam-se em agrados e cuidados. Meu criado, que até ali fora lerdo e preguiçoso, tornara-se num azougue. Os momentos que Dona Estefânia não passava ao meu lado, era fácil encontrá-la na cozinha, toda solícita em ordenar guisados que me despertassem o gosto e avivassem o apetite. Minhas camisas, colarinhos. e lenços, pelo perfume que exalavam, pareciam um novo Aranjuez de flores, banhados que eram em água de flor de laranjeira.

Dias que passaram voando como os anos sob o império do tempo. Por ver-me tão regalado e bem servido, transformara-se em boa a má reputação com que começara aquele negócio. Ao fim deles, certa manhã - quando ainda no leito de Dona Estefânia - ouviram-se grandes batidas na porta. Ouvi a criada dizer, assomando à janela:
- Ah! Seja bem-vinda! Vejam só, chegou antes do que dizia na sua carta...

- Quem é que chegou, mulher? - perguntei.

- Quem? - respondeu ela. - Minha Senhora Dona Clementa Bueso. Acompanhada por Dom Lope Melendez de Armendárez, dois criados e Hortigosa, a ama.

- Corra, mulher, e vai abrir a porta, que eu já vou - disse Dona Estefânia à criada, que parara sem saber que atitude tomar. - E vós, senhor, pelo amor que me tendes, não os assusteis nem respondais em meu nome à coisa alguma que contra mim ouvires.

- Mas quem vos ofenderá, ainda mais em minha presença? Dizei: que gente é essa que tanto alarma vos causa?

- Não tenho tempo para vos responder - disse Dona Estefânia -, sabei somente que tudo o que aqui se passar será fingido e visa a certo desígnio, o qual sabê-lo-eis depois.

Quis replicar-lhe, mas a senhora Dona Clementa Bueso não permitiu, pois entrou no quarto arrastando a cauda do longo vestido verde todo enfeitado com cordões de ouro, capinha da mesma qualidade, chapéu de plumas verdes, brancas e vermelhas, e um rico cinto de ouro. Metade do rosto vinha oculto por um véu leve. Em sua companhia entrou o Senhor Dom Lope Melendez de Almendárez, não menos bizarro nem menos ricamente paramentado.

Dona Hortigosa foi a primeira a falar, exclamando:
- Meu Deus! O que é isto? Ocupando o leito da Senhora Clementa, e além disso, com um homem? Estou vendo milagres hoje nesta casa! Não há dúvida de que Dona Estefânia tomou o pé pela mão e abusou da amizade da minha senhora!

- Tendes razão, Dona Hortigosa, mas a culpa é minha. Não devia me aborrecer arranjando amigas que só o sabem ser quando lhes interessam!

A tudo isso, Dona Estefânia respondeu:
- Não fique aborrecida, Dona Clementa Bueso, e acredite que não é sem mistério que a senhora vê estas coisas em sua casa. Quando ficar sabendo do que realmente aconteceu, tenho certeza que haverá de me desculpar e não haverá de sua parte nenhum motivo de queixa.

A esta altura eu já vestira as calças e a camisa e Dona Estefânia me tomou pelo braço e me levou para o outro quarto e ali me disse que aquela sua amiga pretendia enganar Dom Lope, com quem pretendia se casar. Que o engano era dar-lhe a entender que aquela casa e tudo quanto nela estava lhe pertencia e disso tudo ela faria seu dote. Assim que se realizasse o casamento, pouco se lhe dava que descobrissem o engano, confiada como estava no grande amor de Dom Lope.
- E logo ela me devolverá tudo. Não se pode levá-la a mal nem a nenhuma outra mulher que procure marido honrado, embora por meios escusos.

Respondi-lhe que era uma prova de grande amizade o que pretendia fazer, e que primeiro pensasse bem porque poderia, depois, sem ter necessidade, necessitar da justiça para readquirir seus bens. Mas ela respondeu com tanta e tais razões, mostrando quantas coisas obrigavam-na a servir Dona Clementa - coisas de pouca importância, era verdade - que, embora de má vontade e com remorso, concordei com a vontade de Dona Estefânia. Assegurou-me ela que o engano duraria oito dias, durante os quais ficaríamos em casa de outra amiga sua.

Acabamos de nos vestir e logo, despedindo-se de Dona Clementa Bueso e do Senhor Lope Melendez de Almendárez, disse a meu criado que carregasse o baú e a seguisse. Também eu a segui, sem me despedir de ninguém.

Dona Estefânia parou em casa de uma amiga e, antes que entrássemos, esteve lá dentro um bom tempo, falando com ela. Depois apareceu uma criada mandando que entrássemos - eu e o criado. Levou-nos a um pequeno aposento, no qual havia duas camas tão juntas uma da outra que pareciam uma só. Não havia espaço para separá-las; as cobertas pareciam beijar-se. Ali permanecemos durante seis dias e em todos eles não passou uma hora em que não tivéssemos alguma discussão.

Dizia-lhe da loucura que fizera em deixar sua casa e pertences, embora fosse para a própria mãe. Durante as discussões, ela ia e vinha pelo quarto, tanto que a dona da casa, um dia em que Dona Estefânia fora ver em que pé estavam as coisas, quis saber qual a causa que me levava a discutir tanto com ela e o que fizera que tanto a ofendia, sobretudo insistindo em dizer que fora uma notável loucura e não um perfeita amizade o que a levara a fazer o que fez.

Contei-lhe toda a história, falei que me casara com Dona Estefânia e do dote que ela trouxera. Quando lhe disse da grande tolice que fizera em deixar a casa e pertences à Dona Clementa, embora com a boa intenção de conseguir um marido do quilate de Dom Lope, começou ela a benzer-se e a persignar-se com tanta agitação e com tantos ai! Jesus! ai! Jesus!... Que não pude deixar de ficar perturbado.

Ela então me disse:
- "Senhor Alferes: não sei se vou contra a minha consciência ao contar-lhe o que também nela pesaria se eu permanecesse calada. Mas, por Deus e pelo destino, seja lá o que for, viva a verdade e morra a mentira! A verdade é que Dona Clementa Bueso é a verdadeira dona da casa e dos pertences que lhe deram como dote. Mentira foi tudo quanto lhe contou Dona Estefânia. Ela não possui casa nem bens, nem outro vestido a não ser aquele que trás no corpo. E, para tornar visível esse logro, foi que Dona Clementa andou visitando parentes seus em Placêncio e dali esteve fazendo uma novena para Nossa Senhora de Guadalupe. Neste espaço de tempo deixou Dona Estefânia cuidando de sua casa, pois são realmente grandes amigas. Claro que não se deve culpar a pobre mulher, pois soube arranjar para marido uma pessoa como o senhor Alferes."

Aqui ela deu fim à conversa e dei princípio eu ao meu desespero, e sem dúvida o teria prolongado se o meu anjo da guarda não acudisse, dizendo ao meu coração para não esquecer que eu era cristão e que o maior pecado dos homens era o desespero por ser o pecado dos demônios.

Esta consideração, ou boa inspiração, confortou-me um pouco, mas não tanto que deixasse de apanhar a capa e a espada e saísse à procura de Dona Estefânia, com a intenção de lhe dar um castigo exemplar.

A sorte porém, que não saberei dizer se melhorava ou piorava as coisas, ordenou que em nenhum lugar onde pensava encontrá-la, ela estivesse.

Fui a São Llorente e encomendei-me a Nossa Senhora; sentei-me depois num banco e com o desgosto fui tomado por um sono tão pesado que não despertaria tão cedo se não me sacudissem. Fui cheio de pensamentos e de aflições à casa de Dona Clementa e encontrei-a tão à vontade como senhora que era dos seus próprios bens; não ousei dizer-lhe nada porque Dom Lope estava presente.

Voltei à casa da minha hospedeira que me disse haver contado a Dona Estefânia como eu já sabia de toda a sua hipocrisia e falsidade e que ela lhe havia perguntado que cara fizera eu com a notícia. Havia-lhe respondido que uma cara muito má e que, segundo o seu modo de ver, eu saíra a procurá-la com más intenções e piores determinações.

Finalmente disse que Dona Estefânia carregara com tudo que estivesse no baú, sem nele deixar uma só peça de roupa sequer. Aqui foi que a coisa se deu! Aqui teve-me Deus de novo em suas mãos. Fui ver o baú, encontrando-o aberto, como um túmulo à espera do cadáver. Com boas razões seria o meu, se tivesse calma para sentir e ponderar tamanha desgraça...

- Bem esperta ela foi - disse, neste momento, o Licenciado Peralta - por haver Dona Estefânia levado tanta corrente e tantos cintos pois, como se diz, todos os enterros...

- Esta falta nenhuma pena me deu - respondeu o alferes -, pois também poderei dizer: "Pensou Dom Simueque que me enganava com sua filha caolha e, por Deus, coxo sou eu de um lado..."

- Não sei a que propósito pode vossa mercê dizer isso - respondeu Peralta.

- O propósito - disse o alferes - é de que aquele embrulho e aparato de correntes, cintos e brincos poderia valer quando muito dez ou doze escudos.

- Não é possível - disse o licenciado -, porque a corrente que o senhor trazia no pescoço parecia pesar mais de duzentos ducados.

- Assim seria - respondeu o alferes - se a verdade fosse o que a aparência mostrava; mas como nem tudo que reluz é ouro, as correntes, os cintos e as jóias e os brincos não passavam de imitações. Estavam tão bem feitas que somente o toque ou o fogo poderiam descobrir sua qualidade.

- Assim - disse o licenciado -, entre vossa mercê e a Senhora Dona Estefânia, o jogo ficou empatado?

- E tão empatado - respondeu o alferes - que poderíamos embaralhar as cartas de novo. Mas o estrago está em que ela poderá se desfazer das minhas correntes e eu não do laço em que caí. Sim, porque embora muito me pese, ela é minha mulher.

- Dai graças a Deus, senhor Campuzano - disse Peralta -, que ela se foi e que não estais obrigado a ir buscá-la.

- Assim é - respondeu o alferes. - Porém, com isso tudo, embora não a procure, tenho-a sempre no pensamento, e onde quer que ela esteja está presente a desonra.

- Não sei o que responder - disse Peralta - a não ser lhe trazer à memória dois versos de Petrarca:
"Chi chi prende diletto di far frode
Non sidé lamentar saltri linganna."

O que significa em nossa língua:
 "Aquele que tem o costume e o gosto de enganar a outros,
Não deve queixar-se quando é enganado."

- Não me queixo - respondeu o alferes -, e sim lamento, pois o culpado, nem por reconhecer a culpa, deixa de sentir pena do castigo. Bem sei que tentei enganar e fui enganado, feriram-me com as minhas próprias armas, mas não posso permitir que tais sentimentos deixem de vir à tona. Finalmente o que mais importa no meu romance - que tal nome se pode dar à narrativa das minhas aventuras - é ter sabido que Estefânia se fora com o primo, o mesmo que se encontrava em nosso casamento e tempos atrás fora seu amigo para todas as coisas. Não quis procurá-la para não encontrar o mal que me faltava. Mudei de pousada e de cabelo em poucos dias, começaram a cair-me os pêlos das sobrancelhas e dos cílios antes do tempo: arrumaram-me uma doença que chama calvície. Achei-me deveras limpo: não possuía nem cabelos para pentear nem dinheiro para gastar. A enfermidade caminhou ao mesmo passo da minha miséria, e como a pobreza atropela a honra e a uns leva à forca outros ao hospital e a outros ainda os faz bater nas portas dos seus inimigos com pedidos e súplicas, o que é uma das maiores desgraças que pode acontecer a qualquer infeliz, e por não ter podido cuidar das roupas que me protegeriam e assegurariam a saúde, ao chegar o tempo em que se dão os suadouros no Hospital da Ressurreição para ele me dirigi e nele tomei quarenta suadouros. Dizem que ficarei curado, se me tratar. Espada ainda possuo; o resto Deus irá de remediar.
Miguel de Cervantes


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