A Poesia me Chama



A poesia me chama
Entre as árvores de folhas incompletas.

O vento é frio,
Apesar de terno.

Corvos mancham o azul sem luz
Desta noite que não começa.

O trem também me chama
E não vou.

Sou tragada por faíscas incandescentes
Que parecem detonar fogos de artifícios
Causando implosão,
Carvão ardente

O trem parou! Indecente me chama
E não vou.
Rose Mary Sadalla

Oração Do Amor



Dá-me, Senhor,
A sabedoria de ficar calada
Quando meu coração quer gritar ao mundo
A verdade que somente tu sabes qual é
E que não me desonra.

Senhor,
Ilumina meus olhos
Para que eu veja os defeitos
Da minha alma e venda-os para
Que eu não comente
Os defeitos alheios.

Senhor,
Leva de mim a tristeza
E não a entregueis a mais ninguém...
Enche meu coração com a divina fé,
Para sempre louvar o vosso nome
E arranca de mim o orgulho e presunção.

Senhor,
Faze de mim um ser humano realmente justo...
Dá-me a esperança de vencer
Minhas ilusões todas.

Planta em meu coração
A sementeira do amor
E ajuda-me a fazer feliz
O maior número possível de pessoas,
Para ampliar seus dias risonhos
E resumir suas noites tristonhas...

Transforma
Meus rivais em companheiros,
Meus companheiros em amigos
E meus amigos em entes queridos...

Não permita
Que eu seja um cordeiro
Perante os fortes
Nem um leão perante os fracos...

Dá-me, Senhor,
O sabor de perdoar
E afasta de mim o desejo de vingança,
Mantendo sempre em meu coração
Somente o amor.
Rose Mary Sadalla

Atire a Primeira Flor


Quando tudo for pedra...
Atire a primeira flor.
Quando tudo parecer caminhar errado,
Seja você a tentar o primeiro passo certo.
Se tudo parecer escuro, se nada puder ser visto,
Acenda você a primeira luz.
Traga para a treva você primeiro a pequena lâmpada.

Quando todos estiverem chorando,
Tente você o primeiro sorriso.
Talvez não na forma de lábios sorridentes,
Mas na de um coração que compreenda,
De braços que confortem.

Se a vida inteira for um imenso não,
Não pare você na busca do primeiro sim,
Ao qual tudo de positivo deverá seguir-se.

Quando ninguém souber coisa alguma
E você souber um pouquinho,
Seja o primeiro a ensinar.
Começando por aprender você mesmo,
Corrigindo-se a si mesmo.

Quando alguém estiver angustiado,
A procura nem sabendo o que,
Consulte bem o que se passa.
Talvez seja em busca de você mesmo que este seu irmão esteja.
Daí, portanto, você deve ser o primeiro a aparecer,
O primeiro a mostrar que pode ser o único
E mais sério ainda talvez o último.

Quando a terra estiver seca
Que sua mão seja a primeira a regá-la.
Quando a flor se sufocar na urze e no espinho,
Que sua mão seja a primeira a separar o joio,
A arrancar a praga,
A afagar a pétala,
A acariciar a flor.

Se a porta estiver fechada
Dê você venha a primeira chave.
Se o vento sopra frio,
Que o calor de sua lareira
Seja a primeira proteção e primeiro abrigo.

Se o pão for apenas massa e não estiver cozido,
Seja você o primeiro forno para transformá-lo em alimento.

Não atire a primeira pedra em quem erra.
De acusadores, o mundo esta cheio.
Nem por outro lado, aplauda o erro,
Dentro em pouco a ovação será ensurdecedora.

Ofereça sua mão primeiro para levantar quem caiu.
Sua atenção primeiro para aquele que foi esquecido,
Seja você o primeiro para aquele que não tem ninguém.

Quando tudo for espinho
Atire a primeira flor,
Seja o primeiro a mostrar que há caminho de volta.

Compreendendo que o perdão regenera,
Que a compreensão edifica,
Que o auxilio possibilita,
Que o entendimento reconstrói.
Atire você,
Quando tudo for pedra,
A primeira e decisiva flor...
Rose Mary Sadalla

Fui Pedir um Sonho ao Jardim dos Mortos



Fui pedir um sonho ao jardim dos mortos.
Quis pedi-lo, aos vivos. Disseram-me que não.
Os mortos não sabem, lá onde é que estão,
Que neles se enfeitam os meus braços tortos.

Os mortos dormiam... Passei-lhes ao lado.
Arranquei-lhes tudo, tudo quanto pude;
Páginas intactas - um livro fechado
Em cada ataúde.

Ai as pedras raras! As pedras preciosas!
Relâmpagos verdes por baixo do mar!
A sombra, o perfume dos cravos, das rosas
Que os dedos, já hirtos, teimavam guardar!

Minha alma é um cadáver pálido, desfeito.
As suas ossadas
Quem sabe onde estão?
Trago as mãos cruzadas,
Pesam-me no peito.
Quem sabe se a lama onde hoje me deito
Dará flor aos vivos que dizem que não?
Pedro Homem de Mello
Fotografia de Elena Kalis
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