Abandono



A vida ficou de repente apática e desinteressada
Como se pretendesse descer na próxima parada.

Abafou os sons que costumava ouvir
Com medo de sentir saudade.

Baixou os toldos sobre a claridade
Para que o brilho do dia não arranhasse a solidão.

Preferia permanecer quieta e sombria.
Guardou o açúcar...
Como se quisesse impedir o doce de mesclar o fel
Que, porventura, houvesse.

Sensações e sentimentos devidamente amordaçados,
Rabiscou no papel seu breve recado:
Saí para almoço.
Pretendo voltar...
Não sei se posso.
Seja, por favor, condescendente.
Quando o amor não está,
É costume da vida suspender o expediente.
Flora Figueiredo

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