Ainda Sou Uma Menina



Dentro de mim,
Ainda sou aquela menina assustada com a chuva forte
Que em novembro derruba todas as mangas da minha rua.

Ainda corro pela rua descalça.
Ainda brinco de fazer comidinha com terra e mamão verde.
Ah, e adoro pular elástico.
Sempre fui muito boa nisso.
Pular corda.
Brincar de escolinha no imenso quadro negro na garagem.
Eu ainda ando de patins nas férias e sinto aquele frio na barriga
Quando vamos de bicicleta à pista de motocross.

Por dentro, sou isso.
Aquela menina que conta os dias pra viajar para a casa da vó.
E depois conta os dias pro início das aulas,
Pra estrear o caderno novo,
Pra matar saudades das amiguinhas.

Sim,
Ainda tenho medo de levar bronca do pai.
Ainda corro entre sorrisos pros seus braços
Pra contar sobre minhas conquistas.
E quando ele não me deixa fazer o que quero,
Ainda apelo pro doce coração de minha mãe.

A menina me habita.
Mesmo que as árvores tenham sido cortadas,
Mesmo que a casa for vendida,
Mesmo que por fora eu não me pareça mais com aquela menina.
Isso me pertence.
Isso sou.

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