Reza de Mãe



Nem imagino onde eles estão agora.
Era mais fácil quando vestiam o pijama
E pediam a história do elefante azul.

Parece que restou um cheirinho de talco na almofada do quarto;
Deve ser só impressão...

Nesse tempo, eu não tinha medo da noite...
Ela era o telhado dos poetas;
As sombras eram apenas a franja mal aparada dos anjos.
A trava na porta me bastava.

Hoje, as camas vazias me assustam.
Elas acusam o passar das horas
E denunciam a revoada dos pardais...
Os meus pardais.

Já não posso abrir minhas asas sobre eles.
São pequenas demais para cobri-los,
Frágeis demais para defendê-los.

Ainda bem que me resta a prece,
Minha aliada nos dias de nuvens
E nas madrugadas sem fim.

Peço perdão pela insistência,
Mas reza de mãe é assim mesmo:
Pura perseverança.

Que Deus abençoe minhas crianças
De barba na cara e calçado quarenta e dois
(o resto na vida é secundário e fica pra depois);

Que as ilumine com Seu sorriso e, se preciso,
Acione Seu séquito de estrelas
(se tiver que usá-las, prometo devolvê-las).

E quando o cansaço me quiser já recolhida,
Hei de poder sorrir pela missão cumprida.
Flora Figueiredo

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