A Era do Ego



Um escritor, vaidoso, como costumam ser alguns escritores, está conversando com um amigo.
Fala sem parar sobre o seu tema preferido: ele próprio.
Fala, fala, até que, de repente, ele se dá conta de que aquilo não é justo.
- Só falamos de mim?
Diz ele.
- Vamos falar um pouco de você.
E pergunta:
- O que você acha da minha obra?

O anônimo escritor não é um caso isolado. O pronome “eu” está cada vez mais presente em livros, em blogs, em artigos, na ficção. O tradicional narrador onisciente que falava na terceira pessoa foi pro espaço. Uma tendência, que é bom ressaltar, não vem de hoje. Ela faz parte da História, com H maiúsculo.

A modernidade vê o despertar do eu. A noção de indivíduo, afirma cada vez mais, e é reforçada por um sistema econômico que privilegia a iniciativa privada. Nesse projeto, dá testemunho, um objeto que se torna cada muito popular... “O Espelho”.

Todo mundo quer ter espelho. Todo mundo cultiva a própria imagem. Desaparece o anonimato na arte, na literatura...
Autores de textos, como o Antigo Testamento eram desconhecidos. E o mesmo sucedia com as obras de arte que figuravam nas igrejas.
Agora não.
Agora os autores querem ser conhecidos, prestigiados, e, se possível, bem pagos.

Segundo Freud, que adorava a ficção, criou três míticos personagens para explicar o funcionamento do nosso psiquismo.
O Id, que corresponde aos nossos instintos;
O Ego, que somos nós mesmos, ou a imagem que de nós fazemos;
E o Super Ego, que corresponde aos dispositivos morais que nos guiam.

Ao longo da história da humanidade, cada uma dessas figuras teve seu período de predominância.

A começar pelo “Id”, o “Troglodita”.
O homem das cavernas era guiado pelos dois instintos básicos. O instinto de sobrevivência, e o instinto da reprodução. Faria o que pudesse para conseguir comida e fêmeas. Inclusive, mataria os seus competidores, sem o menor problema.

Mas à medida que a vida social foi se desenvolvendo, este estilo se se conseguir as coisas revelou-se contraproducente, quando não perigoso. Tornava-se necessário um jeito de conter a violência.
É então, que emerge o “Super Ego”.

A melhor representação do “Super Ego” é a “Divindade”, sobretudo o Deus do Monoteísmo, o Deus barbudo, poderoso, o Deus que vê tudo, sabe tudo, o Deus que castiga o mau e recompensa o bem. É o Deus das três grandes religiões – Judaísmo, Cristianismo, Islamismo – e consolidou-se na Idade Média.

Ego, Super Ego, Id...
O cenário para a grande encenação de nossas vidas está armado. E nele, o Ego será o ator principal.

A irrupção do individualismo tem seu preço.
O Ego triunfa, ocupa espaço, precisa, porém, civilizar-se. Exibir-se sim, mas ao menos fingindo cortesia.
- “Vamos falar um pouco de você.”
O Id, agora reprimido, protesta.
O Super Ego, por sua vez, continua fazendo exigências religiosas, morais...
Resultado.
Conflito. Triste conflito.

Não por acaso, a modernidade nasce melancólica.
Não por acaso, a depressão é cada vez mais frequente.
E não por acaso, surge a psicanálise.
O “Divã” e o “Prozac” são as muletas terapêuticas do Ego.
O mundo, às vezes, é pequeno para tanto “Eu”, para a epidemia de narcisismo.

E como é que a gente lida com essa situação?
Devemos negar o nosso “Eu”?
Devemos sumir no grupo, na comunidade, na multidão?
De jeito nenhum.

A emergência do “Eu” resultou da evolução da humanidade. É um sinal de progresso, e de progresso irresistível.

Tudo que a gente precisa fazer é modular o nosso “Eu”.
É sintonizá-lo com outros “Eus”.
“Eu” tem de soar como “Nós”.

Se ao falarmos de nós próprios traduzimos sentimentos, idéias e emoções que podem ser partilhados pelos outros, estaremos nos valorizando sem desvalorizar nossos semelhantes.

Fácil de dizer. Difícil de fazer.
Ponderarão vocês.
Verdade.
Mas com a prática a gente aprende. Como aprenderia o escritor de nossa historinha, se tivesse tempo e humildade suficientes.

Moacyr Scliar
Do livro Contos e Crônicas para Ler na Escola


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