Ás Margens do Rio Piedra


Ás margens do rio Piedra
Eu me sentei e chorei.

Conta a lenda que tudo que cai nas águas deste rio...
As folhas, os insetos, as penas das aves...
Se transforma nas pedras do seu leito.

Ah!
Quem dera eu pudesse arrancar o coração do meu peito
E atirá-lo na correnteza,
E então não haveria mais dor,
Nem saudade,
Nem lembranças.

Ás margens do rio Piedra
Eu me sentei e chorei.

O frio do inverno
Fez com que eu sentisse as lágrimas em meu rosto,
E elas se misturaram com as águas geladas
Que correm diante de mim.

Em algum lugar este rio se junta com outro,
Depois com outro,
Até que,
Distante dos meus olhos e do meu coração
Todas estas águas se misturam com o mar.

Que as minhas lágrimas corram assim para bem longe,
Para que meu amor nunca saiba que um dia chorei por ele.
Que minhas lágrimas corram para bem longe,
E então eu me esquecerei do rio Piedra,
Do mosteiro,
Da igreja nos Pirineus,
Da bruma,
Dos caminhos que percorremos juntos.

Eu esquecerei as estradas,
As montanhas,
E os campos de meus sonhos...

Sonhos que eram meus,
E que eu não conhecia.
Paulo Coelho

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