Soneto do Cativo



Se é sem dúvida Amor esta explosão
De tantas sensações contraditórias;
A sórdida mistura das memórias
Tão longe da verdade e da invenção;
O espelho deformante;
A profusão de frases insensatas, incensórias;
A cúmplice partilha nas histórias
Do que outros dirão ou não dirão;

Se é sem dúvida Amor a covardia
De buscar nos lençóis a mais sombria
Razão de encantamento e de desprezo;
Não há dúvida, Amor, que de te não fujo,
E que, por ti,
Tão cego, surdo e sujo,
Tenho vivido eternamente preso!
David Mourão Ferreira

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