Amor e Posse



Não confundas o amor com o delírio da posse,
Que acarreta os piores sofrimentos.
Porque, contrariamente à opinião comum,
O amor não faz sofrer.

O instinto de posse,
Que é o contrário do amor,
Esse é que faz sofrer.

Por eu amar a Deus,
Saio pela estrada fora,
Mancando penosamente para o levar aos outros homens.
E não reduzo o meu Deus à escravidão.
E sou alimentado com o que ele dá a outros.

Eu sei assim reconhecer aquele que ama verdadeiramente:
É que ele não pode ser prejudicado.
E o império não pode prejudicar aquele que morre pelo império.

Pode-se falar da ingratidão deste ou daquele,
Mas quem te falaria da ingratidão do império?
O império é construído por teus sacrifícios.
Que aritmética sórdida pretendes introduzir,
Se te preocupas com uma homenagem prestada por ele?

Aquele que deu a vida ao templo e se trocou pelo templo,
Amava verdadeiramente.
Poderia sentir-se de alguma forma prejudicado pelo templo?
O amor verdadeiro começa onde não espera mais nada em troca.

E, se o exercício da oração se revela tão importante
Por ensinar ao homem o amor aos homens,
É porque não há nele resposta alguma.

Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela"

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