Paz



Meditei muito tempo sobre o sentido da paz.
A paz só vem dos filhos nascidos,
das colheitas feitas,
da casa até que enfim arrumada.

A paz nos vem da eternidade,
em que ingressam as coisas acabadas, perfeitas.

Paz dos celeiros cheios,
das ovelhas que dormem,
dos lençóis dobrados,
paz que apenas da perfeição nasce,
paz do que se torna oferenda a Deus,
uma vez bem feito.
...

A paz é árvore que leva tempo para brotar.
Temos, como acontece com o cedro,
de aspirar ainda muito cascalho para lhe fundar a unidade...

Construir a paz
é construir o estábulo bastante grande
para que todo o rebanho ali possa dormir.

É construir o palácio com umas dimensões tais,
que todos os homens ali possam caber,
sem ter de abandonar seja o que for das bagagens.
Não se trata de os amputar para os colocar lá dentro.

Construir a paz é
conseguir que Deus empreste o seu manto de pastor
para receber os homens em toda a planície dos seus desejos.

É o que se verifica com a mãe que ama os filhos.
Ama aquele lá, tímido e terno.
Ama aquele outro ardente e vivo.
Ama aquele outro talvez corcunda, fraco e desajeitado.
E todos eles,
Na diversidade do seu amor,
servem a sua glória.

Mas a paz é árvore que leva tempo a construir.
É preciso mais luz do que aquela de que eu disponho.
E,mesmo assim, nada é ainda evidente.
E eu escolho e rejeito.
Seria fácil demais fazer a paz,
se eles já fossem semelhantes.

Antoine de Saint-Exupéry,  in Cidadela

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