A Estátua



Certo dia, um escultor resolveu fazer em pedra sabão, uma obra de acordo com o que a sua esquizofrenia ditava. Suas mãos trabalharam a pedra, até que ela se transformasse em algo indefinível.

Orgulhoso de seu trabalho, ele a colocou em um pedestal e a levou para o centro da cidade no meio da noite, para que ninguém pudesse ver de quem era a autoria daquela obra prima. E ficou ali, admirando-a, até que os primeiros raios de sol tocaram-na.

Nesse momento, sentiu uma felicidade imensa. E pensou:
- Nossa! Como estou feliz em ter feito esta linda estátua e a ter colocado neste lugar, no centro dessa praça, onde as crianças que por ali brincam depois da escola, e outras pessoas a caminho do trabalho e do comércio, sempre poderão admirá-la, assim como eu. Mas não vou assinar minha obra prima. As pessoas que aqui vivem são incapazes de reconhecer a minha genialidade! Me chamam de louco! Mas vou entalhar neste pedestal o que sinto ao ver tamanha obra prima. E rapidamente escreveu:
“Este é o retrato da felicidade.”

Pouco tempo depois, passaram por ali, algumas mulheres com seus terços na mão, concentradas, rezando... E quando se depararam com a estátua... Pararam, olharam, e umas disseram umas para as outras:
- Que coisa esquisita!
- Olha! O retrato da felicidade!
E todas acharam graça e se puseram a rir, dando gargalhadas.

Outras pessoas que por ali passavam, vendo as mulheres rindo, felizes, também paravam e admiravam a estátua. Faziam piadas e observações espirituosas. E todos riam mais ainda.

O escultor, ao longe, observava atentamente, e ao ver a reação dos que ali passavam, ficou imensamente feliz.

As crianças da escola, as pessoas que passavam para ir ao banco ou comercio, ali paravam , olhavam, diziam coisas, riam, e de lá partiam levando consigo todo aquele sentimento de alegria. Até os mais rancorosos mudavam sua expressão diante daquela imagem da estátua. Ninguém reclamava de sua presença ali, no centro da pequena praça.

Havia uma senhora, devota da igreja, que certo dia passou, deixou flores aos pés da tal felicidade disse:
- Já sei quem é você! É a Santa Maria Madalena Arrependida! Exemplo de arrependimento e transformação para os pecadores.
Assim como Jesus a perdoou, peço que interceda junto a Ele, para que meu filho se arrependa de seus pecados, e pare de beber e consiga um bom emprego!

E tamanha foi a fé, que começaram os milagres. Todos os dias, as pessoas procuravam estar na presença da estátua. Faziam seus pedidos, sorriam, e de lá saiam carregados de felicidade e esperança.

Três anos se passaram.

Já escurecendo, o escultor passou por ali e olhou a estátua um pouco enegrecida pelo pó, sol, chuva e pelo tempo, e disse:
- Coisa feia! Você se parece é com a maldade!
E apagou o nome de felicidade e colocou:
“Este é o retrato da maldade.”

No dia seguinte, a senhora das flores por ali passando, deu um grito e disse:
-Roubaram a Maria Madalena e no lugar dela, colocaram uma bruxa chamada maldade! E chorou bem alto.

E as pessoas que a rodearam, ao ver em entalhado o novo nome da estátua, disseram:
- É mesmo! Que estátua feia! Isso veio do inferno! O que fizeram com a nossa felicidade?

Era a mesma estátua, só mudara de nome. Mas agora, a estátua não provocava sorrisos. As pessoas a sua volta se sentiam tristes e raivosos. E disseram:
- A outra estátua era engraçada! Mas esta! Que feia! Está denegrindo a nossa praça! Ah se eu descubro quem roubou a nossa bela estátua! Esta coisa aqui, maldade, merece ser destruída!

Não demorou muito para que conseguissem picaretas, e naquele mesmo instante, a estátua se transformou em monte de pedras onde todos cuspiam, jogavam lixo e mal diziam.

Não mais se reuniam e nem conversavam... Alguns até, por ali passavam correndo... Outros se benziam... Até davam voltas... E a cidade nunca mais foi a mesma. Aquele monte de pedras, agora era o símbolo da maldade.

Moral da história...
As coisas são aquilo que vemos nela, e o que vemos é o que somos.
Se olharmos o que está a nossa volta com maldade, nunca veremos que a felicidade pode estar bem na nossa frente.
Sol Corradi

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