Sobre os Limites



Fazer uma reflexão sobre a importância dos limites, considerando-o como aspecto fundamental na vida de todos os seres humanos e, sobretudo na educação infantil, implica na consideração de vários fatores envolvidos.

Um deles refere-se a presença do sentimento de frustração, nas situações onde a realidade se apresenta impondo restrições e limites. Frente a frustração são experimentados sentimentos de dor, raiva, contrariedade e ódio.

Observamos que muitas vezes a tendência das pessoas é de não reconhecer esses sentimentos e tentar negar a realidade ou mesmo fugir e fingir que nada ocorre; outras se sentem mais capazes de entrar em contato com essas vivências e a partir delas encontrar alternativas. Fato que demanda um certo amadurecimento.

O sentimento de frustração pode tornar-se muito freqüente em função do desejo da criança que é ilimitado e não leva ainda em conta os aspectos da realidade. É característica da natureza do desejo que este seja ilimitado, desmedido impregnado por fantasias de tudo querer e de tudo poder. Só com o desenvolvimento e com a ajuda do adulto é que a criança pode ir aprendendo a restringir certas vontades, a trocar uma coisa por outra, a aceitar que existe uma hora para cada atividade e que mesmo que algo seja prazeroso, em certo momento pode precisar ser deixado de lado e substituído por outra coisa.

Este é também um aspecto bastante importante a ser considerado, que é o da onipotência dos pensamentos, fantasias e desejos infantis. A criança imagina que de fato é toda poderosa e fica muito assustada com a força e intensidade que seus sentimentos podem ter. Se por exemplo esta hostil pode imaginar que a sua raiva pode atingir a mãe de forma destrutiva e arrasadora e como conseqüência pode sentir-se culpada e deprimida. O sentimento de culpa também indica que a mãe que naquele momento esta sendo tão odiada também é a mãe amada da qual a criança depende e nutre fortes sentimentos amorosos. Na fantasia da criança o amor que também é vivido intensamente pode ser expresso como voracidade; vontade de sugar a mãe toda para dentro de si e mantê-la presa e sob controle.

É importante ressaltar que estamos falando de mecanismos mentais bastante primitivos, no sentido de que fazem parte dos primórdios da vida psíquica. Faz parte desse começo esta forma indiscriminada de lidar com o mundo interno e com o externo, com o que é fantasia e o que è realidade. A criança desta forma dá asas a sua onipotência, pois não esta ainda habituada a confrontar seu mundo de fantasias com a realidade e com os fatos. Pois a realidade indica que ela é um ser bastante dependente, precisa da permissão dos pais para quase tudo, seu poder de decisão é bastante restrito e tem pouca autonomia.

Temos observado que a brincadeira e a dramatização são formas úteis onde a criança pode expressar seus desejos de imitar o adulto e de exercitar o seu "poder" sem conseqüências danosas para ela. Neste sentido a escola pode ter uma função muito importante, pois se torna um lugar privilegiado para este aprendizado, na medida em que a criança passa pela "socialização" onde todas estas experiências estarão presentes.

Por todas estas razões, este é um processo lento, bastante trabalhoso, pois implica em renúncias. Não é fácil para a criança e nem para o adulto abandonar algo conhecido e prazeroso. Freud, em seu artigo "Os dois princípios do funcionamento mental" nos esclarece quanto a estas questões. Descreve dois modos pelo qual o aparelho mental funciona. O primeiro é regido pelo princípio de prazer/ desprazer; o outro pelo princípio da realidade.

No primeiro modo o que predomina é a busca do prazer a qualquer custo e este é conseguido através da descarga de qualquer aumento de tensão. Se a criança esta com raiva do amigo, vai lá e empurra, chuta, bate ou morde. Dessa forma se vê temporariamente livre do desconforto do aumento de tensão interna através deste tipo de descarga motora e corporal.

No segundo modo, o que se considera é a realidade. Está em jogo também a possibilidade de antecipar a ação através do pensamento. A criança já pode considerar o amigo de outra forma possivelmente não precisara bater, poderá se expressar através de palavras. Isso implica numa maior tolerância com relação ao seu próprio desconforto e aumento de tensão interna.

Os pais e educadores se encontram frente a uma situação difícil e delicada, não é fácil pegar o filho na escola e encontrá-lo com uma marca roxa na bochecha. É importante considerar que a presença do adulto pode restringir certas atitudes das crianças, mas não é possível impedir que aconteça, principalmente num grupo de crianças onde esta forma de expressão ainda é a que prevalece. Todas as crianças passam por esta fase, é importante notar que é algo passageiro e que logo que lhes é possível vão encontrando outros modos de expressar seus sentimentos.

Linguagem e pensamento são aquisições posteriores, que vêem com o desenvolvimento intelectual e, sobretudo, emocional. Neste sentido podemos observar um movimento no desenvolvimento infantil com relação a expressão das emoções, que vai dos aspectos mais concretos e corporais para formas mais abstratas e complexas que incluem a linguagem, a capacidade para a simbolização e para o pensar. Com relação ao desenvolvimento cognitivo Jean Piaget chegou a conclusões muito próximas a estas. Faz parte do desenvolvimento, fazer renúncias e abrir mão de coisas conhecidas. Freud chama a atenção para o fato de que o homem só pôde criar a civilização a partir do momento em que aceitou dolorosamente abrir mão dessas formas arcaicas e primitivas de convivência. A civilização e a cultura só podem ocorrer com a inclusão de formas mais evoluídas como a linguagem, a simbolização, a arte, a música e outras acessíveis á capacidade de desenvolvimento do ser humano.

Outra visão a respeito dessas questões foi muito bem estudada pela psicanalista inglesa Melanie Klein, através de sua experiência clínica e de uma observação bastante cuidadosa, ela nos diz que o amor e o ódio fazem parte da natureza dos sentimentos humanos.

Quando o bebê passa pela experiência da frustração (por exemplo, se está com fome e tem que aguardar a presença da mãe para ser alimentado) vive uma situação interna caótica e desorganizada. Em contrapartida, quando está saciado e gratificado recupera um bem estar e uma organização. As primeiras experiências emocionais são vividas de forma tal que, quando a mãe atende às necessidades do bebê ela é "boa" e, ao contrário, quando o frustra, ela é "má". No primeiro caso, a criança pequena identifica a mãe como a "fada", ou seja, aquela que tudo pode e tudo dá. Opostamente, ao frustrar-se, a criança identifica a mãe como a "bruxa" que nada tem de bom a oferecer. Por isso os contos de fada fazem tanto sentido para o mundo interno da criança, pois retratam a oposição entre o bem e o mal. Assim inicialmente os processos psíquicos infantis caracterizam-se por vivências intensas e parciais em relação ao outro que frustra ou gratifica. Quando gratifica, o outro é amado, adorado e querido; no momento seguinte em que a criança é frustrada o outro passa a ser objeto da agressão, ódio e maldade.

Na vivência ligada à gratificação, quando a criança esta atendida e satisfeita a tendência é a idealização do outro. A mãe passa a ser vista como um ser perfeito, toda poderosa, não tem limites e pode dar tudo.

A característica destas vivências parciais é que a mudança de estado é brusca e pode ir de um extremo ao outro - da idealização ao ódio profundo ou vice- versa. Estas vivências fazem parte da vida mental de todos nós, quanto mais jovem e menos amadurecido, mais intensas e extremas elas se apresentam. A noção do outro como ser independente e separado, como aquele que frustra e ao mesmo tempo gratifica é bem posterior. Nestas primeiras e primitivas vivências, o que é bom está dentro, o mau está fora, desta forma não há responsabilidade pessoal. Por exemplo, o outro é responsável pela minha dor, por eu ter caído, por ter me machucado, por não conseguir fazer as coisas, etc...

Somente quando a criança percebe que a mãe, as pessoas e a realidade não são totalmente boas e nem totalmente más é que vai integrando esses aspectos dentro de si mesma. Dessa forma as experiências emocionais gratificantes (boas) e as frustrantes (más) passam a coexistir dentro dela e na sua relação com as pessoas e com o ambiente que a cerca. Esse progresso no desenvolvimento emocional permite que a criança aceite melhor as adversidades e restrições, pois as frustrações deixam de ter um caráter tão terrivelmente ruim na medida em que também são consideradas as experiências boas. Surge também a culpa e o medo de perder o outro, a tendência a querer reparar o "mal" que na sua fantasia cometeu, a preocupação da criança não esta mais tão centrada em si mesma, existe também uma preocupação genuína pelo outro.

Esse progresso é um processo lento e trabalhoso. Quem pode ajudar a criança nesse sentido é o adulto, os educadores, e, sobretudo, os pais. Para tanto, é fundamental que os adultos também possam aceitar os limites e as frustrações da vida, considerando os aspectos da realidade (princípio da realidade), ou seja, o adulto possa compreender que frustrar o filho (dar limites) não é ser "mau", e sim, dar-lhe proteção e cuidado. Se isto não está sendo possível, as "regras" de como educar e castigar acabam falhando.

É preciso que os pais possam aceitar as reações de agressividade e sofrimento dos filhos perante suas frustrações, de maneira a permitir que eles se desenvolvam. Freud dizia que a capacidade para pensar é uma atividade bastante complexa, que só pode se desenvolver no ser humano quando ele é capaz de se confrontar com obstáculos e dificuldades para, a partir daí, encontrar novas soluções a alternativas.

O sofrimento faz parte da vida e, tentar poupar os filhos dessas experiências, é prejudicá-los no enfrentamento da vida. Nesse sentido, o que a psicanálise nos mostra é que só através dessas vivências a criança pode formar um aparelho mental mais fortalecido.

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