Vento Novo



Estava enrolada em teias e traças,
Debaixo da escada,
Lá no subsolo da casa fechada.

Começava a tomar ares de desgraça.
Manchada do tempo,
Fenecia a esperar que um dia
Alguma coisa acontecesse.

Antes que se perdesse completamente,
Sentiu passar um vento cor-de-rosa.
Toda prosa, espanou a bruma,
Pintou os lábios
E sem vergonha nenhuma
Caprichou no recorte do decote.

A felicidade volta à praça
Cheia de dengo e de graça,
Com perfume novo no cangote.
Flora Figueiredo

Lição de Casa



Você tampa a panela,
Dobra o avental,
Deixa a lágrima secar no arame do varal.

Fecha a agenda,
Adia o problema,
Atrasa a encomenda,
Guarda insucessos no fundo da gaveta.

A idéia é tirar a tarja preta
E pôr o dedo onde se tem medo.

Você vai perceber
Que a gente é que faz o monstro crescer.

Em seguida superar o obstáculo,
Pois pode-se estar perdendo
Um espetáculo acontecendo do outro lado.

Atravessar o escuro
Até conseguir tatear o muro,
Que é o limite da claridade.

Se tiver capacidade para conquistá-la,
Tente retê-la o mais que puder.

Há que ter habilidade,
Sem esquecer que a luz é mulher.

Do inferno assim desmascarado,
É hora de voltar.

Não importa se é caminho complicado,
Se a curva é reta,
Ou se a reta entorta.

Você buscou seu brilho,
Voltou completa;
Jogou a tranca fora,
Abriu a porta.
Flora Figueiredo

Quarto de Pensão




Sou pensionista da vida.
Na mesma tábua em que durmo
Escrevo meu trabalho
E ela farfalha, embora já sem folhas,
Só da lembrança de ter sido tronco.

Tenho uma pia no canto,
Que goteja e é meu lago, meu rio, meu fundo mar.

Tenho um rijo cabide à cabeceira
Para dependurar a pele a cada noite.

Me dão café com pão
 E às vezes,
Algum vinho.
Dizem que só paguei meia pensão.
Há uma fome indistinta que me habita
Enquanto o medo com felpudos passos
Percorre o labirinto das entranhas.

Mas agradeço essas quatro paredes
E que me tenham dado uma janela.
Pois sei que a qualquer hora
Sem possibilidade de recurso
E talvez mesmo sem aviso prévio
Serei intimada a devolver o quarto.
Marina Colasanti

Preciso, Para



Preciso que um barco atravesse o mar lá longe
Para sair dessa cadeira
Para esquecer esse computador
E ter olhos de sal
Boca de peixe
E o vento frio batendo nas escamas.

Preciso que uma proa atravesse a carne cá centro
Para andar sobre as águas
Deitar nas ilhas
E olhar de longe esse prédio
Essa sala
Essa mulher sentada diante do computador
Que bebe a branca luz eletrônica
E pensa no mar.
Marina Colasanti

Flutuações



O sonho aprendeu a pairar bem alto,
Lá onde o sobressalto nem sequer nasceu.

Namorou a trôpega ilusão,
Até que trêfego e desajeitado,
Desprendeu-se de seu reino idealizado,
Veio pousar tamborilante em minha mão.

Assim, aquecido e aconchegado,
Parece que se esqueceu de ir embora.
Na hora em que ressona distraído,
Eu lhe pingo malemolências ao ouvido,
À sua inquietação eu me sujeito.

Eis que o sonho dorme agora aqui comigo,
Seu corpo repousa no meu peito.
Flora Figueiredo
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