Ode à Mentira



Crueldades, prisões, perseguições, injustiças,
Como sereis cruéis, como sereis injustas?
Quem torturais, quem perseguis,
Quem esmagais vilmente em ferros que inventais,
Apenas sendo vosso gemeria as dores
Que ansiosamente ao vosso medo lembram
E ao vosso coração cardíaco constrangem.

Quem de vós morre, quem de por vós a vida
Lhe vai sendo sugada a cada canto
Dos gestos e palavras, nas esquinas
Das ruas e dos montes e dos mares
Da terra que marcais, matriculais, comprais,
Vendeis, hipotecais, regais a sangue,
Esses e os outros, que, de olhar à escuta
E de sorriso amargurado à beira de saber-vos,
Vos contemplam como coisas óbvias,
Fatais a vós que não a quem matais,
Esses e os outros todos... - como sereis cruéis,
Como sereis injustas, como sereis tão falsas?

Ferocidade, falsidade, injúria
São tudo quanto tendes, porque ainda é nosso
O coração que apavorado em vós soluça
A raiva ansiosa de esmagar as pedras
Dessa encosta abrupta que desceis.

Ao fundo, a vida vos espera.
Descereis ao fundo.
Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos?
Descereis, descereis sempre, descereis.
Jorge de Sena


Ode ao Destino



Em vão tentei quebrar o círculo mágico
Das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
Do recolher felino das tuas unhas retrateis
- Ah então, no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
Esperando já sentir o próximo golpe inesperado.

Em vão tentei não conhecer-te, não notar
Como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam
Que eu, de soslaio, e disfarçando, observava           [em bandos,
Pura conter as palavras, as minhas e as dos outros,
Para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.

Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
Afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
Descendo à fé só em mim próprio, até busquei
Sentir-te imenso, exato, magnânimo,
Único mistério de um mundo cujo mistério eras tu.

Lei universal que a sem-razão constrói,
De um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
Soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
Superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
Complexos variados mais ou menos freudianos,
Contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
Educação falhada, fraqueza de espírito, a solidão da vida,
Existirás ou não, serás tudo isso ou não, só isto ou só aquilo,
Mas desisti, regresso, aqui me tens.

A humilhação de confessar-te em público,
Nesta época de numerosos sábios e filósofos,
Não é maior que a de viver sem ti.
A decadência, a desgraça, a abdicação,
Os risos de ironia dos vizinhos
Nesta rua de má-nota em que todos moramos,
Não são piores, ah não, do que no dia a dia sem ti.
É nesta mesma rua que eu ouço o amor chamar por mim,
É nela mesma que eu vejo emprestar nações a juros,
É nela que eu tenho empenhado os meus haveres e os dos outros,
Nela que se exibem os rostos alegres, serenos, graciosos,
Dos que preparam as catástrofes, dos que as gozam, dos que são
É nesta mesma rua que eu                                              [as vítimas.
Ouço todos os sonhos passar desfeitos.

Desisti, regresso, aqui me tens,
Coberto de vergonha e de maus versos,
Para continuar lutando, continuar morrendo,
Continuar perdendo-me de tudo e todos,
Mas à tua sombra nenhuma e tutelar.
Jorge de Sena

A Parede



De repente tudo cai –

É olhando por dentro das paredes de meu quarto

Que vejo um grande bloco branco de madeira

Sair de dentro do gesso encardido.

Ah! Ele se escondia detrás o mundo!

Os eletroeletrônicos nunca gostaram de mim.

Meu pedaço de espuma, aqui no chão mesmo,

E todas essas coisas jogadas, me dão um leve conforto.

Meu amplificador chiado, não disse?

E tudo me dando uma sensação caótica de liberdade.

Esse litro de Smirnoff foi a melhor aquisição que fiz em minha vida!

Vamos! Digam: Ele está bêbado!

Que minha consciência alterada finalmente alcança

Um segundo de verdade.

Tenho o quadro de Van Gogh pregado na parede.

Tenho o meu quarto pregado na minha frente.

Frida Kahlo pregada em minha pele.

Uma música se pregando nas coisas.

E quem diria! Dalí tinha razão:

Aquele relógio na parede está se derretendo.

Tudo se derretendo em minha volta, tudo aí, parado.

Tudo está sendo, tudo é, e nada. O que não passa?

A música toca, as coisas dançam.

Tudo se manifesta e se nega ao mesmo tempo.

A arte é inútil e é o único meio

De eu adquirir a sensibilidade necessária.

Não faria a mínima diferença se eu escrevesse isso

Com tinta ou com sangue.

Estou com fome. E é aqui que começa.
Linauro Neto



O Chefe e o Guarda Noturno



Certo dia, logo pela manhã, o guarda noturno que trabalhava em uma grande empresa contou a seu chefe sobre um sonho que tivera na noite anterior.
- Foi um sonho terrível! Sonhei que o Senhor estava em um avião caindo no mar gelado e todos morriam nesse acidente, inclusive o Senhor. Acordei molhado de suor, e, ainda agora me lembro dos gritos de desespero dos passageiros. Ninguém merece uma morte assim.

O chefe, jovem executivo, dinâmico e empreendedor, tinha verdadeiro pânico de aviões. Mas seus negócios exigiam que ele fizesse viagens constantes para outros países, e somente ele podia assumir tal responsabilidade.

Assustado com a informação do empregado, o chefe decidiu adiar a reunião de negócios.

No dia seguinte, todas as manchetes dos principais jornais anunciavam a queda de um avião no mar, aquele que ele estaria se não tivesse desmarcado a reunião, e, até o momento, não havia notícias de sobreviventes.

Na mesma hora, o chefe mandou chamar o guarda noturno e lhe mostrou a notícia do jornal.

Agradeceu fervorosamente pelo aviso que havia lhe salvado a vida e, a seguir, sem nenhuma explicação, pediu que passasse no Departamento Pessoal, pois estava despedido.

- Mas como chefe? Estou sendo despedido por salvar-lhe a vida?
Perguntou o guarda noturno sem compreender a atitude do chefe.

- Não meu amigo. Por isso eu já lhe disse que sou muito grato.
Continuou o chefe.
- Estou lhe despedindo pelo fato de você ser guarda noturno e ter dormido durante o trabalho. Isto é inadmissível!

Moral da História
Chefe é sempre chefe.
Não importa as suas intenções, por melhor que você seja e por mais que você faça, você nunca agrada. A corda sempre arrebenta para o lado mais fraco.


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