O Cômico

"O olho vê apenas o que a mente está pronta para compreender".
(Henri Bergson)

Seja qual for a doutrina que nossa razão adote,
Nossa imaginação tem sua filosofia bem decretada:
Em toda forma humana
Ela percebe o esforço de uma alma que modela a matéria,
Alma infinitamente maleável,
Eternamente móvel,
Isenta da gravidade por não ser a terra que a atrai.

Essa alma comunica algo de sua leveza
Alada ao corpo que anima:
A imaterialidade assim transferida à matéria
É o que se chama de graça.

Mas a matéria resiste e se obstina.
Furta-se a ela,
E tudo faria para converter à sua própria inércia
E degenerar em automatismo
A atividade sempre desperta desse princípio superior.
Por ela esses movimentos inteligentemente variados do corpo
Seriam fixados em cacoetes insensatamente adquiridos,
Solidificadas em caretas duráveis
As expressões cambiantes da fisionomia,
Imprimindo, enfim, a toda pessoa,
Uma atitude que lhe dê a impressão de estar afundada e absorta
Na materialidade de alguma ocupação mecânica
Em vez de se renovar sem cessar
Ao contato de um ideal vivo,
Onde a matéria consiga assim
Adensar exteriormente a vida da alma,
Fixando-lhe o movimento.

Contrariando-lhe enfim a graça,
Ela obtém do corpo um efeito cômico.

Se quiséssemos, pois, definir aqui o cômico,
Por comparação com o seu contrário,
O contraste deveria ser mais com a graça do que com a beleza.
Trata-se mais de rigidez que de feiura.
Henri Bergson

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