Faxinar é uma Arte


Faxinar é uma arte.
Vale para textos,
Armários,
Gavetas,
E também para manias,
Lembranças,
Rancores.

A maturidade tem muitas vantagens,
Entre elas
A de deixarmos de ser tão sentimentais com nosso passado
E promovermos um arrastão em tudo o que é excessivo.
Não há mais tempo para delongas:
Uma vez conhecendo melhor a nós mesmos,
É hora de priorizar a essência
A nossa e a de todos.

O que não impede que pessoas mais jovens
Comecem a se habituar desde cedo a não colecionar inutilidades,
Como amigos falsos,
Preconceitos
E dramalhões.

Hoje, considera-se rico aquele que tem
Um milhão de seguidores no Twitter e curtidas no Face,
Ou aquele que acredita que um sem-número de sapatos,
Bolsas
E tênis
Acalmará sua ansiedade,
Afugentando o vazio.

Será mesmo preciso gastar metade da vida até perder essa ilusão?

O que nos dignifica não é um guarda-roupa abarrotado
Ou uma cabeça lotada de neuras.

Simplificar, ao contrário do que se pensa,
Nunca foi provinciano,
E sim um luxo que poucos conseguem bancar.

Acumular é que é provinciano.
Nem mesmo quando relaciono esse verbo a afeto e dinheiro
Consigo dar a ele algum crédito,
Pois acúmulo nada tem a ver com suficiência.
Se temos afeto e dinheiro suficientes para viver bem,
Com paz,
Conforto
E alegria,
Para que correr atrás de mais e mais?
O excesso pode conspirar contra,
Nos exigindo um esforço extra para manter a roda girando.
O suficiente faz a roda girar sozinha.
Martha Medeiros

O Sábio


Quem depende de si mesmo, se não tudo,
Quase tudo o que contribui para a sua felicidade,
E não se prende a outra pessoa,
Nem se modifica
De acordo com o bom ou o mau êxito da sua conduta,
Está, de fato, preparado para a vida;
É sábio,
Na verdadeira acepção do termo,
Corajoso e temperante.
Platão

O Desejo de Procriar


Aqueles cujo instinto criador é físico
Recorrem de preferência às mulheres
E revelam o seu amor dessa maneira,
Acreditando que pela geração de filhos
Podem assegurar a imortalidade
E uma recordação perene de si.

Mas existem alguns
Cujo instinto criador se aloja na alma
E que desejam procriar não pelo corpo,
Mas espiritualmente,
Gerando filhos
Que são próprios da natureza da alma conceber e dar à luz.

E o que é próprio da natureza da alma procriar?

A sabedoria e as virtudes em geral,
Cujos progenitores são os poetas
E os criadores fecundos.
Platão

A Alegoria da Caverna


A Alegoria da Caverna de Platão fala sobre prisioneiros que desde o nascimento vivem atados a correntes numa caverna e passam o tempo todo olhando para uma determinada parede, não podendo se virar para ver o que se passa atrás deles mesmos. Essa parede é iluminada pela luz de uma fogueira que eles também não veem e não compreendem. Nessa parede são projetadas formas, sombras e espectros que figuram incompreensíveis, como fantasmas misteriosos, enquanto os prisioneiros gastam o seu tempo existencial dando nomes às imagens, tentando decifrar seu significado, sua origem e sua razão de ser.

Certo dia, um desses prisioneiros é levado para o mundo exterior, saindo da caverna, e consegue enxergar a realidade à luz da razão, compreendendo, assim, o motivo das sombras e fantasmas que se afiguravam na parede da caverna, além de conhecer e compreender a vida, os outros seres vivos, o mundo, o sol, os astros, as estações e a própria natureza cósmica.

De posse desse conhecimento extraordinário do mundo e de si mesmo, o ex-prisioneiro retorna à caverna para contar aos seus semelhantes aprisionados sobre a verdadeira realidade que há além do cárcere que os encerra.

Assim, Platão nos leva a questionar a realidade à luz da razão, razão essa que ilumina e desmistifica, e também porque luz (conhecimento) e trevas (ignorância) não podem ocupar um mesmo lugar no tempo e no espaço.


A Alegoria da Caverna
Imagina o estado da natureza humana com respeito à ciência e à ignorância, conforme o quadro que dele vou esboçar.

Imagina uma caverna subterrânea que tem em toda a sua largura uma abertura por onde entra livremente a luz e, nessa caverna, homens agrilhoados desde a infância, de tal modo que não possam mudar de lugar nem volver a cabeça devido às cadeias que lhes prendem as pernas e o tronco, podendo tão só ver aquilo que se encontra diante deles.
Nas suas costas, a certa distância e a certa altura, existe um fogo cujo fulgor os ilumina, e entre esse fogo e os prisioneiros depara-se um caminho dificilmente acessível.
Ao lado desse caminho, imagina uma parede semelhante a esses tapumes que os charlatões de feita colocam entre si e os espectadores para esconder destes o jogo e os truques secretos das maravilhas que exibem.
Imagina homens que passem para além da parede.
Julgas que os prisioneiros perceberão outra coisa, de si mesmos e dos que se encontram a seu lado, além das sombras que na sua frente se produzem, no fundo da caverna?
Não julgariam eles que nada existiria de real além das sombras?
Pensa naquilo que naturalmente lhes aconteceria se fossem libertados das suas cadeias e se fossem elucidados acerca do erro em que estavam.
Liberte um desses cativos, e que ele seja obrigado a levantar-se imediatamente, voltar a cabeça, andar e enfrentar a luz, até à claridade do Sol.
E se, então, se recordasse da sua primeira habitação e da ideia que aí formavam da sabedoria, ele e os seus companheiros de escravidão, não se regozijaria com a mudança e não teria compaixão da desgraça daqueles que permaneciam cativos?
Se regressasse novamente à sua prisão, para voltar a ocupar nela o seu antigo posto, não se acharia como um cego, na súbita passagem da luz do dia para a obscuridade?
E se, no entanto, ainda não distinguisse nada e, antes que os seus olhos se houvessem refeito, o que apenas poderia acontecer depois de muito tempo, tivesse de discutir com os mais prisioneiros sobre essas sombras, não se tornaria ridículo aos olhos dos outros, que diriam dele que, por ter subido até lá acima, perdera a vista, acrescentando que seria uma loucura o eles pretenderem sair do lugar onde se encontravam, e que, se alguém se lembrasse de tirá-los dali e levá-los para a região superior, se tornaria necessário prendê-lo e matá-lo?

É essa, precisamente, a imagem da condição humana.

A caverna subterrânea é um mundo visível;
O fogo que a ilumina, a luz do Sol;
O prisioneiro que ascende à região superior e a contempla
É a alma que se eleva até à esfera do inteligível.
É isto, pelo menos, o que penso, mas só Deus sabe se é certo.
Nos últimos limites do mundo inteligível
Encontra-se a ideia do bem,
Que só com dificuldade se percebe,
Mas que, todavia,
Não pode ser percebida sem que se conclua que ela
É a causa primeira de quanto há de bom e de belo no universo;
Que ela, neste mundo visível,
Produz a luz e o astro do qual a luz irradia diretamente;
Que, no mundo visível, engendra a verdade e a inteligência;
Que é preciso, enfim, ter os olhos fitos nessa ideia,
Se quisermos conduzir-nos honestamente na vida pública e privada.
Platão, texto adaptado de “República”
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