Monólogo na Madrugada

Estás no valo trabalhando.
O crepúsculo que te envolve é cor-de-cinza,
o céu acima é cinzento,
cinzenta a neve no pálido lusco-fusco,
os trapos dos teus companheiros são cinzentos,
e também os semblantes deles são cor-de-cinza.

Retomas outra vez o diálogo com o ente querido.
Pela milésima vez lanças rumo ao sol teu lamento e tua interrogação.

Buscas ardentemente uma resposta,
queres saber o sentido do teu sofrimento e de teu sacrifício
- o sentido de tua morte lenta.

Numa revolta última contra o desespero da morte à tua frente,
sentes teu espírito irromper por entre o cinzento que te envolve,
e nesta revolta derradeira
sentes que teu espírito se alça acima deste mundo desolado e sem sentido,
e tuas indagações por um sentido último recebem, por fim,
de algum lugar,
um vitorioso e regozijante “sim".

Nesse mesmo instante acende-se ao longe uma luz,
na janela de uma distante moradia camponesa,
postada feito bastidor à frente do horizonte,
em meio à cinzenta e desolada madrugada bávara
“et lux in tenebris lucet”, e a luz resplandece nas trevas.

Agora estiveste horas a fio picando o chão congelado,
outra vez passou a sentinela e debochou um pouco de ti,
e de novo recomeças o diálogo com teu ente querido.

Tens cada vez mais o sentimento de que ela está presente.
Sentes que ela está ali.
Crê poder tocá-la, parece precisares apenas estender a mão para tomar sua mão.
E com grande intensidade te invade o sentimento: Ela, está aqui! 

Eis cá aquilo: no mesmo instante - o que é aquilo? - sem que tenhas notado,
acaba de pousar um passarinho bem à tua frente,
sobre o torrão que recém cavaste,
parte fitar atento e sereno. . .
Viktor Frankl
O Sentido da Vida

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