Jokerman


Palhaço

Sobre as águas, jogando seu pão,
Enquanto os olhos do ídolo, com a cabeça de ferro, estão brilhando.
Barcos distantes rumo à bruma seguem seus cursos,
Você nasceu com uma cobra em seu pulso, enquanto um furacão estava soprando
Liberdade logo ao virar a esquina para você
Mas, sem ter confiança, de que te servirá?

Palhaço dance a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto em direção ao luar
Oh, oh, oh, Palhaço.

O sol se põe tão velozmente no céu,
Você se levanta e diz adeus para ninguém.
Tolos correm para lugares onde anjos temem pôr seus pés,
O futuro dos dois, tão cheios de temor, você não tem nenhum.
Mudando mais uma camada de pele,
Mantendo-se a um passo a frente do perseguidor dentro de você.

Palhaço dance a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto em direção ao luar
Oh, oh, oh, Palhaço.
Você é um homem das montanhas, você pode andar nas nuvens,
Manipulador de multidões, você distorce sonhos.
Você irá para Sodoma e Gomorra,
Mas o que te importa? Lá ninguém vai querer casar com a sua irmã.
Amigo do mártir, um amigo da mulher que causa vergonha,
Você olha dentro da fornalha escaldante, vê um homem rico sem nome.

Palhaço dance a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto em direção ao luar
Oh, oh, oh, Palhaço.

Bem, o Livro do Livítico e Deuteronômio,
A lei da selva e do mar são seus únicos professores.
Na fumaça do crepúsculo sobre um cavalo branco,
Michelangelo realmente poderia ter esculpido sua feição.
Repousando nos prados, longe do espaço turbulento,
Meio adormecido perto das estrelas, com um pequeno cachorro lambendo seu rosto.

Palhaço dance a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto em direção ao luar
Oh, oh, oh, Palhaço.

Bem, o fuzileiro aproxima-se silenciosamente dos doentes e aleijados,
O pregador busca o mesmo, quem chegará lá primeiro é incerto.
Cassetetes e canhões de água, gás lacrimejante, cadeados,
Coquetéis molotov e pedras atrás de cada cortina,
Juízes pérfidos morrendo nas teias que eles mesmos tecem,
É só uma questão de tempo até que a noite se instale.

Palhaço dance a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto em direção ao luar
Oh, oh, oh, Palhaço.

É um mundo sombrio, céus são escorregadios e cinzentos,
Uma mulher acabou de dar à luz a um príncipe hoje e o vestiu de escarlate.
Ele irá pôr o padre no bolso, pôr a lâmina para aquecer,
Tirem as crianças sem mães da rua
E as coloquem aos pés de uma meretriz.
Oh, Palhaço, você sabe o que ele quer,
Oh, Palhaço, você não demonstra nenhuma reação.

Palhaço dance a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto em direção ao luar

Oh, oh, oh, Palhaço.


Jokerman

Standing on the waters casting your bread
While the eyes of the idol with the iron head are glowing
Distant ships sailing into the mist
You were born with a snake in both of your fists while a hurricane was blowing.
Freedom just around the corner for you
But with the truth so far off, what good will it do?

Jokerman dance to the nightingale tune
Bird fly high by the light of the moon
Oh, oh, oh, Jokerman

So swiftly the sun sets in the sky
You rise up and say goodbye to no one
Fools rush in where angels fear to tread
Both of their futures, so full of dread, you don't show one
Shedding off one more layer of skin
Keeping one step ahead of the persecutor within

Jokerman dance to the nightingale tune
Bird fly high by the light of the moon
Oh, oh, oh, Jokerman

You're a man of the mountains, you can walk on the clouds
Manipulator of crowds, you're a dream twister
You're going to Sodom and Gomorrah
But what do you care? Ain't nobody there would want to marry yoursister
Friend to the martyr, a friend to the woman of shame
You look into the fiery furnace, see the rich man without anyname

Jokerman dance to the nightingale tune
Bird fly high by the light of the moon
Oh, oh, oh, Jokerman

Well, the Book of Leviticus and Deuteronomy
The law of the jungle and the sea are your only teachers
In the smoke of the twilight on a milk-white steed
Michelangelo indeed could've carved out your features
Resting in the fields, far from the turbulent space
Half asleep near the stars with a small dog licking your face

Jokerman dance to the nightingale tune
Bird fly high by the light of the moon
Oh. oh. oh. Jokerman

Well, the rifleman's stalking the sick and the lame
Preacherman seeks the same, who'll get there first isuncertain
Nightsticks and water cannons, tear gas, padlocks
Molotov cocktails and rocks behind every curtain
False-hearted judges dying in the webs that they spin
Only a matter of time 'til night comes steppin' in

Jokerman dance to the nightingale tune
Bird fly high by the light of the moon
Oh, oh, oh, Jokerman

It's a shadowy world, skies are slippery gray
A woman just gave birth to a prince today and dressed him inscarlet
He'll put the priest in his pocket, put the blade to the heat
Take the motherless children off the street
And place them at the feet of a harlot
Oh, Jokerman, you know what he wants
Oh, Jokerman, you don't show any response

Jokerman dance to the nightingale tune
Bird fly high by the light of the moon
Oh, oh, oh, Jokerman
Letra e música: Bob Dylan
Interprete: Caetano Veloso

O Enigma

Era uma vez um príncipe que sentiu desejo de sair pelo mundo e levou somente junto a si um criado fiel. Um dia, ele cavalgava em uma grande floresta e, quando escureceu, vendo que não havia por ali nenhuma hospedaria, ficou sem saber onde passaria a noite.

Então avistou uma moça que se dirigia a um casebre e, quando ele chegou mais perto, viu que a moça era jovem e bonita. Iniciou a conversa com estas palavras! "Cara criança, será que eu e meu criado podemos encontrar abrigo nesta casa por esta noite?" - "Claro," disse a moça, com voz triste. "Mas eu não aconselho; não entrem ali!" - "Por que não?" perguntou o príncipe. "A moça disse suspirando!" - "Minha madrasta pratica artes maléficas e não simpatiza com estranhos.”

Então ele compreendeu que tinha chegado à casa de uma feiticeira, mas, como estava escuro e ele não poderia prosseguir viagem nem tinha medo, entrou. A velha estava sentada em uma poltrona junto à lareira e examinou os estranhos com seus olhos vermelhos.

"Boa noite!" murmurou ela, fingindo cordialidade.
"Acomodem-se e descansem.”

Depois soprou o carvão sobre o qual, em uma grande panela, estava cozinhando alguma coisa. A filha avisou-os de que tomassem cuidado para nada comer e também nada beber naquela casa, pois a velha preparava bebidas maléficas.

Dormiram tranqüilamente até o raiar do dia. Quando se preparavam para a partida e o príncipe já estava sentado em seu cavalo, a velha disse!
"Espere um momento, desejo fazer um brinde à sua partida.”

Enquanto ela foi buscar a bebida, o príncipe partiu a cavalo e o criado, que tinha de prender sua sela, ficou sozinho, quando eis que a feiticeira volta com a bebida.
"Leve-a a seu patrão," disse ela.

Mas naquele momento o copo quebrou e o veneno derramou sobre o cavalo, e era tão poderoso que o animal morreu na hora. O criado correu até seu patrão e contou-lhe o que tinha acontecido, mas não queria deixar para trás sua sela e correu de volta para pegá-la.

Mas, quando chegou junto ao cavalo morto, um corvo já estava sentado sobre ele e o devorava.
"Quem sabe se hoje encontraremos algo melhor?" disse o criado.
Matou o corvo e levou-o consigo.

Percorreram a floresta o dia todo, mas não conseguiram sair dela. Ao cair da noite, toparam com uma hospedaria e nela entraram. O criado deu ao dono o corvo, a fim de que ele o preparasse para o jantar. Eles, porém, tinham ido parar num covil de assassinos; com a escuridão, chegaram doze bandidos e sentiram vontade de matar e roubar os estranhos. Mas, antes de pôr mãos à obra, sentaram-se à mesa, e o dono da hospedaria e a feiticeira se uniram a eles.

Comeram juntos um prato de sopa na qual se tinha picado a carne do corvo. Mal tinham engolido alguns bocados e caíram mortos, pois o corvo os tinha contaminado com o veneno da carne do cavalo.

Não restava ninguém naquela casa senão a filha do hospedeiro, que era uma moça honesta e não tinha tido nenhuma participação nas coisas terríveis que ali aconteciam. Ela abriu todas as portas para os estranhos e mostrou-lhes tesouros incontáveis. O príncipe, porém, disse que ela poderia ficar com tudo, pois ele não queria nada, e partiu com seu criado.

Depois de terem cavalgado por muito tempo, chegaram a uma cidade onde havia uma princesa bela mas muito convencida; ela tinha feito proclamar que quem propusesse um enigma que ela não fosse capaz de decifrar se tornaria seu marido.
Mas, se ela o decifrasse, ele seria decapitado.

Ela tinha três dias para refletir; mas era tão esperta que sempre acabava decifrando o enigma antes do prazo. Já nove pretendentes haviam morrido daquela maneira, quando chegou o príncipe e, deslumbrado com a beleza da moça, quis arriscar sua vida.

Então, apresentou-se diante dela e propôs seu enigma!
"O que é?: um não matou nenhum, mas matou doze.”

Ela não sabia do que se tratava, pensou e pensou, mas não conseguiu desvendar o enigma. Consultou seu livro de enigmas, mas nada encontrou ali. Em resumo, sua esperteza chegara ao fim. Não sabendo mais o que fazer, mandou sua criada ir até o quarto do senhor para espioná-lo enquanto dormia! Talvez ele falasse durante o sono e revelasse o enigma…

Mas o esperto criado tinha-se deitado na cama no lugar de seu patrão e, quando a criada chegou, arrancou-lhe o manto em que ela estava envolvida e expulsou-a do quarto a chicotadas.

Na segunda noite, a princesa enviou sua camareira na esperança de que ela tivesse melhor sorte. Mas o criado também arrancou-lhe o manto e expulsou-a a chicotadas.

Na terceira noite, o príncipe julgou-se em segurança e deitou-se em sua cama. Eis que vai até lá a princesa em pessoa, envolta num manto cinzento, e se senta perto dele. Quando pensou que ele estava dormindo e sonhando, pôs-se a lhe falar, na esperança de que ele lhe respondesse durante o sono, como muitos fazem.

Mas ele estava bem acordado e compreendeu e ouviu tudo muito bem. Ela perguntou!
- “Um matou nenhum, o que isso significa?" 
- “Um corvo, que se alimentou de um cavalo morto e envenenado e por isso morreu," foi a resposta do príncipe.
- “E matou doze... como assim?" perguntou a princesa.
- “São doze assassinos que provaram do corvo e por isso morreram.”

Ao saber a chave do enigma, a princesa quis sair de fininho, mas o príncipe segurou-lhe o manto bem firmemente, de tal forma que ela teve de deixá-lo para trás. 

Na manhã seguinte, a princesa fez saber que decifrara o enigma, mandou chamar os doze juízes e disse a eles qual era a solução. Mas o jovem pediu permissão para falar e disse!
- “Ela foi de fininho até meu quarto à noite e me perguntou, caso contrário não teria decifrado o enigma.”

Os juízes pediram uma prova.
Então o criado trouxe os três mantos. Quando os juízes viram o manto cinzento que a princesa costumava vestir, disseram:
- “Que se borde o manto com ouro e prata! Será seu vestido de casamento."
Irmãos Grimm


A Fé Solúvel

É, me esqueci da luz da cozinha acesa
De fechar a geladeira
De limpar os pés,
Me esqueci Jesus!
De anotar os recados
Todas janelas abertas,
Onde eu guardei a fé... em nós
Meu café em pó solúvel
Minha fé deu nó
Minha fé em pó solúvel
É... meu computador
Apagou minha memória
Meus textos da madrugada
Tudo o que eu já salvei
E o tanto que eu vou salvar
Das conversas sem pressa
Das mais bonitas mentiras
Hoje eu não vivo só... em paz
Hoje eu vivo em paz sozinho
Muitos passarão
Outros tantos passarinho
Muitos passarão
Que o teu afeto me afetou é fato
Agora faça me um favor
Um favor... por favor
A razão é como uma equação
De matemática... tira a prática
De sermos... um pouco mais de nós!
Que o teu afeto me afetou é fato
Agora faça me um favor
Um favor... por favor

Fernando Anitelli
O Teatro Mágico


A Primeira Semana

Antes que o tempo, a Clave
De Fá Do Si La Sois
Antes da noite, uma tarde
Pra cada um de nos
Antes do barco, a chuva
Antes da roda, o frio
Antes do vinho, a uva
E a fruta que não caiu
Fez dessa Terra um cenário
Pras peças que nos pregaram
Fez bico de pena e diário
Pra escrevermos a regra e a exceção
Criou o perdão e o pecado
Criou a dor e o prazer
Criamos o certo e o errado
E o orgulho pra nos esconder
Do que prevalece em nós…
Antes que o tempo, a clave
Sustenidos e bemóis
Antes do inteiro, a metade
Uma outra parte de nós
Antes do vôo, o tombo
um uta pra não chorar
Antes tarde do que nunca
Pra nunca mais demorar
Antes do homem o medo
Antes do medo o amor
Antes do amor a dúvida
Pois nem Deus sabe quem criou
E o que prevalece em nós
Exílios calados quimeras que exalam sós
Exílios calados quimeras que exalam sós
E tudo que eu criar pra mim
Vai me abraçar de novo semana que vem
E tudo que eu criar pra mim
Vai me abraçar de novo
Vai me negar também
Semana que vem
Antes que o tempo acabe...
Fernando Anitelli
O Teatro Mágico


Estrada da Vida

“A sua estrada é somente sua.
Outros podem acompanhá-lo,
mas ninguém pode andar por você.”
(Mestre Rumi)

Assim é nossa vida…

Nascemos e logo começamos a dar os primeiros passos, a princípio, supervisionados por nossos pais.

Mas o tempo vai passando e criamos asas.
Junto a elas a necessidade de alçar voos cada vez mais altos.
E quando menos se espera, estamos trilhando os caminhos da vida.

Às vezes tropeçamos e caímos.
Às vezes seguimos sem dificuldades.
Durante os tropeços e quedas, aprendemos que um amigo pode nos orientar e mostrar como nos levantar, mas cabe a nós o primeiro passo.

Ninguém pode caminhar por nós.
Somos nós os responsáveis por nossos atos, palavras e pensamentos, e mais ninguém.

Um dia, caminhamos ao lado de um amigo.
Noutro, somos acompanhados por eles.
E, num belo dia, nos vemos no lugar de nossos pais, ensinando a outras pessoinhas a dar os primeiros passos da vida.

Deus é muito sábio.
Ele coloca anjos no caminho para que possamos prosseguir, mas nunca trilhar o caminho que cabe somente a você andar.
Namastê!
Cristina Corradi

Cuida de Mim

Pra falar verdade, às vezes minto 
Tentando ser metade do inteiro que eu sinto 
Pra dizer às vezes o que às vezes não digo

Sou capaz de fazer da minha briga meu abrigo 
"Tanto faz" não satisfaz o que preciso 
Além do mais quem busca nunca é indeciso 

Eu busquei quem sou 
Você pra mim mostrou 
Que eu não sou sozinha nesse mundo

Cuida de mim
Enquanto não me esqueço de você 
Cuida de mim
Enquanto finjo que sou quem eu queria ser 
Cuida de mim
Enquanto não me esqueço de você 
Cuida de mim
Enquanto finjo…
Enquanto fujo…

Basta as penas que eu mesmo sinto de mim 
Junto todas
Crio asas
Viro querubim

Sou da cor do tom, sabor e som que quiser ouvir 
Sou calor, clarão e escuridão que te faz dormir

Quero mais, quero a paz que me prometeu 
Volto atrás se voltar atrás assim como eu 

Busquei quem sou 
Você pra mim mostrou 
Que eu não estou sozinha nesse mundo

Cuida de mim
Enquanto não me esqueço de você 
Cuida de mim
Enquanto finjo que sou quem eu queria ser 
Cuida de mim
Enquanto não me esqueço de você 
Cuida de mim
Enquanto finjo…
Enquanto fujo…

O Anjo mais Velho
O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete
A cena se inverte
Enchendo a minha alma d’aquilo
Que outrora
Eu deixei de acreditar

Tua palavra
Tua história
Tua verdade fazendo escola e
Tua ausência fazendo silêncio em todo lugar

Metade de mim agora é assim
De um lado a poesia, o verbo, a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto...
Depende de como você vê
O novo, o credo, a fé
Que você deposita em você
E só

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Fernando Anitelli
O Teatro Mágico



João e Maria - Hansel e Gretel

Em frente a uma grande floresta morava um pobre lenhador com a mulher e dois filhos; o menino chamava-se João e a menina Maria. Tinham muito pouco com que se alimentar, e, sobrevindo na cidade uma grande carestia, nem mesmo o pão de cada dia mais conseguiam.

Numa dessas noites, quando atormentado pelas preocupações não conseguia dormir e ficava revirando inquieto na cama, entre um suspiro e outro, disse à mulher:
- Que será de nós? Como alimentaremos nossos filhos, se nada temos nem para nós?
- Ouça, meu caro marido, - disse ela - amanhã cedo, levaremos as crianças para o mais cerrado da floresta, aí lhes acenderemos uma fogueira e lhes daremos um pedaço de pão para que se alimentem;
depois iremos para o nosso trabalho e os deixaremos lá sozinhos; eles não conseguirão encontrar o caminho de casa e assim ficaremos livres deles.
- Não, mulher, isso não posso fazer. Se abandonar meus filhos sozinhos na floresta, não tardarão as feras a devorá-los, como poderei viver depois?
- És um tolo, isso sim. Teremos de morrer os quatro de fome e não te resta se não aplainar as tábuas para os nossos caixões.
Contudo, não deu sossêgo ao pobre marido até ele concordar.
- Mas as pobres crianças causam-me uma pena imensa! - repetia ele.

As crianças também, de tanta fome, não conseguiam dormir; assim ouviram tudo o que a madrasta dizia ao pai. Chorando amargamente, Maria disse a João:
- Está tudo acabado para nós!
- Não te aflijas, - respondeu João - não tenhas medo, eu sei o que hei de fazer.

Assim que os velhos adormeceram, João levantou-se bem de mansinho, vestiu o paletó, abriu a porta da frente e saiu. A lua resplandecia diáfana e os seixos branquinhos cintilavam diante da casa como se fossem moedas recém-cunhadas. O menino apanhou e colocou-os no bolso quantos pôde. 
Depois voltou para casa e disse a Maria:
- Tranqüiliza-te, querida irmã, e dorme sossegada; Deus não nos abandonará.
E deitou-se novamente.

Ao amanhecer, antes ainda do sol raiar, a mulher acordou as crianças, dizendo:
- Levantem-se, seus vadios. Vamos catar lenha na floresta.
Deu um pedaço de pão a cada um e disse:
- Eis aqui para o vosso almoço; mas não deveis comê-lo antes do meio-dia, se não nada mais tereis que comer depois.
Maria guardou o pão no avental pois João estava com os bolsos cheios de pedras. Em seguida, foram todos rumo à floresta. Tendo caminhado um certo trecho, João parou e olhou em direção a sua casa; fez isso repetidas vezes, até que o pai, intrigado, lhe perguntou:
- Que tanto olhas, João, e por que ficas sempre para trás? Vamos, apressa-te.
- Ah, papai, - disse o menino - estou olhando para o meu gato branco, que, de cima do telhado, está acenando para mim.
- Tolo, não é o teu gato - interveio a mulher; - não vês que é o sol da manhã brilhando na chaminé?
Mas João não olhava para gato algum; era apenas um pretexto para, todas as vezes, deixar cair no caminho uma das pedrinhas brilhantes que trazia no bolso.

Quando, finalmente, chegaram ao meio da floresta, disse-lhes o pai:
- Juntemos um pouco de lenha, meninos, vou acender uma fogueira para que não fiqueis enregelados.
João e Maria juntaram uma boa quantidade de gravetos e ramos secos, com os quais acenderam a fogueira; assim que as chamas se elevaram, disse-lhes a mulher:
- Deitai-vos juntos do fogo, meninos, enquanto nós vamos rachar lenha; uma vez terminado o nosso trabalho, viremos buscar-vos.
João e Maria sentaram-se perto do fogo e, ao meio-dia, cada qual comeu o seu pedaço de pão. Ouvindo os golpes do machado, julgaram que o pai estivesse aí por perto; mas não era o machado, era simplesmente um galho que ele havia amarrado a uma árvore seca e que batia sacudido pelo vento. Ficaram muito tempo sentados junto do fogo, depois, pelo cansaço, foram-se-lhes fechando os olhos até adormecerem profundamente.

Quando despertaram, era já noite avançada. Maria pôs-se a chorar com medo.
- Como sairemos agora da floresta?
- Espera um pouco - disse-lhe João para a consolar - espera até surgir a lua, aí encontraremos o caminho.

Não tardou, apareceu a lua resplandecente. João tomou a irmã pela mão e juntos foram seguindo as pedrinhas, que brilhavam como moedas novas e lhes indicavam o caminho. Andaram a noite toda; ao despontar da aurora, chegaram à casa paterna. Bateram na porta e, quando a mulher abriu, vendo os dois na sua frente, disse, muito zangada:
- Crianças malvadas, por que dormistes tanto na floresta? Até pensamos que não queríeis mais voltar para casa.
O pai, ao contrário, alegrou-se ao vê-los, pois remoía-o o remorso por os ter abandonado lá sozinhos.

Assim passou um certo tempo. Depois a miséria tornou a invadir a casa e, uma noite, quando estavam deitados, os meninos ouviram a madrasta dizer ao pai:
- Já comemos tudo o que havia em casa, só nos resta meio pão, e com ele acaba a ração. E' necessário que as crianças vão embora; desta vez, porém, os conduziremos mais para o embrenhado da floresta, a fim de que não encontrem o caminho de volta. Não nos resta outra solução.

O homem sentiu apertar-lhe o coração e ia pensando: "Seria melhor que repartisse seu último bocado com os filhos"; e relutava em concordar. A mulher, porém, não queria dar-lhe ouvido e censurava-o asperamente. Desde que havia cedido da primeira vez, viu-se forçado a ceder da segunda.

As crianças, que ainda estavam acordadas, ouviram toda a conversa. Assim que os velhos adormeceram, João levantou-se novamente para sair de mansinho, como da outra vez, para catar os seixos lá fora; mas a madrasta havia trancado a porta e ele não pôde sair. Entretanto, consolou a irmã, dizendo:
- Não chores Maria, dorme sossegada; o bom Deus há de nos ajudar.
Ao raiar do dia, na manhã seguinte, a madrasta tirou as crianças da cama. Cada um deles recebeu um pedaço de pão, ainda menor que da vez anterior. A caminho da floresta, João esfarelou-o no bolso e, de quando em quando, parava a fim de, jeitosamente, deixar cair as migalhas.
- Que tanto olhas para trás, João, e por que te demoras? - perguntou o pai.
- Estou olhando para o meu pombo que está me dizendo adeus de cima do telhado.
- És um tolo, - disse a mulher - não vês então que não é o teu pombo, mas sim o sol nascente, que brilha na chaminé.
Entretanto, o menino fora esparramando, pouco a pouco, as migalhas pelo longo do caminho.

Dessa vez a madrasta conduziu as crianças ainda mais para o interior da floresta, para um lugar em que jamais haviam estado. Acenderam, novamente, uma grande fogueira e ela disse-lhes:
- Ficai aqui, quietinhos, meninos. Quando estiverdes cansados, deitai-vos e dormi um pouco; enquanto isso, nós iremos rachar lenha e, à tarde, ao terminar nosso trabalho, viremos buscar-vos.

Ao meio-dia, Maria repartiu seu pedaço de pão com João, que havia espalhado o dele pelo caminho. Depois adormeceram e anoiteceu; mas ninguém foi buscá-los. Acordaram quando já era noite alta e a menina pôs-se a chorar. João consolou-a, dizendo:
- Espera até surgir a lua, aí então veremos as migalhas de pão que espalhei e por elas encontraremos o caminho de casa.

Quando surgiu a lua, levantaram-se, mas não encontraram mais nem uma só migalha; os passarinhos, que andam por toda parte, tinham comido todas. João então disse à Maria:
- Não tem importância, havemos de encontrar o caminho de qualquer maneira.

Não encontraram o caminho e caminharam toda a noite e mais um dia inteiro sem conseguir sair da floresta. Estavam com uma fome tremenda, pois só tinham comido algumas amoras, e tão cansados que as pernas não se agüentavam mais; então, deitaram-se debaixo de uma árvore e adormeceram.

Era já a terceira manhã, depois que haviam saído da casa do pai; retomaram novamente o caminho, mas cada vez se embrenhavam mais pela floresta a dentro e, se ninguém viesse em seu socorro, certamente acabariam morrendo de fome.

Ao meio-dia, avistaram um lindo passarinho, branco como a neve, pousado num galho; cantava tão maravilhosamente que os meninos pararam para ouvi-lo. Quando acabou de cantar, vou na frente deles, que foram o acompanhando, e assim chegaram a uma casinha onde o passarinho foi pousar no telhado. Chegando bem perto, viram que a casinha era feita de pão-de-ló e coberta de torta, com janelinhas de açúcar.
- Mãos à obra! - exclamou satisfeito João - podemos fazer uma excelente refeição. Eu comerei um pedaço do telhado e tu, Maria, podes comer um pedaço da janela; é doce.
João ergueu-se na ponta dos pés, estendeu as mãos e arrancou um pedaço de telhado para provar que sabor tinha. Maria, aproximando-se dos vidros da janela, pôs-se a lambiscá-los. Então, de dentro da casa, saiu uma voz estridente:

- Rapa, rapa, rapinha,
Quem rapa a minha casinha?

Os meninos responderam:

- O vento, sou eu.
O filho do céu.

e continuaram comendo, sem se perturbar. João, que achava o telhado delicioso, arrancou um belo pedaço e Maria apoderou-se de um vidro inteiro, redondo; sentou-se no chão e comeu-o deliciada.

Mas, de repente, abriu-se a porta e num passo trôpego saiu uma velha decrépita, apoiada numa muleta. João e Maria assustaram-se de tal maneira que deixaram cair o que tinham nas mãos. A velhinha, porém, balançando a cabeça, disse-lhes:
- Ah, meus queridos meninos, quem vos trouxe aqui? Entrai e ficai comigo, aqui nenhum mal vos acontecerá.
Pegou-os pela mão e levou-os para dentro da casinha. Aí serviu-lhes uma deliciosa refeição, composta de leite e bolinhos, maçãs e nozes; depois foram preparadas para eles duas lindas caminhas, muito limpas e alvas; João e Maria, muito cansados, deitaram-se, julgando estar no céu.

A velha fingia ser muito boa, mas na verdade era uma bruxa muito má, que atraía as crianças; para isso havia construído a casinha de pão-de-ló. E, quando caía em suas mãos alguma criança, ela matava-a, cozinhava-a e comia-a, e esse dia era para a bruxa um dia de festa.

As bruxas são, geralmente, míopes e têm os olhos vermelhos, mas são dotadas de um olfato muito agudo, como os animais, o que lhes permite pressentir a chegada de criaturas humanas. Portanto, quando João e Maria se aproximaram da casa, ela riu sarcasticamente, dizendo com os seus botões: "Estes caíram em meu poder, não me escaparão mais."

Pela manhã, bem cedinho, antes que os meninos acordassem, levantou-se e foi espiá-los. Vendo-os bochechudos e corados, dormindo como dois anjinhos, murmurou: "Que petisco delicioso vou ter!" E agarrando João com seus dedos aduncos, levou-o para um chiqueiro, trancando-o dentro das grades de ferro; e de nada lhe adiantou gritar e espernear.
Depois foi a vez de Maria. Com um safanão, despertou-a e gritou:
- Levanta-te, preguiçosa! Vai buscar água e prepara uma boa comida para teu irmão, que está preso no chiqueiro e deve engordar. Pois, assim que estiver bem gordinho, quero comê-lo.

Maria desatou a chorar amargamente. Mas seu pranto foi inútil e teve mesmo de fazer o que a perversa bruxa lhe ordenava.
Maria, então, preparava os manjares mais requintados para João, enquanto ela não recebia mais do que algumas cascas de caranguejos para comer. Toda manhã a velha arrastava-se até junto da grade e dizia:
- João, mostra-me teu dedinho, quero ver se está gordinho!
João, porém, mostrava-lhe sempre um ossinho e a velha, que era extremamente míope, não podendo ver direito, julgava que fosse o dedo do menino, ficando muito admirada por ele nunca engordar.

Passadas quatro semanas, visto que João continuava sempre magro, perdeu a paciência e resolveu não esperar mais.
- Vamos, Maria, - ordenou à menina - traz água depressa; gordo ou magro não importa, matarei assim mesmo João e amanhã o comerei.
Como chorou a pobre irmã ao ter de trazer a água! Como lhe corriam abundantes as lágrimas pelas faces!
- Ah, Deus bondoso, ajuda-nos! - implorava ela. - Antes nos tivessem devorado as feras no meio da floresta! Pelo menos teríamos morrido juntos!
- Deixa de lamentações, - gritou a velha - elas de nada adiantam.
Pela manhã, bem cedo, Maria teve de ir buscar água, encher o caldeirão e acender o fogo.
- Primeiro vamos assar o pão, já preparei a massa, - disse a bruxa - e já acendi o forno.
Empurrou a pobre Maria para perto do forno do qual saíam grandes labaredas.
- Entra lá dentro, - disse a velha - e vê se já está bem quente para poder assar o pão.
Assim, pensava a bruxa, quando Maria estivesse lá dentro, fecharia a boca do forno, e a deixaria assar para comê-la também. A menina, porém, adivinhando sua intenção, disse:
- Eu não sei como se faz! Como é que se entra?
- Tonta, estúpida, - disse a velha - a abertura é bastante grande, olha, até eu poderia entrar!

Assim dizendo, aproximou-se da boca do forno, colocando primeiro a cabeça. Maria, então, com um forte empurrão fez com que ela entrasse no forno e fechou rapidamente a porta de ferro com o cadeado. Uh! Que berros horríveis soltava a bruxa! Maria, porém, saiu correndo e a velha acabou morrendo, miseravelmente queimada.

Chegando ao chiqueiro, a menina abriu a portinhola, dizendo ao irmão:
- João, corre, estamos livres; a velha bruxa morreu.
João então saiu pulando, alegre como um passarinho ao lhe abrirem a gaiola. Com que felicidade se abraçaram e beijaram, rindo e dançando? 

Como nada mais tinham a temer, percorreram a casinha da bruxa
e viram espalhadas pelos cantos grandes arcas cheias de pérolas e pedrarias preciosas.
- Estas são bem melhores do que os seixos!
- disse João, enquanto ia enchendo os bolsos até não poder mais.
- Também quero levar um pouco disso para casa. - disse Maria - E foi enchendo o avental.
- Agora vamos embora daqui, - disse João - temos que sair da floresta da bruxa.

Após terem andado durante algumas horas, chegaram à margem de um rio muito largo.
- Não é possível atravessá-lo, - disse João
- pois não vejo ponte alguma.
- Nem mesmo um barco, - disse Maria,
- mas olha, aí vem vindo uma pata branca; se lhe pedirmos, ela certamente nos ajudará a atravessar. Pôs-se a chamá-la:

- Patinha, patinha.
Aqui estão João e Maria.
Não podemos passar,
Queres nos levar?

A pata acercou-se da margem e João sentou em suas costas, dizendo à irmã que também sentasse, bem junto a ele. Mas Maria respondeu:
- Não, ficaria muito pesado para a boa patinha, é melhor que ela nos transporte um de cada vez.

Assim fez a boa patinha; e quando, felizmente, chegaram ao outro lado, depois de caminhar um bom percurso, o bosque foi se tornando mais familiar até que por fim viram a casa do pai. Começaram a correr
em sua direção, e lá chegando, pularam no pescoço do pai, cobrindo-o de beijos.

O pobre homem nunca mais tivera uma hora feliz desde que abandonara as crianças no meio da floresta. A mulher (para felicidade de todos) havia morrido. Então Maria sacudiu o avental, deixando rolar pelo chão as pérolas e as pedras preciosas; João acrescentou todo o conteúdo de seus bolsos.

Acabaram-se todos os sofrimentos e preocupações e, desde esse dia, viveram os três contentes e felizes pelo resto da vida.
Irmãos Grimm

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...